Frigol vai à bolsa para diversificar operações

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Luciano Pascon, executivo do Frigol: o frigorífico procura alternativas para viabilizar capitalização de seu negócio

Em recuperação judicial há dois anos, o frigorífico paulista Frigol quer diversificar sua operações e ingressar em segmentos mais rentáveis. No fim do ano passado, os mesmos acionistas do frigorífico criaram a Frigol Foods, holding pré-operacional que administra participações em outras empresas e que solicitou à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) registro de companhia aberta.

Além de dividirem os sócios, as duas empresas, hoje, não possuem nenhuma relação. No entanto, quando a autarquia conceder o registro à Frigol Foods, um passo seguinte dessa empresa poderá ser assumir o controle do frigorífico em recuperação.

A listagem em bolsa – no caso o Bovespa Mais, mercado de acesso da bolsa paulista – é uma exigência de um fundo de participações americano que está prestes a aportar recursos nessa holding.

A intenção da Frigol Foods é investir em alimentos processados. Depois que a capitalização for concluída, poderá escolher entre dois caminhos: comprar uma companhia do setor e ter o frigorífico como fornecedor ou assumir o controle da empresa em recuperação e que, nesse caso, se beneficiará da capitalização.

Nesse caso, não há necessidade de aprovação de uma assembleia de credores, explica Luciano Pascon, que acumula os cargos de diretor de relações com investidores da Frigol Foods e de gerente administrativo e financeiro da Frigol SA, em recuperação. "A S.A. seria uma controlada em recuperação judicial. Vamos estudar ainda qual o caminho tomar. Depois da listagem e da confirmação da capitalização pelo fundo, haverá uma reorganização societária", diz Pascon.

A gestora de recursos de origem portuguesa ASK está assessorando a operação de investimento do fundo na holding.

"Nos Estados Unidos, os fundos têm um entendimento melhor desse processo de recuperação e maior disposição para investir nessas companhias", afirma Valério Marega Jr, principal executivo da ASK no Brasil. Ele destaca, entretanto, a exigência de que as empresas estejam em um mercado regulado.

"Uma empresa pede recuperação porque quer se reerguer, mas perdeu a confiança dos credores e investidores. A Frigol quer reconquistar essa confiança sendo transparente, divulgando informações, tendo dados auditados. Mensalmente ela já presta contas a um juiz e precisa seguir à risca o plano de recuperação", afirma.

Uma dívida de R$ 147 milhões levou a empresa à recuperação. O plano firmado com os credores, com prazo de dez anos, tem sido cumprido e hoje, após a incorporação de uma companhia credora, a dívida é de R$ 102 milhões.

Com 20 anos de vida, os problemas do frigorífico começaram a partir de 2007, quando os grandes do setor se capitalizaram tanto em ofertas de ações quanto com recursos do BNDES. "Concentrando recursos, eles partiram para a consolidação e dificultaram cada vez mais a sustentação das margens das empresas de menores", resume Pascon. Em 2008, com o agravamento da crise financeira global, faltou crédito para os grandes e também para os pequenos, que sofreram ainda mais. "As dificuldades na rolagem da dívida foram ainda maiores para os de pequeno porte", diz o executivo.

Em julho de 2010, a empresa, sem recursos para capital de giro, não suportava mas a sua operação. A única forma de preservá-la, conta Pascon, foi abrir a negociação com os credores.

"Usamos um artifício legal para manter a companhia em condição de retomada para pagar os credores. Trabalhamos pra liquidar os compromissos que não conseguimos no passado", diz.

Antes da recuperação, a Frigol possuía três unidades de abate. A operação em Rondônia foi encerrada. As atividades no Paraná e em Lençóis Paulista, interior do Estado de São Paulo foram mantidas. À época da recuperação, 6 mil animais eram abatidos ao mês no Paraná, hoje são 14 mil. Em São Paulo, o abate saiu de 8 mil animais ao mês para 14,5 mil.

A opção do Frigol foi diminuir a operação e focar na melhora da produção e rentabilidade, depois de aprimorar o controle do seu negócio. As vendas do frigorífico se concentravam em carne com osso, produto mais perecível, que possui um ciclo mais apertado de produção e venda. Agora, as vendas de carne desossada, que tem maior escala e valor, foram ampliadas. Antes a produção era de 70% para carne com osso, agora está em 50%.

A empresa buscou agregar mais valor com linhas de carne temperada e premium, de maiores margens. Além disso, reduziu a venda no atacado e aumentou no varejo – atendendo restaurantes e pequenos comércios. Ingressar em alimentos processados condiz com essa estratégia. "Queremos crescer. Hoje há capacidade ociosa de 20% em cada planta, que podemos operar sem grandes investimentos", afirma Pascon. Ele destaca também que há cinco trimestres consecutivos o resultado da empresa está azul. Ano passado, a Frigol lucrou R$ 2 milhões, ante prejuízo de R$ 102 milhões em 2010.

Além da reorganização operacional, a empresa, familiar, aprimorou a governança.

"O processo tem sido tranquilo. A família, até mesmo pelos graves momentos que enfrentou no negócio, entende que o processo necessário", diz Pascon.

Dos cinco integrantes da família, Djalma Gonzaga de Oliveira está na presidência e Durval ocupa um cargo de direção. Dois outros irmãos e um cunhado foram para o conselho, que deverá ter um membro independente.

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Fonte: Valor | Por Ana Paula Ragazzi | De São Paulo

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