Extrativistas eliminam atravessadores

André Pessoa/Valor / André Pessoa/Valor
Biscoitos de baru, uma amêndoa típica do Cerrado, que são vendidos para merenda escolar e respondem pela maior fonte de sustento da cooperativa

Tudo começou com seis comunidades extrativistas que há 12 anos decidiram se unir para eliminar atravessadores e comercializar produtos do Cerrado. Hoje são cem grupos de pequenos produtores, incluindo também agricultores e pescadores, que somam mais de 1,8 mil famílias em 45 municípios nos Estados de Goiás, Minas Gerais, Bahia, Tocantins e Mato Grosso. Com faturamento de R$ 3,2 milhões previsto para este ano, a cooperativa atingiu nível de poder que influencia políticas públicas.

Um exemplo é o movimento para a delimitação de áreas naturais protegidas, destinadas ao uso econômico de plantas nativas, hoje valorizadas no mercado. "Temos projetos junto ao governo federal para a criação de 12 novas reservas extrativistas, totalizando 320 mil hectares, em benefício de 600 famílias de produtores", revela o agrônomo Marcelo Jacinto do Egito, coordenador técnico da Rede de Comercialização Solidária de Agricultores Familiares e Extrativistas do Cerrado (Coopcerrado).

No município de São Domingos (TO), o centro das atenções é a fava d’anta, vegetal bastante cobiçado no mercado pelo alto teor de rutina – antioxidante natural, de efeito comprovado no tratamento sanguíneo, que movimenta R$ 12 bilhões no mundo. A espécie vinha sendo explorada há 60 anos na região, de maneira predatória. Extrativistas que sequer sabiam para que servia a planta vendiam o quilo por R$ 0,10 para intermediários, que por sua vez a comercializavam por R$ 0,50 para o abastecimento de multinacionais farmacêuticas. "Para aumentar o ganho, as populações tradicionais faziam a extração além dos limites sustentáveis", conta Marcelo.

Os produtores foram qualificados para a colheita sem desperdício, com impacto reduzido. Aprenderam técnicas de secagem e armazenamento para melhorar a qualidade do produto, que passou a ser comercializado conjuntamente na cooperativa que entrava em operação. "Após as ações iniciais, os preços pagos aos extrativistas aumentaram cinco vezes", revela Alessandra Carla da Silva, do Centro de Desenvolvimento Agroecológico do Cerrado. Há seis anos, atendendo aos produtores, o governo federal criou em São Domingos a Reserva Extrativista Recanto das Araras de Terra Ronca, de 13 mil hectares, até hoje sem regularização fundiária. "Para pressionar a desapropriação, os fazendeiros proibiram o acesso às terras", lamenta Alessandra. Devido ao impasse, a produção caiu de 27 para 4,5 toneladas ao ano, e agora extrativistas migram para o trabalho como guia nas cavernas da região.

Além dos conflitos fundiários, diz ela, "a sazonalidade das espécies nativas aumentou significativamente na região, nos últimos anos". Desmatamento e mudanças no clima estão associados ao fenômeno. A saída para garantir a renda foi a diversificação. Hoje a cooperativa comercializa produtos obtidos de 200 plantas, tendo como carro-chefe o baru – amêndoa típica do Cerrado, vendida pelos produtores a R$ 35 o quilo, o dobro do preço da castanha de caju. O produto abastece uma agroindústria própria, onde são fabricadas barras de cereal, biscoitos, granola e rosquinhas para a merenda escolar, através de contratos com prefeituras, e para o Programa de Aquisição de Alimentos, do governo federal. Com a demanda aquecida, a expectativa é fazer estoques reguladores para evitar problemas de safra e dobrar a compra de baru de 400 para 800 toneladas ao ano, junto aos cooperados.

A estrutura da agroindústria foi montada em Goiânia com recursos da Fundação Banco do Brasil e do BNDES, no total de R$ 2,5 milhões, com capacidade de produzir 450 toneladas de biscoitos e outros produtos por ano. Parte deles chega a redes de varejo, como o Pão de Açúcar, vendida com a marca Empório do Cerrado, que pertence à cooperativa. Ao lado da fábrica, um galpão armazena 600 toneladas de frutos nativos ao ano e dez unidades industriais, como uma que processará óleos vegetais, estão previstas no projeto.

Novos produtos se agregam à carteira da cooperativa, como a farinha de mandioca, que aguarda R$ 450 mil para a montagem da fábrica. O alimento será cultivado no município de Lassance, no Norte mineiro. Gergelim, pequi e açafrão fazem parte da lista. A ipeca-branca, também nativa do Cerrado, chegou a ser exportada para a China, ao preço de US$ 150 o quilo, para uso contra vermes. Para complementar a renda, em média R$ 700 mensais, os cooperados descobriram na pimenta uma ótima alternativa.

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Fonte: Valor | Por Sergio Adeodato | Para o Valor, de Goiânia

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