Frio eleva preços do gado bovino nos EUA

Orlin Wagner/AP / Orlin Wagner/AP
Gado em pastagem coberta de neve no Kansas; frio extremo nos EUA fez preços alcançarem nível recorde em Chicago

Quando as temperaturas caíram para o recorde de 32 graus centígrados negativos, os peões da fazenda de Dean Wang, em Baker Montana, incrementaram a ração de feno de alfafa para dar a seu gado bovino mais energia em meio à massa de ar ártico.

"O gado precisa de mais ração apenas para manter a temperatura corporal, em vez de direcionar essa energia extra para ganhar peso", disse Wang, de 46 anos, dono de cerca de 850 vacas que vão parir nesta primavera americana e de 550 novilhos. "Neste ano, todos começaram a alimentar [o gado] um pouco antes do que gostariam, por causa da forte neve e do frio".

O frio profundo que varreu os Estados Unidos na semana passada, além de cancelar viagens e elevar o uso de combustíveis, agravou a pressão sobre o mercado doméstico de carne bovina, que já estava em declínio, às voltas com a alta nos custos e outros problemas climáticos. Várias culturas, da laranja ao trigo de inverno, escaparam de maiores danos, mas o frio tornou mais lento o crescimento do gado. Também estendeu a onda de alta dos contratos futuros de gado em Chicago, que chegaram a novos patamares recorde, sinalizando maiores custos com a carne bovina para restaurantes, desde o McDonald’s Corp. ao Texas Roadhouse Inc.

O rebanho bovino nos EUA encolheu por seis anos consecutivos para o menor número desde 1952, de acordo com números do governo. Uma seca recorde em 2011 destruiu pastagens no Texas, principal Estado produtor. No ano seguinte, os preços dos grãos para ração dispararam, após o maior período de seca no Meio-Oeste desde os anos 30. Com menos gado, a produção da indústria de carne bovina, que movimenta US$ 85 bilhões, vai cair para o menor nível em 20 anos em 2014, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.

O preço futuro do boi subiu 12% desde o fim de junho e chegou a US$ 1,377 por libra-peso em 9 de janeiro, maior valor desde o início das negociações na Bolsa Mercantil de Chicago (CME, na sigla em inglês) em 1964. O índice GSCI, da Standard & Poor’s, de 24 matérias-primas, avançou 0,7% no período.

Os preços podem chegar a US$ 1,405 neste ano, segundo a mediana de estimativas de seis analistas consultados pela Bloomberg. Os contratos futuros subiram por cinco anos seguidos, até 2013, maior sequência na história.

A produção comercial de carne bovina nos EUA pode cair 5,4% neste ano para 11,03 milhões de toneladas, menor volume desde 1994, segundo informou o Departamento de Agricultura em 10 de janeiro. O rebanho encolheu para 89,3 milhões de cabeças em 1º de janeiro de 2013, menor número em 61 anos. A agência vai atualizar os números em 31 de janeiro.

Os animais precisam gerar calor suficiente para ficar aquecidos durante climas frios, segundo Dustin Oedekoven, veterinário na Dakota do Sul. Quando o gado usa a energia para ficar aquecido, gasta as calorias que lhe fariam ganhar peso.

O impacto do frio da semana passada pode ser limitado, já que a ração extra é comum durante os meses de inverno e "no geral, não é um prejuízo", segundo Harry Knobbe, que cria gado em West Point, no Nebraska. Os criadores no Meio-Oeste preparam-se para levar os animais para as pastagens de inverno, onde há mais abrigos naturais ou artificiais contra o vento.

Embora os rebanhos estejam encolhendo, o mesmo ocorre com a demanda por carne bovina nos EUA. O consumo per capita pode encolher para 24,31 quilos neste ano, o menor desde pelo menos 1970, de acordo com projeções do governo dos EUA.

O número de cabeças de gado em confinamento em 1º de dezembro era o segundo menor nos registros, segundo dados do governo. Embora o milho tenha recuado 49% desde o recorde de US$ 8,49 por bushel em agosto de 2012, o preço ainda está 25% acima da média dos últimos 20 anos. O uso de grãos para alimentar os bovinos vai aumentar 22% neste ano, segundo o Departamento de Agricultura.

Mesmo com o declínio na demanda por carne nos EUA, o consumo mundial será o maior desde 2008, uma vez que o aumento de renda nas economias emergentes lhes permite gastar mais em proteínas. As exportações dos EUA somaram 1,7 bilhão de quilos nos 11 meses até 30 de novembro, 4,4% a mais do que no mesmo período de 2012. Japão, Canadá e México são os maiores compradores.

O encolhimento dos rebanhos e o aumento do preço da carne resultam em contas mais altas para consumidores, supermercados e restaurantes. Embora o custo global dos alimentos tenha caído 3,4% em 2013, o da carne subiu 0,5%, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Os consumidores podem pagar até 3,5% a mais pela carne neste ano, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Para o McDonald’s, maior rede de lanchonetes do mundo, a carne é um dos "maiores impactos no custo com commodities" nos EUA, segundo o diretor de finanças da empresa, Peter J. Bensen, disse em teleconferência com analistas sobre os resultados, em outubro passado. A Texas Roadhouse elevou os preços nos últimos dois anos, dentro dos esforços da rede de Louisville, no Kentucky, para "combater o que vem sendo uma inflação bem alta da carne bovina", disse o presidente da empresa, Scott Colosi, nesta semana, durante apresentação a investidores em Orlando.

Os pecuaristas mostram-se lentos em elevar a produção mesmo com a alta nos preços. Pode levar três anos para uma vaca procriar e para criar o bezerro até que ganhe peso para ser abatido.

As frias temperaturas podem continuar a trazer problemas para os fazendeiros, porque faz parte de um padrão de climas extremos que ocorre, mais ou menos, a cada dez anos e que agora vem assolando os EUA há mais de um mês, fazendo o clima oscilar de temperaturas amenas até congelantes, segundo Tom Kines, meteorologista da AccuWeather Inc., em State College, na Pensilvânia. A região afetada vai do norte do Meio-Oeste até o Sul e ao Atlântico do país.

"Quando você tem condições climáticas extremas como as que vimos na semana passada, vemos que parte do gado não ganha peso como deveria", disse Lane Broadbent, presidente da KIS Futures Inc., em Oklahoma City, que é corretora de commodities há mais de 20 anos. "Nossa oferta vai ser estreita e estamos vendo a demanda externa aumentar. Parece que vai ser um 2014 muito bom para os pecuaristas".

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Fonte: Valor | Por Elizabeth Campbell | Da Bloomberg

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