Falta de sucessores ameaça o futuro da agricultura familiar

Dificuldades econômicas e razões culturais incentivam esvaziamento da população jovem no meio rural

Marcelo Beledeli

MARCELO BELEDELI/DIVULGAÇÃO/JC

Nilda, Maria e Rostirolla vivem sozinhos na propriedade na Linha Nossa Senhora de Caravaggio

Nilda, Maria e Rostirolla vivem sozinhos na propriedade na Linha Nossa Senhora de Caravaggio

No dia 16 de agosto, o produtor rural Ademir Rostirolla ganhou o direito de se aposentar ao completar, naquela data, 60 anos de idade. Toda a sua vida foi passada no campo, dedicada  à agricultura, atividade que era desempenhada por sua família desde que seus ancestrais imigraram da Itália há mais de um século. No entanto, o agricultor tem a certeza de que será o último de sua linha dos Rostirolla a manter essa história de dedicação ao setor primário. Nenhuma de suas três filhas seguirá seu exemplo, pois escolheram deixar o meio rural e buscar outras carreiras.
Há 23 anos, Rostirolla vive e trabalha em sua propriedade de 25 hectares na Linha Nossa Senhora de Caravaggio, no interior do município de Getúlio Vargas, no Norte do Estado. Lá, juntamente com sua esposa Nilda Scolari Rostirolla, criou três filhas: Kaliene (22 anos), Kleise (19) e Kleimara (17). No entanto, hoje os pais vivem sozinhos na propriedade, acompanhados apenas da mãe de Nilda, Maria Dalzotto Scolari, após as três meninas terem deixado a casa. “A mais velha chegou a perguntar ‘o quê ela iria fazer na roça?’’’, lembra Rostirolla.
Kaliene formou-se em Pedagogia e hoje trabalha em uma creche no município de Tapejara. Já Kleise mudou-se para Caxias do Sul, onde estuda para seguir uma vocação religiosa como freira. Kleimara, a caçula, recentemente começou a estudar Estética e Cosmética na Universidade de Passo Fundo (UPF).  Com isso, a propriedade ficou sem jovens, e a família ainda não sabe o que acontecerá com as terras no momento em que os pais não tiverem mais condições de realizar o trabalho no campo ou falecerem.
O problema dos Rostirolla está longe de ser um caso isolado. Segundo uma pesquisa da Emater, com base em dados coletados pelo IBGE, dos 441,5 mil estabelecimentos rurais que existem no Rio Grande do Sul, 31,3% não possuem mais jovens vivendo na propriedade rural e, portanto, estariam teoricamente sem sucessor dentro da família. No entanto, a situação pode ser ainda pior. “Essa estimativa parte da ideia de que todos os jovens que estão no meio rural vão suceder seus pais nas atividades. Mas não estão incluídos os que vivem na terra e não têm interesse em continuar, ou que apenas moram no campo, mas já trabalham na cidade”, lembra Vera Carvalho, assistente-técnica em Juventude Rural da Emater.
Para Vera, os principais obstáculos para que os produtores assegurem a sucessão dentro da família são decorrentes de fatores econômicos, como a baixa rentabilidade das pequenas propriedades, e culturais, especialmente a dificuldade das gerações mais velhas de incluir seus filhos e netos na administração dos recursos. “Temos uma cultura onde o jovem trabalha na terra, mas não tem renda própria, quem administra o dinheiro é o pai. Na saída para a cidade, ele busca, mesmo que por um salário baixo, a sua independência financeira.”
Já a diferença cultural das gerações é uma das razões apontadas por Nilda, esposa de Ademir, para a fuga dos jovens do campo. “Quando eu tinha a idade deles, a única realidade que conhecia era a da vida na roça. Hoje, com o que aprendem na escola e o que veem na televisão, na internet, sabem que têm um mundo de oportunidades, mas que só existe pra quem vive na cidade.” Para a agricultora, falta o apoio econômico e investimentos para proporcionar oportunidades de lazer, ensino e serviços para os jovens no campo. “A gente tinha que levar nossa filha mais velha duas ou três vezes por semana só para que ela pudesse usar internet que precisava para os estudos, por que aqui não tinha conexão.”

Número de propriedades caiu 11% em 20 anos

A falta de um sucessor tem contribuído para a redução das propriedades no Estado. De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o número de estabelecimentos rurais no Rio Grande do Sul caiu 11% entre 1985 e 2006 (último ano com informações apuradas). “Ao invés de ocorrer a sucessão dentro da família, essas áreas são compradas e viram sítios de lazer, quando próximas de centros urbanos, ou são reunidas em estabelecimentos maiores por fazendeiros com mais posses. Algumas são arrendadas e outras simplesmente são abandonadas, especialmente se forem de difícil acesso e de terreno dobrado, com matas e morros”, comenta Josiane Einloft, coordenadora estadual da Juventude Rural da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado (Fetag).
A localidade da linha Nossa Senhora do Caravaggio comprova a tese. “Até pouco tempo eram 29 sócios do clube da comunidade. Restam apenas 16, e a grande maioria já mora na cidade”, aponta o produtor Adagir Barbizan, vizinho dos Rostirolla.
Proprietário de 30 hectares, que ocupa principalmente com soja, milho, avicultura e pomares de pêssego e ameixas, Barbizan também tem dúvidas sobre o que vai acontecer com suas terras. Suas três filhas vivem na cidade, assim como seu filho Denílson, que ainda ajuda os pais na lida do campo. “Ele trabalha num laticínio no turno noturno e vem aqui algumas vezes por semana durante o dia, mas a renda dele depende do emprego fora daqui”, explica.
Barbizan já pensou em vender a propriedade, mas o filho foi contra. “Ele não quer que a gente se desfaça da terra, talvez mais por uma questão sentimental. Voltar para cá acho que ele não vai, talvez arrende”, comenta o produtor. No entanto, admite que a indefinição quanto ao futuro prejudica os projetos para as terras. Um exemplo era um investimento que havia planejado para melhorias no seu aviário, que desistiu devido aos custos. “Para que destinar todo o dinheiro que seria preciso quando não sei o que vai acontecer?”

