Forte aumento nos estoques de suco

Em meio à claudicante demanda global e ainda à espera de que as medidas de apoio do governo federal façam efeito, as principais indústrias exportadoras de suco de laranja que atuam no país (Citrosuco /Citrovita, Cutrale e Louis Dreyfus Commodities) já se deparam com um de seus maiores níveis de estoques de todos os tempos.

Segundo dados divulgados pela Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), que representa as três empresas, os estoques de suco de laranja brasileiro armazenados no país e no exterior somavam 662,5 mil toneladas equivalentes ao produto concentrado e congelado (FCOJ, na sigla em inglês) em 30 de junho. Auditado pela PwC, o volume é mais de três vezes superior ao do fim do primeiro semestre de 2011. Conforme a CitrusBR, equivale a R$ 3,1 bilhões, um salto de quase 300% na comparação, e é suficiente para 7,9 meses de vendas, o que representa um poderoso fator de pressão sobre a cadeia produtiva.

Do total armazenado, 311 mil toneladas foram acumuladas nos termos da Linha Especial de Crédito (LEC) criada pelo governo federal em 2011 com a finalidade de enxugar o mercado diante da safra recorde de laranja em São Paulo e no Triângulo Mineiro – onde as grandes indústrias, radicadas em São Paulo, também se abastecem de matéria-prima – na temporada passada (2011/12). Para evitar um tombo dos preços pagos pelas empresas a seus fornecedores, o governo fixou um preço mínimo de R$ 10 por caixa de 40,8 quilos da fruta que fosse ser usada para a fabricação do suco que seria estocado com os recursos da linha, que liberou R$ 320 milhões.

Segundo recente decisão do governo, que ainda precisa ser ratificada, a LEC foi prorrogada e o volume estocado com o financiamento permanecerá retido por mais dois anos, já que a produção de laranja é novamente grande nesta safra 2012/13, cuja colheita está em andamento. Conforme o Instituto de Economia Agrícola (IEA), vinculado à Secretaria da Agricultura de São Paulo, que reúne o maior parque citrícola do mundo, serão 363,1 milhões de caixas, apenas 5,6% abaixo do recorde de 2011/12. Fontes ligadas às indústrias acreditam que adversidades climáticas poderão reduzir esse volume para 340 milhões de caixas, ainda assim muito acima da média.

Apesar da falta de espaço tendo em vista os gordos estoques, havia uma expectativa no segmento de que o governo criaria uma nova LEC na tentativa de tirar um pouco mais de suco de laranja do mercado, mas o Ministério da Agricultura negou essa possibilidade. Enquanto era estudada, cogitou-se tentar garantir com a linha o pagamento de um preço mínimo de R$ 10,10 por caixa de laranja que seria transformada no suco que poderia ser estocado, o que seria praticamente inócuo levando-se em conta, também, o atual preço da laranja no mercado spot paulista (R$ 7), insuficiente para cobrir o custo médio de produção e motivo de protestos de citricultores.

Com uma linha de R$ 120 milhões lançada nas últimas semanas, também com o objetivo de minimizar a crise, mas desta feita voltada à aquisição de laranja de mesa, não para processamento, o governo garantiu um piso de R$ 10,10 por caixa comprada com esses recursos, predispondo-se a pagar a diferença em relação aos preços de mercado, que hoje são inferiores a R$ 5. Em meio à difícil conjuntura, o governo federal também anunciou a rolagem de dívidas de citricultores e o governo paulista decidiu gastar R$ 6 milhões por mês para comprar suco processado e incluí-lo na merenda escolar. No afã de desenvolver o mercado doméstico para o suco integral processado, indústrias e produtores cogitam inclusive unir suas forças e usar uma fábrica só para isso.

Enquanto a conjuntura é negativa para a cadeia produtiva, o grande problema estrutural que limita as altas das cotações internacionais do suco e derruba os preços pagos pela fruta no Brasil permanece o mesmo: a demanda mundial não dá mostras de reação significativa e sustentável, como já detalhou recentemente o Valor. Segundo dados da Secex compliados pela CitrusBR, os embarques alcançaram 1,2 milhão de toneladas equivalentes ao FCOJ em 2011/12, 30 mil a mais que em 2010/11, é verdade, mas menos do que nas quatro temporadas anteriores. A produção atingiu 1,6 milhão de toneladas no ciclo, patamar elevado por conta da LEC. Em 2006/07, as exportações foram de 1,4 milhão, e em 2012/13 ainda haverá reflexos da derrocada das vendas para os EUA em virtude da "crise do carbendazim", fungicida proibido naquele país que gerou barreira ao produto brasileiro no primeiro semestre.

Christian Lohbauer, presidente da CitrusBR, afirma que se essa queda não tivesse ocorrido os estoques não estariam abarrotados e o mercado estaria mais equilibrado. O problema é que, diante da multiplicação de bebidas concorrentes mais baratas, da fraqueza da economia em países desenvolvidos – que lideram o consumo – e do ainda tímido consumo em emergentes como a China, não há, no momento, luz no fim desse túnel. Com a ajuda de consultorias, as indústrias tentam entender melhor as causas da redução da demanda global e buscam resgatar o status do suco de laranja junto aos consumidores, mas até agora os resultados concretos foram tímidos.

Resultado dessa equação, os preços internacionais da commodity seguem sob pressão. Ontem, na bolsa de Nova York, os contratos futuros do FCOJ para novembro, que ocupam a segunda posição de entrega (normalmente a de maior liquidez), fecharam a US$ 1,14 por libra-peso, alta de 0,2% sobre a véspera. Segundo o Valor Data, em 2012 há baixa acumulada de 32,5%, e nos últimos 12 meses, de 29,4%. Em junho, a média da segunda posição em Nova York foi de US$ 1,1425, menor patamar desde outubro de 2009. E a única possibilidade de alta significativa no curto prazo é que a atual temporada americana de furacões cause danos ao parque citrícola da Flórida, o segundo maior do mundo e provoque um "choque de oferta" para fazer frente à erosão da demanda.

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Fonte: Valor | Por Fernando Lopes | De São Paulo

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