Fontes alternativas exigem mais apoio

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Nebojsa Nakicenovic, professor do International Institute for Applied Systems Analysis, da Áustria: "A revolução energética é um desafio factível"

O professor Nebojsa Nakicenovic, do International Institute for Applied Systems Analysis, da Áustria, defendeu no fórum Humanidade 2012, evento paralelo à Rio+20, a necessidade de uma revolução para a transição para uma energia sustentável que reduza as emissões de gases do efeito estufa. Para financiar essa mudança, ele sugere que os recursos dados de subsídio de combustíveis fósseis sejam destinados ao desenvolvimento de energias alternativas, principalmente etanol e biomassa.

"A revolução energética é um desafio factível", disse Nebojsa à plateia que lotou o Espaço das Humanidades, no Forte de Copacabana, zona sul do Rio, no seminário Energias Renováveis para o Desenvolvimento Sustentável. Segundo ele, seriam necessários US$ 500 bilhões para financiar a guinada para a energia renovável – exatamente o montante gasto atualmente em subsídios ao petróleo e ao carvão.

Além de aumentar a capacidade energética renovável seria preciso garantir a sustentabilidade das fontes de energia com a universalização do acesso a ela. "Cerca de US$ 1,2 trilhão está sendo investido em todo o mundo em energia, mas apenas 9% desses recursos são destinados a garantir o acesso das pessoas às fontes energéticas. Metade da população mundial hoje está excluída dos benefícios da energia elétrica", afirmou o professor.

O consumo mundial de biocombustíveis pode chegar até o fim desta década a 270 bilhões de litros. Atualmente, a produção está em 110 bilhões de litros, segundo estimativas da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica). A previsão da entidade é de que o etanol continuará líder do setor com 69% do mercado – o equivalente a 187 bilhões de litros. No Brasil, se for revertida a tendência atual de estagnação do setor, a produção poderá chegar a 66 bilhões de litros até 2020.

Num cenário de expansão, apresentado no painel Biocombustíveis pelo pesquisador Isaías Macedo, da Universidade de Campinas (Unicamp), com uma política de preços competitivos do álcool em relação à gasolina, crescimento da área plantada de cana-de-açúcar e construção de 120 novas usinas, a produção de etanol poderá representar uma redução de 84 bilhões de metros cúbicos de CO² nas emissões brasileiras.

"Isso corresponde a algo em torno de 140% a 180% de toda a meta de redução de emissões propostas para biocombustíveis no compromisso brasileiro na Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 15), realizada em 2009, em Copenhagen", disse Isaías Macedo, da Unicamp.

"O aumento da população e da renda em todo o mundo, que vai elevar a demanda por transportes e triplicar a circulação de automóveis até 2030, é uma perspectiva assustadora, deixa a gente um pouco deprimido, mas temos um portfólio de biocombustíveis que permitirá reduzir as emissões de gases do efeito estufa", afirmou o professor Andree Faaij, da Universidade de Utrecht, na Holanda.

O veículo elétrico seria, segundo o professor, uma alternativa chave para enfrentar o problema das emissões, mas enfrenta dificuldades: não serviria para o transporte coletivo ou de cargas e se tornaria fonte de maior poluição se o carregamento das baterias depender de eletricidade a partir do carvão. Além disso, ainda é uma tecnologia muito cara. Já a biomassa enfrentaria dificuldades num cenário de desafios para a alimentação de uma população mundial que poderá chegar a 9 bilhões nas próximas duas décadas.

"O etanol de cana-de-açúcar é a alternativa mais viável para se tornar a fonte energética dominante no futuro, além de a mais barata", afirmou Faaij. "O etanol brasileiro é competitivo, mas é preciso aumentar a produtividade e promover melhorias de gestão para evitar a derrubada de florestas pela lavoura de cana-de-açúcar."

Especialistas estrangeiros e brasileiros reunidos no Espaço das Humanidades do Forte de Copacabana também destacaram a importância de outras fontes de energias renováveis no processo de desenvolvimento sustentável. Não faltaram manifestações em defesa da capacidade de mitigação dos impactos ambientais das energias hidrelétrica, eólica e solar – ainda que nenhuma delas dispense cuidados para manter-se em padrões aceitáveis de sustentabilidade.

"É importante desenvolver o uso sustentável da biomassa para mitigar os preços dos alimentos", defendeu Thomas Amon, professor da Universidade de Recursos Naturais e Ciência da Vida (Boku), da Áustria, um dos palestrantes do painel sobre Biogás.

Só no Brasil, o Programa da Agricultura de Baixo Carbono do Ministério do Desenvolvimento Agrário estabeleceu como meta a transformação de 4,4 milhões de metros cúbicos de resíduos da suinocultura e de outras atividades pecuárias em biogás até o ano de 2020. O objetivo é deixar de lançar 6,9 milhões de toneladas de CO2 equivalente na atmosfera. A estimativa mundial é de que o biogás pode evitar o lançamento de 45 bilhões de toneladas por ano.

"Todos os estados membros da ONU incentivam a produção de biomassa, que tem um uso energético potencial muito grande no Brasil", disse Thomas Amon, da Universidade Boku.

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Fonte: Valor | Por Paulo Vasconcellos | Para o Valor, do Rio

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