Incentivo influencia interesse na manutenção da atividade rural

Apesar das dificuldades, alguns jovens conseguem manter-se no campo. O incentivo familiar foi o principal fator para que Marcos Seefeld, 22 anos, decidisse permanecer na propriedade da família, no interior de Nova Petrópolis. Após finalizar os estudos em um colégio agrícola, fez um contrato de parceria com o avô, passando a administrar as terras da família em conjunto com ele, sua mãe e seu padrasto. “Meu avô sempre teve o sonho de que eu continuasse as atividades na propriedade que ele começou. Então, depois que me formei como técnico em agropecuária, optei por permanecer em casa.”
Na área de 28 hectares, criam gado leiteiro e suínos, plantam milho e destinam uma área à fruticultura. Recentemente investiram na propriedade, com a implantação de um sistema de ordenha mecânica. Com isso, foi obtida uma melhoria na qualidade do leite produzido, o que garante preços acima da média do mercado.
Mas Seefeld reconhece que o seu caso é uma exceção. “Na minha localidade, do grupo de amigos que eu tinha, sou o único que ficou no campo.” Entre as razões apontadas para essa fuga do meio rural, está a falta de rentabilidade da pequena propriedade agrícola e de políticas eficientes para os produtores. “O governo até empresta dinheiro, mas não adianta dar recursos com juros baixos se não conseguimos ganhar o suficiente para pagar.”
O jovem também lembra que o meio rural é mais carente de serviços do que as cidades, o que desestimula as novas gerações. “Em algumas regiões faltam coisas que são necessárias, como energia elétrica, telefonia celular, conexão de internet.”

Gestão empresarial contribui para permanência de novas gerações


Mattioni toma as decisões em conjunto com os herdeiros | NORIO ITO/DIVULGAÇÃO/JC

A questão da sucessão familiar também preocupa médios e grandes produtores. Conforme o presidente da Comissão Jovem da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Luis Fernando Cavalheiro Pires, apenas 12% dos empreendimentos rurais no Estado são administrados por pessoas abaixo dos 35 anos. “Isso quer dizer que um jovem que sai da propriedade para estudar fora, depois de se formar tem que esperar pelo menos 10 anos antes de administrar o negócio familiar. Nesse meio tempo, os colegas dele que trabalham na cidade já construíram uma carreira.”
Segundo Pires, a inserção do jovem na administração da propriedade da família é a principal contribuição para sua manutenção na atividade rural. “O comando não pode ser somente patriarcal, mas é preciso fazer uma integração, dividindo responsabilidades e ganhos.”
Esse exemplo de inserção das novas gerações na administração da agricultura empresarial é seguido na Estância Guatambu, de Dom Pedrito. Conhecida pela diversificação de atividades – arroz, gado de corte, genética bovina, soja, milho e vitivinicultura -, a fazenda obteve sucesso, grande parte, de acordo com seu proprietário, Valter José Pötter, graças às novas ideias e atividades desempenhadas pelas suas quatro filhas (Raquel, Gabriela, Isadora e Mariana). “Começamos a investir em pivô central, por exemplo, por que a Raquel, que é agrônoma, buscou uma alternativa para melhorar a produção de arroz. Também começamos a atuar com vitivinicultura, uma proposta completamente diferente do que eu fazia, devido ao interesse da Gabriela por essa área.”
Mesmo as duas filhas que não têm formação agrícola também integram os negócios. “A Isadora, que é advogada, faz todo nosso trabalho jurídico e está participando de um projeto de enoturismo. Já a Mariana, formada em Psicologia, atua na parte de recursos humanos”, comenta Pötter.
Conforme o agropecuarista, um dos meios para manter os filhos interessados no negócio rural é administrar as propriedades como empresas, onde os familiares atuam como funcionários e executivos. “Tem que esquecer que está lidando com família, e dar a eles condições de crescimento profissional, com remuneração proporcional aos seus esforços. Caso contrário, o mercado está aí, e eles podem escolher outros rumos.”
A preocupação com a administração integrada e profissional também acontece na Agropecuária Coqueiro, de São Luiz Gonzaga, onde a família Mattioni produz soja, trigo e gado de corte. Embora a propriedade pertença ao patriarca João Luiz Mattioni (54 anos), as decisões são feitas em conjunto com os filhos Diovani (27) e Giancarlo (29). Ambos estudaram Agronomia e preferiram usar seus conhecimentos no negócio familiar. “Estamos sempre atrás de ideias novas para implantar, com o consentimento do pai”, destaca Diovani Mattioni.
O objetivo é transformar a propriedade em uma empresa rural. Conforme Diovani, dar oportunidades para que os filhos possam implantar projetos próprios é essencial para que as novas gerações permaneçam no campo. “Tem que dar chances de se envolver com a administração, de dialogar. Se um proprietário quiser ser a única autoridade, aí os filhos vão embora mesmo”, sentencia.

Fonte: Jornal do Comércio

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