Falta mão de obra para a agropecuária

Número de trabalhadores empregados na agropecuária no Estado caiu 17% de 2003 a 2012, apesar de alta nos salários de 169% em 10 anos

Falta mão de obra para a agropecuária Charles Dias/Especial

O número de funcionários na propriedade de Pedro Wollmann , de Montenegro, mantém-se o mesmo há anos, o que impede o avanço da produçãoFoto: Charles Dias / Especial

Vagner Benites

vagner.benites@zerohora.com.br

Para competir com as oportunidades e o conforto da vida nas cidades, o produtor rural precisou tirar mais dinheiro do bolso nos últimos anos na hora de contratar mão de obra. De 2001 a 2011, o salário médio pago a um trabalhador do setor agropecuário teve alta de 169% no Estado. No mesmo período, por exemplo, a inflação medida pelo IPCA, do IBGE, foi de 102,18%. A remuneração mais atrativa, no entanto, não foi suficiente para tornar a busca por profissionais mais bem-sucedida, especialmente os mais qualificados.

Os valores ainda ficam abaixo da média de setores como serviços, comércio e construção civil. Salário menor, aliado à falta de infraestrutura e opções de lazer nas zonas rurais, distância da família e dificuldade de acesso à comunicação e às tecnologias do meio urbano são apontados como as principais causas da falta de interesse dos profissionais pelo campo.

Segundo a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag), de 2003 a 2012 a agropecuária gaúcha viu o número de empregados, entre fixos e temporários, cair de 200 mil para 170 mil, em estimativa que inclui também uma projeção de profissionais não registrados.

— Parte importante da modernidade das cidades não está no campo. Se você vai ao interior de países como Espanha e Itália, embora existam diferenças inegáveis, não são tão acentuadas como no Brasil — afirma Marcio Pochmann, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especialista sobre mercado de trabalho.

A diminuição da oferta de mão de obra é um movimento já registrado em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, e em grande parte da Europa. A diferença para o Rio Grande do Sul foi a ação do governo em estruturar as áreas rurais.

— Desde 1920, temos uma trajetória de perda de trabalhadores no campo. É um processo natural, que ocorre em países que aderiram à sociedade urbana, mas no Brasil esse movimento foi mais drástico — analisa Pochmann.

Previsível ou não, a escassez é motivo de alerta para empreendedores rurais, pois, apesar da modernização das rotinas, grande parte do trabalho — especialmente em pecuária e produção de frutas e hortaliças — não pode ser substituída por máquinas.

— A pecuária avança para processos modernos, mas que não podem ser totalmente mecanizados, pois envolve o manejo diário com os animais. Inicia-se um processo crítico de falta de mão de obra, principalmente na bovinocultura de corte. Temos um quadro de ausência de pessoas no campo. E os que estão não têm formação e experiência — afirma Júlio Barcellos, professor do departamento de zootecnia da UFRGS.

A dificuldade em encontrar mão de obra habilitada para o serviço preocupa o produtor Júlio Silveira, de Uruguaiana. Na propriedade de aproximadamente 1,2 mil hectares, em que cultiva arroz e cria bovinos de corte, manter profissionais qualificados para o tratamento dos animais não tem sido fácil. Essa situação de escassez de trabalhadores forçou a diminuição no número de empregados nos últimos anos, de quatro para dois.

— Fica difícil substituir. Hoje, a vida na cidade está mais ativa, e o peão quase nunca vem com a família para o campo — afirma.

Freio no crescimento da produção

Atrair profissionais para trabalhar na produção de bergamotas em Montenegro está cada vez complicado para o citricultor Pedro Wollmann. O número de pessoas contratadas na propriedade de 62 hectares que mantém há mais de 40 anos na localidade de Passo da Pimenta, é o mesmo há anos pela falta de interessados. O salário pago é maior do que na indústria da região, garante o produtor, mas o serviço, feito sob chuva ou sol, não atrai trabalhadores. O resultado é o freio na ampliação da produção.

— Não é que a atividade seja ruim, mas as pessoas querem uma melhor — diz Wollmann.

Na produção de citros, frutas e hortaliças, geralmente realizada em propriedades menores, o problema também está na sucessão. Sem apoio da mão de obra familiar, a necessidade de contratação externa aumenta, o que valoriza o salário. De acordo com cálculo da Emater, o valor pago pelo dia de trabalho na produção de uva na região da Serra subiu 300% de 2007 a 2013, passando de R$ 20 para R$ 80. Enquanto isso, o preço mínimo do quilo da fruta foi reajustado em apenas 16% (R$ 0,49 para R$ 0,57) e a produtividade média por hectare também se manteve igual (20 mil quilos por hectare).

— A relação da agricultura familiar é diferente. Não tem salário mensal. Sem pagamento, os jovens procuram oportunidades na cidade. Outra questão é a invisibilidade dos jovens nas propriedades, ou seja a falta de valorização — analisa Vera Carvalho, responsável pelo trabalho de sucessão da agricultura familiar na Emater.

A solução passa por reconhecer os desejos da juventude no campo, pouco diferente daqueles que estão nas cidades.

— É preciso descentralizar as universidades. Levar o conhecimento favorece as atividades no campo. Tem a questão da telefonia celular e internet, e é preciso também uma política de interiorização dos serviços, com opções de lazer e entretenimento. Senão, a vida nas áreas rurais fica fundamentalmente voltada para o trabalho — alerta o professor Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marcio Pochmann.

Tecnologia exige conhecimento

anter o trabalhador, a falta de qualificação para o serviço é outro problema. A desvalorização do trabalho no campo aliada à infraestrutura deficiente e aos baixos salários são as principais causas para o desinteresse em novos treinamentos.

— A mão de obra nunca foi pensada no meio rural como uma formação continuada. Hoje, se exige que as propriedades tenham mais autossuficiência, mas se não existir um profissional qualificado, não haverá condição de manter essa unidade produtiva — afirma Vera Carvalho, responsável pelo trabalho de sucessão da agricultura familiar na Emater.

Mesmo que a tecnologia tenha sido desenvolvida com o objetivo de facilitar o trabalho, sua aplicação, muitas vezes, também exige novos conhecimentos.

Cursos para a operação de máquinas agrícolas estão entre os mais solicitados no Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Rio Grande do Sul (Senar-RS).

— No caso das máquinas, há tecnologias que exigem mão de obra qualificada. O produtor não sabe utilizar os equipamentos e também não consegue encontrar funcionários capacitados para isso — diz Gilmar Tietböhl, superintendente do Senar no Estado.

Faces do campo e da cidade

População urbana: 9.100.291

População rural: 1.593.638

Jovens no campo (15 a 29 anos): 336 mil

Trabalhadores registrados

83,4 mil, segundo o Ministério do Trabalho (2011), ou 170 mil, de acordo com a Fetag, incluindo não registrados

Onde estão os trabalhadores

Pecuária: 55%

Agricultura (arroz, soja, milho, trigo e cevada): 29%

Fruticultura e silvicultura: 11%

Outros:5%

Como os salários variaram entre 2001 e 2011

Agropecuária: 169%

2001 — R$ 380,28

2011 — R$ 1.024,34

Construção civil: 128%

2001 — R$ 545,53

2011 — R$ 1.247,41

Comércio: 122%

2001 — R$ 493,67

2011 — R$ 1.097,09

Serviços: 102%

2001 — R$ 844,51

2011 — R$ 1.707,09

Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego, Nelson Wild, coordenador do departamento de trabalho assalariado da Fetag, e IBGE (Censo 2010)

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