FEIRAS – Sem feiras presenciais, setor de máquinas investe em grandes lançamentos digitais

Apesar do impacto na economia, fabricantes projetam aumento na venda de tratores, colheitadeiras e implementos em 2020

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  • Agrishow (Foto: Divulgação)

A maior feira de tecnologia agrícola da América do Sul, prevista para abril de 2020, foi cancelada devido à pandemia (Foto: Divulgação)

*Publicada originalmente na edição 419 de Globo Rural (Setembro/20)

O cancelamento das maiores feiras de tecnologia agrícola do Brasil obrigou a indústria de máquinas a desenhar uma nova estratégia para lançar seus produtos. As novidades que estavam previstas para conquistar a atenção dos produtores rurais nas exposições migraram para o mundo digital. E o resultado obtido com os eventos virtuais – alguns se tornaram verdadeiros espetáculos, com shows de duplas sertanejas famosas – tem animado o setor.

Diferentemente da indústria automobilística, que viu as vendas de veículos leves despencarem 33% de janeiro a julho, as fabricantes de tratores e colheitadeiras estão com um resultado melhor do que o registrado em 2019.

Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), nos primeiros sete meses deste ano, as vendas de tratores somaram 19.136 unidades, 4% acima em comparação às 18.447 unidades vendidas em igual período do ano passado.

 

No caso das colheitadeiras, houve crescimento de 20%: 3.399 unidades comercializadas no acumulado deste ano, ante 2.833 de janeiro a julho de 2019. A Anfavea prevê crescimento de 3% no comércio de máquinas agrícolas neste ano.

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) é ainda mais otimista e aposta em aumento de 5% nas vendas em relação ao ano passado. As projeções estão sustentadas no comportamento do mercado nos últimos dois meses, quando as vendas reagiram mais.

"O desembolso no Plano Safra cresceu 50% em relação ao ano passado, para R$ 24 bilhões. Em abril e maio, faltaram recursos para o financiamentos de máquinas. Isso teve um impacto simultaneamente com o início da pandemia, quando houve um momento de maior preocupação com a crise. Hoje, a situação está mais estável", explica Alfredo Miguel Neto, vice-presidente de agronegócios da Anfavea.

Jacto (Foto: Divulgação)

A brasileira Jacto, de Pompeia (SP), prometeu colocar a máquina em campo em 2021. Empresa ainda anunciou sua entrada no mercado de plantadeiras de grãos e colhedoras de cana-de-açúcar (Foto: Divulgação)

O faturamento das empresas de máquinas, mesmo com a paralisação temporária de muitas fábricas pelo país, por causa da pandemia do novo coronavírus, pegou carona no aumento das vendas. De acordo a Câmara Setorial de Máquinas e Implementos (CSMI) da Abimaq, o crescimento na receita das indústrias foi de 6,5% no primeiro semestre.

No período, as empresas colocaram no caixa R$ 8,2 bilhões. O ânimo dos produtores para investir na renovação da frota, segundo as entidades, vem da valorização do dólar, que aumenta o preço dos grãos e impulsiona a rentabilidade nas fazendas brasileiras.

De acordo com os executivos consultados pela Globo Rural, as vitrines digitais são a prova de que o setor se adaptou ao cancelamento das feiras, que concentram boa parte dos lançamentos e são importantes canais de relacionamento, primeiro contato ou até de efetivação de negócios.

Os negócios realizados nas maiores feiras de tecnologia agrícola do Brasil somaram cerca de R$ 17 bilhões no ano passado. Os representantes das indústrias acreditam que o ambiente digital não veio para substituir as feiras presenciais, mas sim para abrir novas oportunidades.

"Você está criando um contexto para acessar o seu cliente de uma forma diferente. Temos salas de negócios entre a concessionária e o agricultor. Não podemos esquecer que  60% dos agricultores estão nas mídias sociais, como o WhatsApp, e 30% deles disseram estar dispostos a comprar insumos pela internet", lembrou Luis Felli, presidente do Grupo AGCO, durante live realizada pelas redes sociais da revista Globo Rural.

GRÁFICO (Foto: Anfavea)

(Dados: Anfavea)

A efetivação de negócios pelo ambiente digital, porém, ainda deve levar um tempo até que os agricultores sintam-se seguros. "Ele (agricultor) quer o tête-à-tête. No final do dia, para comprar uma máquina de R$ 1 milhão a R$ 1,5 milhão, ele vai querer ter o contato pessoal.
Até por causa da assistência técnica", lembra.

"Não vejo uma mudança de demanda. Mas, com certeza, há uma mudança na rotina de venda, em termos de como a gente apresentava um lançamento, as promoções e condições especiais ao redor das feiras. Agora, está mais distribuído em um calendário diferente", acrescentou o vice-presidente da New Holland para a América do Sul, Rafael Miotto.

Case (Foto: Divulgação)

Show com a dupla sertaneja Bruno e Marrone, com os lançamentos da Case IH (Foto: Divulgação)

As marcas representadas pelos executivos foram alguma das que organizaram lançamentos virtuais, incluindo o patrocínio de shows sertanejos, impactando milhões de pessoas pela internet. A Case IH, por exemplo, colocou suas máquinas para compor o cenário do show da dupla Bruno e Marrone.

As novidades anunciadas durante a pandemia fazem parte do maior pacote já lançado pela companhia no Brasil. A Jacto, empresa brasileira com sede em Pompeia, interior de São Paulo, também foi ousada e lançou, de uma só vez, seis novos produtos no fim de agosto.

Três deles são para fazer história na companhia, que decidiu entrar no mercado de plantadeiras de grãos e colheitadeiras de cana-de-açúcar. Além disso, a marca, conhecida por fabricar máquinas alaranjadas, apresentou ao mercado seu primeiro pulverizador autônomo, que deve chegar ao mercado no próximo ano. A empresa planeja dobrar de tamanho nos próximos três anos, disse o presidente da Jacto, Fernando Gonçalves, em entrevista exclusiva à Globo Rural.

Em 2019, a companhia faturou R$ 1,65 bilhão e agora prepara- se para decolar. O plano de voo, segundo Gonçalves, está desenhado para até 2048, quando a empresa completará um século de fundação. "Temos um desafio para quando chegarmos aos 100 anos. Está claro que o mundo será muito instável e, para chegarmos lá, temos de fazer trabalhos internos muito firmes e entregar principalmente um bom serviço aos nossos clientes, incluindo venda de máquina, peças de reposição e um atendimento de excelência", diz.

Gonçalves avalia que os negócios digitais serão incorporados às feiras presenciais. "Já vinhamos fazendo um movimento no digital, que foi intensificado durante a pandemia." Ele acredita que a Expointer, feira que será realizada em agosto do ano que vem, no Rio Grande do Sul, já voltará a ser presencial.

CASSIANO RIBEIRO

Fonte : Globo Rural

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