Francesa Lactalis negocia compra da LBR

Balint Porneczi/Bloomberg / Balint Porneczi/Bloomberg
Unidade de queijos da Roquefort Société, que faz parte do grupo Lactalis, na cidade de Saint-Afrique, na França; gigante de lácteos quer ampliar sua atuação

A francesa Lactalis, que tem receita anual de quase € 16 bilhões, pretende mesmo fincar os pés no Brasil. Depois de começar a produzir no país com a compra da fabricante de queijos gourmet Balkis, em julho passado, a maior empresa de lácteos do mundo negocia a aquisição da LBR-Lácteos Brasil, que está em recuperação judicial. A operação tem potencial de chegar à casa do bilhão e deve ser a grande tacada da francesa por aqui. Conforme apurou o Valor, a Lactalis está há um mês fazendo ‘due diligence’ na LBR.

Procurada, a empresa francesa confirmou que realiza a ‘due diligence’ na LBR. Por meio de sua direção de comunicação, a Lactalis informou que diante da "ligação entre LBR-Parmalat-Lactalis", o interesse da empresa francesa na brasileira "é lógico". A LBR tem a licença de uso no Brasil da marca Parmalat, que pertence à Lactalis. Apesar da confirmação da Lactalis, a LBR disse, por meio de sua assessoria, que "não comenta rumores de mercado", como antecipou o Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor.

A negociação entre as duas empresas é complexa, uma vez que a LBR está em recuperação judicial, com dívidas vencidas estimadas em R$ 1 bilhão. A companhia entrou em recuperação judicial em fevereiro, e um plano está sendo avaliado pelos credores.

A proposta da companhia aos credores, que mesmo assim será discutida em assembleia amanhã, prevê o pagamento do valor de face dos débitos, mas quitação do principal só a partir de 2021 no caso dos credores com garantia e quirografários (sem garantia). Credores considerados fornecedores essenciais serão pagos em até 24 meses a partir da aprovação do plano.

O interesse da Lactalis na LBR não é novo. Aliás, data de pelo menos dois anos a decisão da empresa de atuar diretamente no mercado brasileiro. O Valor apurou que eram recorrentes as visitas do grupo francês, de capital fechado e controle familiar, ao Brasil. Além disso, é só aqui que a Lactalis não detém a marca Parmalat.

No seu plano de recuperação, anunciado em maio, a própria LBR informa que negociou a possível venda do controle nos últimos semestres, antes de pedir recuperação judicial, e que "os acionistas continuam dispostos a analisar propostas". A decisão de levar a empresa à recuperação judicial teve como objetivo proteger o negócio dos credores. A consequência é que o diálogo com potenciais interessados também se torna mais estruturado.

É natural esperar, segundo pessoas próximas às conversas, que a Lactalis busque um acordo com os credores. Em casos desse tipo, é razoável que o comprador condicione uma transação a um acerto prévio com os detentores das dívidas. Assim como os credores também só aceitarão algumas condições com a garantia da chegada da Lactalis, o que tem potencial de modificar substancialmente o futuro da operação. Sem surpresas, as conversas podem evoluir nos próximos dois meses.

LBR e Lactalis chegaram a negociar antes de a brasileira pedir recuperação judicial, mas as conversas não vingaram.

A Lactalis tornou-se a maior empresa de lácteos do mundo depois de adquirir o controle da Parmalat S.p.A, na Itália, em julho de 2011. A transação de compra da brasileira Balkis – por R$ 70 milhões – foi feita por meio da Lactalis Brasil, uma subsidiária da Parmalat europeia.

Além de permitir que a Lactalis avance num mercado em que ainda há espaço para crescimento, adquirir a LBR é uma maneira de a francesa retomar o controle da marca Parmalat no Brasil. A LBR tem a licença de uso dessa marca até 2017 no país. Além da Parmalat, a LBR também tem outras 15 marcas no mercado brasileiro, entre as quais Leitbom, Bom Gosto, Poços de Caldas e Líder.

A entrada no Brasil com a aquisição da Balkis foi apenas um começo para a Lactalis. A francesa, que tem no seu portfólio marcas como Président, Lactel e Bridel, já havia indicado sua intenção de ter uma atuação mais abrangente no país. No mundo, a francesa atua em mais de 150 países, com 192 unidades fabris.

A LBR tinha, quando foi criada em dezembro de 2010, 31 unidades em operação espalhadas pelo Brasil. Mas desde fevereiro passado, quando pediu recuperação judicial, são apenas 12 plantas funcionando. Em decorrência das dificuldades financeiras, a LBR encolheu 30% desde então. Cortou 1,2 mil de um total de 4,6 mil empregados em suas unidades.

Além de fechar fábricas, a LBR deixou de operar linhas de produção ineficientes e suspendeu, de forma temporária, linhas de produção de iogurtes – em que não era competitiva – e alguns queijos. Todas as marcas foram afetadas, e o número de produtos nas gôndolas caiu de 300 para 100.

A LBR, que faturou R$ 2,5 bilhões ano passado, é resultado da associação entre a Leitbom, controlada pela Monticiano Participações (GP Investimentos e Laep), e a gaúcha Laticínios Bom Gosto. A empresa entrou em dificuldades no fim de 2011, após um crescimento ambicioso que dificultou a integração.

O maior acionista da LBR é a Monticiano (com fatia de 40,55%). Outro grande acionista da companhia é o BNDESPar (30,28%), que teve de fazer uma baixa contábil de R$ 657 milhões no ano passado por conta do mau desempenho da empresa de lácteos. A Bom Gosto Participações tem 26,3% da companhia e os fundos CRP VII e CRP BG têm fatias de 2,38% e 0,49%, respectivamente.

As perdas da LBR também levaram a Monticiano a ter um prejuízo de R$ 1,116 bilhão em 2012. Conforme informou a Monticiano em julho, a LBR teve prejuízo líquido de R$ 1,16 bilhão no período entre novembro de 2011 e outubro de 2012. Além disso, a LBR perdeu R$ 1,0 bilhão de seu valor, ao avaliar o preço atual de ativos tangíveis e intangíveis – ágio, bacia leiteira e capacidade fabril e até de créditos tributários registrados em seu balanço.

Devido à situação da LBR, é natural que a entrada da Lactalis leve a um aporte de recursos na empresa, que demanda investimentos, além de solução emergencial para as dívidas. Só depois de definir essas questões, que dizem respeito ao futuro e à sobrevivência do negócio, é que serão discutidos valores que poderão ficar com os sócios atuais da LBR.

Quando foi criada, a Lácteos Brasil recebeu um aporte de R$ 450 milhões da BNDES Par. Após essa injeção de recursos, o braço de participações do BNDES tornou-se, isoladamente, o maior acionista da LBR, com 30,3% do capital – já que Monticiano, com 40,6%, é dividida entre GP e Laep.

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Fonte: Valor | Por Alda do Amaral Rocha e Graziella Valenti | De São Paulo

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