Fumo atrai invasão chinesa no Rio Grande do Sul

Grupos de executivos cruzam o globo para negociar tabaco e aproveitam para fazer turismo e compras em vários municípios

Fumo atrai invasão chinesa no Rio Grande do Sul Bruno Viegas/Especial

Em Santa Cruz do Sul, grupo visitou uma tradicional churrascaria gaúcha Foto: Bruno Viegas / Especial

Vanessa Kannenberg

vanessa.kannenberg@zerohora.com.br

Sentado em uma mesa ao ar livre na principal rua de Santa Cruz do Sul, um grupo de chineses se mistura a moradores em uma noite de meio de semana. A cena se repete com frequência crescente nas ruas, nos hotéis e nos restaurantes da cidade habituada a receber estrangeiros ligados à indústria do tabaco.

Nos últimos anos, a frequência e o número de visitantes asiáticos têm aumentado. O fenômeno é consequência do crescimento da participação dos chineses no comércio de tabaco brasileiro, que neste ano deve registrar a maior receita de sua história. Em 2013, a expectativa é de que as exportações de fumo do Rio Grande do Sul cheguem a

R$ 2,5 bilhões, com ganhos que se revertem para o produtor – a safra é a mais rentável dos últimos anos.

Embora o Brasil receba compradores de várias nacionalidades, os chineses alavancaram as exportações nacionais, que bateram recorde em 2012. Há dois anos, a China se tornou o maior importador do tabaco brasileiro. Em 2012, o Brasil vendeu aos chineses US$ 478 milhões em fumo, cerca de 14,6% dos embarques totais para o Exterior.

Churrasco e chimarrão encantam os visitantes

No segmento, a maioria dos compradores prefere negociar pessoalmente, para conferir de perto a qualidade do tabaco e escolher entre os variados tipos e classes de fumo em diferentes proporções, formando o chamado blend (mistura, em inglês). Na sequência, são adicionadas essências que caracterizam o sabor e aroma de cada marca.

O tempo de permanência dos estrangeiros no Estado oscila conforme o objetivo do grupo, variando de uma semana a três meses. Em solo gaúcho, a maioria se hospeda no Vale do Rio Pardo, maior região produtora e sede da indústria fumageira. Depois de cumprir a missão, os grupos fazem passeios, para conhecer a serra gaúcha ou comprar pedras semipreciosas em Soledade. Com isso, comitivas que variam de 10 a 50 chineses são vistas com cada vez mais frequência no Interior.

Depois de 40 dias no Estado, um grupo de 15 chineses leva boas lembranças no retorno ao seu país. Zhang Lili, 27 anos, esteve no Brasil pela primeira vez. Com um inglês arranhado e recorrendo diversas vezes ao smartphone, onde desenhava os caracteres do mandarim para traduzi-los ao inglês, contou estar fascinado com o país.

– É tudo lindo. As paisagens, os lugares e as pessoas, que são também muito simpáticas. Gostei do chimarrão e do churrasco. Quero morar aqui um dia, trazer minha esposa e viver aqui – confidencia Lili, que pode se juntar a diversos empresários chineses que já vieram morar no Estado e hoje atuam no negócio de tabaco.

Nos quartos de hotel, chá e comida a vácuo

Com uma cultura diferente da ocidental, os chineses, que costumam vir em comitivas mais numerosas do que as demais nacionalidades, principalmente para fazer compras entre fevereiro e maio, recebem tratamento especial dos hotéis e empresas.

Segundo Cristiano Albert Schweizer, gerente do Hotel Aquarius Flat Residence, de Santa Cruz, os asiáticos gostam de comodidade, autonomia e discrição. Por isso, costumam procurar os quartos do tipo flat, pouco maiores do que os convencionais.

– Eles gostam de fazer chá e costumam preparar algumas refeições individualmente, por isso escolhem quarto com cozinha – diz Schweizer.

Famosa por iguarias vistas com desconfiança pelos ocidentais, a comida chinesa tem muitos ingredientes do dia a dia comuns aos do Brasil, com mudanças apenas em tempero e forma de preparo. Arroz, massa e carnes populares como porco, peixe e frango são muito comuns na China.

– Servimos para eles o café da manhã em ambiente separado, com cardápio exclusivo, muitos vegetais, frutas brasileiras, que eles gostam muito, além de sopas, ovo frito e arroz. Também os deixamos livres para preparar seus pratos. Muitos trazem alimentos da China embalados a vácuo – afirma a gerente de hospedagem do Aquarius, Karina Mezzomo.

O estabelecimento também oferece aos visitantes canais chineses de TV.

Passeio inclui serra e pedras preciosas

Enquanto estão hospedados no Estado, os chineses contam com a hospitalidade das próprias empresas. Os anfitriões proporcionam jantares e viagens de lazer aos estrangeiros.

Segundo Eduarda Dummer, secretária-executiva da China Tabaco Internacional, subsidiária de uma estatal chinesa com escritório em Santa Cruz do Sul, os roteiros favoritos são Gramado, Canela e Bento Gonçalves, na serra gaúcha, além de Foz do Iguaçu, Rio de Janeiro e Manaus.

– Eles também gostam muito de ir a Soledade, para comprar pedras semipreciosas. Levam de presente para amigos e familiares – conta Eduarda.

Dados do Sindicato das Indústrias de Joalheria, Mineração, Lapidação, Beneficiamento e Transformação de Pedras Preciosas apontam a China como destino de 34% das exportações de semipreciosas no Estado. Zhang Lili foi um dos compradores. Orgulhoso, o chinês disse que a mulher ficará feliz com os presentes.

ZERO HORA – Santa Cruz do Sul

Fonte: Zero Hora

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