Frigoríficos acusam MPF de "abuso" e entram na Justiça

Associação acusa "flagrante abuso de poder" e diz querer impedir a violação de direitos das empresas

Mary Juruna/MidiaNews

 

O procurador da República Rodrigo Costa e Silva, um dos que propuseram ação contra frigoríficos

DA REDAÇÃO

Frigoríficos de Mato Grosso, Pará e Amazonas ingressaram, nesta segunda (22), na Justiça Federal de Brasília com ação contra o Ministério Público Federal (MPF), que acusa a indústria de adquirir e comercializar gado oriundo de propriedades com problemas ambientais e prática de trabalho escravo. No último dia 15, o MPF entrou com ação contra a Sadia S/A, a BRF Brasil Foods S/A (Sadia e Perdigão) e outros 19 frigoríficos de Mato Grosso (leia abaixo).

"Somos apenas solidários no processo de preservação ambiental. A indústria não comete ilícitos ambientais, pois apenas adquire a carne do pecuarista"

Na ação, a Abrafrigo (Associação Brasileira da Indústria Frigorífica) afirma que quer resguardar os interesses e direitos dos frigoríficos “diante do flagrante abuso de poder do MPF, visando impedir, de forma imediata, a violação de direitos pela imposição de assinatura do TAC (Termo de Ajustamento de Conduta)”.
Das 31 plantas de Mato Grosso, 22 já assinaram o TAC. Esta semana, outras empresas vão adotar o mesmo procedimento, como forma de se resguardarem das ações do MPF. Por recomendação da Abrafrigo, todas as empresas deverão aderir ao TAC. Porém, a indústria já deixou claro que irá recorrer na Justiça dessa decisão, por considerar que o segmento não é o responsável pelas práticas ilegais.
“Somos apenas solidários no processo de preservação ambiental. A indústria não comete ilícitos ambientais, pois apenas adquire a carne do pecuarista. Por isso, o setor não pode ser visto como o responsável por práticas ilegais, até porque não são as indústrias que produzem a carne, mas os pecuaristas. Outro problema é que o MPF deixa implícito que todos os frigoríficos estão adquirindo e vendendo carne ilegal. Por conta disso, o setor enfrenta dificuldades em comercializar seus produtos e corre o risco de boicote até por parte do mercado internacional”, afirmou Péricles Salazar, presidente da Abrafrigo.
Salazar veio a Cuiabá ontem para se reunir com representantes de indústrias mato-grossenses e mostrar as providências que a entidade vem adotando para garantir o funcionamento das empresas do Estado. Na avaliação dele, o MPF está violando o “princípio da ordem econômica” através de pressão e coerção, impondo a assinatura do TAC, sob ameaça de os frigoríficos sofreram ação civil pública. “A indústria frigorífica não tem outra opção. Ou assina [o TAC] ou é massacrada pelo MPF, tendo suas operações comerciais travadas no mercado. É um verdadeiro terrorismo o que estão fazendo com o nosso setor”.
"Cláusulas inexequíveis"
De acordo com Salazar, a indústria não discorda dos objetivos [quanto às práticas legais], mas dos métodos utilizados pelo MPF. “Por isso decidimos ingressar na Justiça para questionar a legalidade das cláusulas do TAC e da coerção praticadas contra a indústria”, explica.
Na ação, a Abrafrigo argumenta que o TAC possui cláusulas inexequíveis, que violam o interesse público e acabam por gerar denúncias e acusações genéricas, prejudicando como um todo um setor econômico que está sendo acusado como o responsável pelo dano ambiental existente na Amazônia Legal e pelo passivo ambiental decorrente de décadas de exploração irregular e insustentável. "A ilegalidade encontra-se no imóvel rural, pertencente aos pecuaristas e não às indústrias, sem que haja meios de comprová-las, o que afasta a responsabilidade solidária da cadeia”, diz a ação.
Na Justiça, a associação propõe a proibição da veiculação de acusações “genéricas e abstratas negativas que prejudicam o setor produtivo da carne bovina e que prejudicam as empresas que se encontram em situação regular no mercado”.
A entidade quer também proibir o MPF a recomendar aos compradores da cadeia produtiva (comércio varejista em geral) que não adquiram a carne dos frigoríficos que não assinaram o TAC, já que está-se diante de ameaças de fatos que sequer foram julgados ou oportunizada a defesa, sendo essas recomendações igualmente ilegais, por ferirem princípios da ordem econômica, principalmente o da liberdade de comércio e livre concorrência”.

Fonte: Mídia News