FSC aprova certificação para floresta nova

Fonte:  Valor | Bettina Barros | De São Paulo

Ambiente: Moção, que dividiu membros da organização, beneficiará empresas envolvidas em desmatamentos recentes

Daniel Waistein/ Valor

"Não podemos fingir que as florestas plantadas não existem. O sistema precisa correr atrás", diz Fabíola Zerbini, do FSC

O Conselho Brasileiro de Manejo Florestal (FSC, em inglês) aprovou, na Assembleia Geral deste ano, 27 moções que ajustam as regras de certificação de madeira no mundo. Mas uma delas chamou a atenção por ter colocado em dois lados opostos os quase 400 membros da organização: a certificação de madeira de empresas envolvidas em desmatamentos recentes.

Polêmica, a moção 18 permitirá que florestas plantadas a partir de 1994 possam pleitear a certificação socioambiental. Até então apenas florestas antigas – plantadas antes desse ano – tinham o privilégio. Segundo alguns ambientalistas, a decisão beneficiará sobretudo países onde o desmatamento de florestas nativas tem sido exponencial, como a Malásia, a Indonésia e também o Brasil.

"Será mais um incentivo para a expansão das plantações em áreas de florestas", disse Winnie Overbeek, do World Rainforest Movement (WRM), em entrevista recente ao site mongabay.com, especializado em assuntos ambientais.

A certificação FSC foi criada no início dos anos 90 como forma de garantir o manejo correto das matas nativas. Formada por três câmaras – social (sindicatos, agricultores familiares e comunidades indígenas, etc), ambiental (ONGs) e econômica (empresas) -, ela tenta garantir renda às populações tradicionais, através da exploração sustentável da madeira, e a consequente sobrevivência da floresta.

Mas não demorou para que a discussão sobre a inclusão das florestas plantadas fosse iniciada no grupo. "Não podemos fingir que as [florestas] plantadas não existem. O sistema precisa correr atrás, ainda que sob custos", afirmou ao Valor a secretária-executiva do FSC Brasil, Fabíola Zerbini, ainda sob efeito do fuso-horário malaio.

Por maioria nas três esferas do FSC, a medida foi aprovada porque prevaleceu esse raciocínio. O argumento favorável é que a certificação forçará as empresas que desmataram nos últimos anos a se adequarem aos princípios da organização. Entre outras coisas, isso significa direito à sindicalização, salários dignos, respeito às culturas locais, mitigação de impactos ambientais. "Se elas quiser se certificar, vão ter que olhar para isso", diz Fabíola. Em outras palavras, é a tese do "menos pior", acrescenta.

Além disso, é uma maneira de alavancar o volume de madeira certificada disponível no mercado. Alguns países, como a Holanda, e cidades como São Paulo, já obrigam a utilização de toras certificadas nas construções civis públicas.

No mundo, há hoje aproximadamente 88,7 milhões de hectares de florestas nativas certificadas (62% do total) e 14,27 milhões de hectares certificados de plantadas (10%) e 40,17 milhões de hectares das fontes mistas (nativas e plantadas, perfazendo 28%). No Brasil, são quase 6 milhões de hectares certificados, entre nativas e plantadas. Metade está na Amazônia.

Na prática, a moção 18 não mudará nada antes de dois anos. Isso porque o primeiro passo após a aprovação é a criação de um Grupo de Trabalho para definir as circunstâncias sob as quais a certificação poderá ocorrer. As definições serão submetidas à consulta e aprovação dos membros do FSC.

Contrários à medida lembram que uma monocultura jamais poderá ser considerada "socialmente justa, ambientalmente adequada e economicamente viável", como preza o FSC. Para esse grupo relevante, floresta plantada continua não sendo floresta – é agricultura.

Um comentário em “FSC aprova certificação para floresta nova

  1. O sistema FSC – Forest Stewardship Council através de seu escritório nacional (FSC Brasil) vem esclarecer ao Jornal Valor Econômico algumas informações a respeito da matéria “FSC aprova certificação para floresta nova”, publicada no Caderno Agronegócios, na data de hoje.
    A matéria discorre sobre a aprovação da moção no 18 durante a última Assembleia Geral do FSC, que em seu texto original propunha a criação de um grupo de trabalho interno ao FSC para estudar a possibilidade de certificação de florestas plantadas em áreas convertidas (desmatadas) após 1994. Ocorre que este texto não foi aprovado em seu formato original.
    O texto que foi de fato aprovado se refere expressamente a retomada do grupo de trabalho de florestas plantadas, com objetivo de dar continuidade aos estudos técnicos sobre temas relevantes a esta agenda, de forma a potencializar o papel do sistema FSC em propor estratégias que incentivem e fomentem práticas sustentáveis neste setor.
    O sistema FSC é um espaço plural e heterogêneo, que envolve distintos setores da sociedade global no debate aberto e na construção de estratégias comuns em nome da conservação e uso racional das florestas de todo o mundo. A sua força reside exatamente na transparência e na isenção de seus processos decisórios e informativos.
    Assim, cabe esclarecer que o tema de certificação de áreas plantadas convertidas após 1994 está presente dentro do sistema, sem, entretanto, ter sido definido nesta última assembleia. Cabe ao grupo de trabalho e aos mais de quatrocentos membros do FSC no mundo definirem, nos próximos anos, por que rumo adotar frente a este tema polêmico e atual.

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