Fundadores da CanaVialis criam cana só para biomassa

Fonte:  Valor | Gerson Freitas Jr. | De São Paulo

Biotecnologia: Lançada a Vignis, com foco em melhoramento genético

João Brito/Valor

Matsuoka (esq.) e Rubio explicam que a nova companhia está desenvolvendo uma planta batizada de "cana energia", rica em fibras e com menos teor de açúcar

O administrador Luis Claudio Rubio e o engenheiro agrônomo Sizuo Matsuoka se conheceram em 2002. Rubio, então um executivo do fundo de capital de risco da Votorantim, estudava um plano de negócios para uma empresa formada por um grupo de pesquisadores do programa de melhoramento genético em cana-de-açúcar da Universidade Federal de São Carlos, chefiado por Matsuoka. Um ano depois, nasceu a CanaVialis.

A empresa de biotecnologia tornou-se um dos empreendimentos mais bem-sucedidos da década no setor de cana-de-açúcar. Em poucos anos, abocanhou 15% do mercado doméstico, firmou parcerias com as maiores usinas do país e despertou interesse internacional. Até que, em 2008, a Votorantim Novos Negócios vendeu a companhia para a Monsanto, em uma transação da ordem de R$ 300 milhões.

Últimos remanescentes do grupo que fundou a CanaVialis, Rubio e Matsuoka deixaram a empresa poucos meses após sua aquisição pela multinacional americana. Durante dois anos, cumpriram um contrato de não-competição. Agora, afirmam estar preparados para um voo mais alto – e, desta vez, com as próprias asas. A nova empreitada atende pelo nome de Vignis.

Tal como a CanaVialis, a Vignis é uma empresa de melhoramento genético em cana-de-açúcar, mas com objetivos diferentes. Por meio de cruzamentos tradicionais, a companhia está desenvolvendo uma nova planta, batizada de "cana energia". "Trata-se de uma variedade muito mais rica em fibras e com muito menos açúcar", explica Matsuoka. Enquanto uma variedade convencional do cana tem aproximadamente 13% de fibra e até 17% de açúcar, a nova variedade tem 24% de fibra e até 8% de açúcar, detalha o pesquisador.

O produto tem uma finalidade específica: fornecer biomassa para a produção de energia, a partir da queima direta, ou matéria-prima para produtos químicos, como plásticos verdes e etanol celulósico – esta, a grande aposta -, tão logo a tecnologia esteja madura. A ideia da dupla é que indústrias não atreladas à produção de açúcar, como a siderúrgica e a de combustíveis, passem a utilizar o bagaço da cana como matéria-prima. "Hoje a produção de energia a partir da cana passa antes pela extração do açúcar. A cana energia poderá ir direto para a caldeira", afirma Rubio. De acordo com ele, o bagaço poderá ser usado para se produzir carvão vegetal, com produtividade muito superior ao carvão feito a partir do eucalipto.

Rubio explica que a ideia nasceu ainda nos primeiros anos da CanaVialis, mas que a Monsanto não se interessou pelo projeto. "Por volta de 2005, a CanaVialis já tinha a visão de que um dia haveria um mercado de biomassa, então começamos a pesquisar variedades mais fibrosas. Mas a Monsanto queria se concentrar em um mercado pronto, como é o de melhoramento genético para a cana-de-açúcar", diz.

Rubio explica que a Vignis não vai se limitar a desenvolver e licenciar novas variedades de cana, como é o negócio da CanaVialis. "Nossa intenção é desenvolver, mas também produzir e entregar a cana na porta do cliente. E possivelmente até exportar". Por isso, diz, a empresa planeja arrendar ou comprar terras perto dos futuros compradores. O executivo espera firmar os primeiros pré-contratos por volta de abril do ano que vem, quando a empresa vai colher sua primeira série de clones. Contudo, a empresa só deve começar a faturar em 2014. "Este é um mercado ainda inexistente. Estamos criando algo novo", afirma.

Matsuoka, que está envolvido com a pesquisa de cana desde 1968, explica que a nova variedade poderá produzir até 200 toneladas de biomassa por hectare. "Isso significa um potencial energético duas vezes e meia maior do que o obtido hoje, na média", explica. O pesquisador destaca ainda que a variedade desenvolvida pela Vignis poderá ser cultivada em solos mais pobres, com menos fertilizantes, além de ser mais tolerante à falta de chuvas. "Poderemos plantar em áreas degradadas como no sul do Paraná e em partes do Rio Grande do Sul, onde a cana convencional não chega".

Rubio e Matsuoka são, por enquanto, os únicos sócios da empresa. Eles não revelam o quanto estão investindo, mas garantem que todo dinheiro está saindo dos próprios bolsos. "Vamos sozinhos enquanto for possível", afirma Rubio.

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