Faxinalzinho: adiamento de reunião com ministro mantém clima de tensão

Encontro para negociar fim de impasse é marcado para o dia 22, em Brasília. Aulas no município, paralisadas há 15 dias, seguem suspensas até pelo menos quarta-feira

por Carlos Rollsing

11/05/2014 | 21h59

Faxinalzinho: adiamento de reunião com ministro mantém clima de tensão Bruno Alencastro/Agencia RBS

O agricultor Valdir Pereira teme perder a terra e o sustento: "Vamos para a beira da estrada ou para favelas"Foto: Bruno Alencastro / Agencia RBS

Com a tensão dos últimos dias, a esperança de solução para o conflito por terra entre agricultores e índios em Faxinalzinho, no norte do Estado, foi adiada para o próximo dia 22.

Nesta data, uma reunião está programada para ocorrer em Brasília, com a mediação do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e participação de líderes indígenas, do setor agrícola e representantes do governo estadual.

O impasse gira em torno da reivindicação dos índios pela ampliação da aldeia Votouro, área de 3,5 mil hectares onde vivem cerca de 360 famílias, na divisa entre Faxinalzinho e Benjamin Constant do Sul. Com a alegação de que os seus ancestrais viveram no local, os caingangues pedem a anexação de terras contíguas a Votouro, que somam cerca de 6 mil hectares.

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Centenas de indígenas estão acampados em más condições habitacionais na terra reivindicada. Nessa região, vivem 170 famílias de agricultores que teriam de ser desalojadas somente com indenização por benfeitorias, como as casas construídas.

— O colono não tem culpa. O índio também não. Como o governo vendeu essas terras, queremos que esse pessoal que tem título possa ser indenizado. Assim, poderemos voltar para lá — diz Maximino Reis, um dos moradores na aldeia Votouro.

Depois da prisão de cinco companheiros na sexta-feira, incluindo o cacique Deoclides de Paula, por suspeita de participação no assassinato de dois agricultores no final de abril, os habitantes de Votouro ficaram acuados.

Entre agricultores, o receio é de perder a terra e o sustento.

— Não ganhamos nada, compramos a terra. Se perdermos, vamos para a beira da estrada ou para as favelas da cidade grande — lamentou o agricultor Valdir Pereira.

Uma reunião amanhã definirá se as aulas, paradas há 15 dias, serão retomadas na quarta-feira.

Prisão de suspeitos provoca mal-estar entre Piratini e PF

A prisão efetuada durante reunião mediada pelo Estado causou divergências entre o governo Tarso Genro e a Polícia Federal. Na quinta-feira, uma operação foi preparada pela Brigada Militar e PF.

O plano desmoronou quando a PF foi informada da retirada do apoio da BM por decisão do governo estadual. A operação teve de ser cancelada. Na sexta, os federais souberam pela imprensa da reunião de conciliação. Depois, apuraram que alvos dos mandados estariam no centro cultural de Faxinalzinho. Foram até lá e efetuaram cinco prisões.

Em nota divulgada sábado à noite, o Piratini reiterou que a ação foi "inadequada" e afirmou que as "as suspeitas de que o Estado teria participado de uma armação" são "mentirosas e irresponsáveis" e que teriam como único objetivo fomentar o conflito e aumentar a tensão em Faxinalzinho.

"Reafirmamos que a demarcação de áreas indígenas é uma atribuição exclusiva da União. Portanto, esperamos que o Ministério da Justiça se responsabilize pela retomada do diálogo e a busca da solução do problema", diz a nota.

Em resposta, o superintendente da PF no Estado, delegado Sandro Caron, afirmou que os agentes agiram "estritamente dentro da lei":

— O homem da lei, ao receber uma ordem de prisão, tem por obrigação diligenciar e, localizando a pessoa, tem de cumprir o mandado (de prisão), independentemente de onde ela esteja. Jamais poderia deixar de cumprir uma ordem, esperando, eventualmente, que a reunião acabasse. As pessoas estavam localizadas, naquele momento havia segurança para cumprir a ordem, e o policial tinha o dever de cumpri-la imediatamente. Ninguém poderia aceitar conduta diferente.

Fonte: Zero Hora

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