Financiamento com as múltis ganha mais espaço no algodão

Silvia Costanti/Valor
"O produtor de algodão se superou e driblou a falta de crédito", diz Jacobsen

Apesar das incertezas quanto à oferta de crédito no país, os produtores brasileiros de algodão conseguiram levantar capital para fazer frente ao plantio da pluma desta safra 2015/16, sem grande redução de área. Em alguns casos, a semeadura está sendo feita com menos tecnologia, para driblar a alta de custos.

Mas o diferencial está sendo o maior financiamento via "barter", operação de troca de insumos por entrega futura de produto, e também via tradings. Com isso, a venda antecipada de algodão, contrato que serve de garantia nessas operações de financiamento, atingiu até agora 60% da colheita esperada da pluma, 20 pontos percentuais à frente do registrado em igual época de anos anteriores.

A área com a cultura no Brasil deve atingir 950 mil hectares em 2015/16, queda de 3% ante o ciclo anterior, segundo a associação que representa os cotonicultores, a Abrapa. Trata-se, na visão da entidade, de um recuo tímido, perto dos 20% estimados em agosto passado, diz o presidente da associação, João Carlos Jacobsen.

Naquele mês, as perspectivas de financiamento no país eram ruins. Pesou ainda o fato de produtores de algodão que eram lideranças no segmento terem anunciado recuperação judicial. O plantio de algodão tem um custo por hectare cerca de três vezes superior ao da soja. No decorrer da temporada, deve demandar do produtor recursos da ordem R$ 7,6 bilhões.

Não há dados oficiais sobre o avanço da fatia dos fornecedores de insumos e das tradings no financiamento desta safra. Mas Marco Antonio Aloisio, presidente da Anea, que reúne as tradings que operam com a pluma, lembra que o produtor de algodão também planta soja e que, uma parte do recurso da venda antecipada da oleaginosa deve ter sido usada para custear a lavoura do algodão. As duas culturas compartilham a mesma terra em Mato Grosso, que é o maior produtor de ambas.

A alemã Bayer CropScience também sinalizou que ampliou as operações de "barter". Elas cresceram 300% na comparação com 2014, considerando todas as culturas, entre elas o algodão. Na visão da companhia, houve, com a crise econômica, uma grande queda na oferta de crédito a todos os setores, em especial à agricultura. Somou-se a isso, segundo o diretor de marketing de Algodão da multinacional, Fernando Prudente, o fato de que alguns produtores estavam sem novas garantias disponíveis para ampliar financiamento, em decorrência de investimentos feitos nos últimos anos.

Mesmo os grupos produtores de algodão mais capitalizados tiveram limitações para ampliar suas linhas de crédito bancário neste ciclo. Na melhor das hipóteses, conseguiram captar o mesmo montante em reais – o que, em dólar, significa uma queda das captações se for considerada a desvalorização cambial de 50% em 2015. Por isso, o financiamento via multinacionais cresceu.

O grupo Bom Jesus, que cultiva 250 mil hectares entre soja, milho e algodão majoritariamente em Mato Grosso, viu, nesta safra, ser ampliada a fatia dos fornecedores de insumo no financiamento da safra de algodão da empresa, de 50 mil hectares. O diretor financeiro do grupo, Valdoir Slapk, acredita que, até o fim da temporada, essa participação, antes de 35%, deve avançar 10 pontos percentuais, para 45%.

O principal indicativo do avanço desse tipo de financiamento este ano está no crescimento das vendas antecipadas. Apesar do preço pouco atrativo, a comercialização antecipada alcançou 60% da colheita esperada (de 1,5 milhão de toneladas), ante 40% de anos anteriores, segundo a Abrapa. "A tendência é de que o produtor continue realizando vendas antecipadas nos próximos meses para custear outros custos, como mão de obra", afirma Jacobsen.

O presidente da Abrapa diz que o real tamanho da área de algodão será conhecido após janeiro, quando será concluído o cultivo em Mato Grosso, que ocorre após a colheita da soja precoce. A expectativa da entidade é de que o Estado plante em 2015/16 os mesmos 563 mil hectares de 2014/15. Mas eventuais atrasos na colheita da soja podem mudar a previsão.

Na Bahia, o segundo maior produtor de algodão do país, a Abrapa estima uma área plantada de 250 mil hectares, 9,4% abaixo de 2014/15. Isso principalmente porque o clima seco atrasou o plantio da cultura, que já devia ter sido encerrado, segundo Jacobsen. Também pesou nesse Estado, onde a pluma disputa o plantio da primeira safra com a soja, uma maior rentabilidade esperada para a oleaginosa.

Fonte: Valor | Por Fabiana Batista | De São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *