Frigorífico mineiro planeja retomar abates de cavalos até o fim deste ano

Claudio Belli/Valor / Claudio Belli/Valor
Área do Prosperidad onde ficavam animais para abate, hoje vazia; expectativa da empresa é voltar a operar este ano

Com capital de um investidor do Uruguai, um dos mais tradicionais frigoríficos especializados em carne de cavalo do Brasil espera voltar a operar até o fim do ano. A carne tem endereço certo: Bélgica, Holanda, África do Sul e Japão. Importadores desses países já disseram ter encomendas prontas de lotes de carne do Prosperidad, segundo a gestora do frigorífico, Sandra Catharino Jorge. Prosperidad é o nome que passou a ser usado após a aquisição das instalações do Pomar, frigorífico criado há cinco décadas em Araguari, na região do Triângulo Mineiro.

Sandra não revela o nome do investidor uruguaio que está por trás do negócio. Diz apenas que ele tem outros investimentos, inclusive no Brasil, e que já aportou cerca de R$ 15 milhões do frigorífico.

O Prosperidad tem dois concorrentes no país: o Foresta, no Rio Grande do Sul, empresa administrada por um grupo belga; e o Oregon, do Paraná. A reportagem procurou as duas empresas, mas nenhuma das delas quis responder sobre seus negócios. No ano passado, o Brasil exportou US$ 6,7 milhões, ou 2,3 mil toneladas de carne de equino. A pequena produção brasileira é praticamente toda exportada.

O investidor uruguaio comprou o frigorífico mineiro em 2010. Mas em 2012, o Prosperidad teve de suspender a produção. Um cavalo, que não pertencia à empresa, e que estava no centro de exposição de Araguari, foi diagnosticado com mormo, doença infecciosa cujos sintomas incluem lesões no pulmão, mucosas e gânglios linfáticos. A enfermidade é transmissível de animal para animal e do animal para o homem. Os países da União Europeia – principal mercado para a empresa – são rigorosos nesses casos. Barram as compras de carne de frigoríficos onde haja casos de mormo a menos de 10 quilômetros de distância. O centro de exposição fica a quatro quilômetros do frigorífico.

O episódio foi em junho. A empresa ficou de quarentena para os europeus e em agosto quando dois contêineres com 24 toneladas de carne de cavalo estavam prontos para sair da fábrica, mais dois cavalos apareceram com mormo no mesmo centro de exposição, conta Sandra. A empresa teve de incinerar os lotes.

O abate parou e as carnes que restaram foram exportadas até o fim de 2012, mas só para a África do Sul, onde as regras para o mormo são menos duras. Só que os sul-africanos consomem, segundo Sandra, apenas a dianteira do cavalo, sobretudo para fazer embutidos. O negócio do Prosperidad foi se tornando inviável. Abater só para exportar os cortes posteriores não fazia sentido. Em janeiro, a empresa demitiu 120 funcionários e virou uma estrutura quase fantasma.

O mercado europeu continuava fechado para a empresa porque os focos de mormo persistiam na cidade. Só entre março e abril deste ano foram debelados. Mas o Prosperidad já estava parado havia oito meses e para voltar a operar, diz Sandra, a empresa teve de passar por avaliações do Ministério da Agricultura dos equipamentos, das condições do prédio e do pessoal.

"Nossa expectativa é que nos próximos dez a 15 dias tenhamos um abate experimental de uns dez animais, apenas para testar equipamentos, estrutura e funcionários", afirma. O teste será acompanhado por técnicos do Ministério da Agricultura. Daí será preciso uma autorização ambiental do governo de Minas Gerais e para isso é preciso uma obra de contenção de uma área pública perto do terreno da fábrica. A prefeitura informou que a obra deve começar nos próximos dias. Sandra diz que a corrida é para garantir uma exportação este ano. Caso contrário, os processos para liberações federais voltariam à estaca zero.

O Brasil já teve uma exportação maior de carne de cavalo. Durante a crise do mal da "vaca louca", que afetou o consumo de carne bovina principalmente na Europa no fim dos anos 90 e início dos anos 2000, o setor ganhou mercado.

"Entre 2000 e 2002, a gente abatia aqui uns 500 cavalos por mês", lembra José Donizeth Martins, gerente industrial do Prosperidad. Antes de pararem de abater no ano passado, a média mensal estava por volta dos 120, diz. Os animais são comprados de tropeiros que rodam o Centro-Oeste e Sudeste arrematando cavalos já no fim da vida, diz Martins.

Em 2005, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o país exportou R$ 34,1 milhões, ou 19,1 mil toneladas. As exportações foram caindo e 2009 estavam em US$ 23 milhões. Desde 2010 estão entre a casa dos US$ 6 milhões a US$ 8 milhões. Até setembro deste ano, foram US$ 3,6 milhões. Bélgica, Itália e Japão são os principais destinos. Apesar da redução das vendas brasileiras, Sandra se anima com a demanda: "O mercado de carne de cavalo continua aquecido. Tem muitos pedidos parados. O que eu produzir eu vendo."

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Fonte: Valor | Por Marcos de Moura e Souza | De Araguari (MG)

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