Exportador teme oscilações e não se entusiasma com dólar a R$ 1,80

Regis Filho/Valor
Valdemir Dantas, presidente da Latina: “Nosso principal mercado externo é o Paraguai, mas desde setembro começaram a chegar lá lavadoras da China”

FLORIANÓPOLIS, PORTO ALEGRE E SÃO PAULO – As recentes atuações do Banco Central para segurar o dólar a pelo menos R$ 1,80, patamar que tem sido sinalizado como mínimo pelo governo federal, ainda não convenceram os exportadores. O clima generalizado ainda é de cautela, causada principalmente pelo receio de novas oscilações. Quem está mais otimista arrisca dizer que a manutenção de um real mais desvalorizado permitirá repor margem de lucro ou repassar a vantagem para o preço.

A indústria de eletrodomésticos Latina, a Bosch, de eletrodomésticos, ferramentas e autopeças, além de calçadistas gaúchos como o grupo Priority e Piccadilly, estão entre as empresas que, apesar da cautela, avaliam a possibilidade de recuperar rentabilidade ou repassar a vantagem no preço.

Valdemir Dantas, presidente da fabricante de eletrodomésticos Latina, disse que esse novo nível de dólar, se efetivamente mantido, deve alterar o preço de exportação. Provavelmente o que deve acontecer é que a vantagem cambial seja dividida entre a recomposição de margem e a redução do preço das vendas ao exterior. Como resultado, os produtos da empresa ganham um pouco mais de competitividade no mercado externo. A empresa exporta lavadoras de roupas para Paraguai, Chile e Bolívia.

"Nosso principal mercado externo é o Paraguai. Lá concorríamos com as lavadoras da Argentina e com outros fabricantes brasileiros. Desde setembro, porém, começaram a chegar lá lavadoras da China." Cerca de 4% do faturamento da Latina vem de exportação.

Gaston Diaz Perez, diretor-financeiro da Bosch, diz que a volatilidade do câmbio é um entrave para a expansão das vendas ao exterior. O efeito prático da desvalorização cambial na companhia foi a "descompressão da margem de lucros", atingida pelo real mais valorizado em 2011. Para aumentar o mercado externo ou repassar a vantagem aos preços, diz Gaston, seria necessário maior estabilidade no câmbio. "No momento, o mercado não vê um patamar sustentável, sólido. O volume das exportações aumenta se houver perspectivas de mais estabilidade para médio e longo prazo", afirma. Para conquistar mais clientes nos Estados Unidos e Europa, principais mercados da Bosch, o diretor diz que seria necessário dólar perto de R$ 2.

Apesar da cautela, fabricantes gaúchos de calçados já pensam que a desvalorização do real pode ter efeito nos preços. Como as vendas das coleções outono-inverno para o mercado externo já foram concluídas, a dúvida é se o quadro permanecerá estável para a formação de preços mais competitivos nas linhas primavera-verão, que serão lançadas em junho.

"O câmbio ideal é o câmbio estável", diz o diretor do grupo Priority, Eduardo Smaniotto. Se houver estabilidade em torno de R$ 1,90, acredita, parte do ganho poderá ser repassado para os preços da próxima coleção da empresa, dona das marcas West Coast e Cravo&Canela.

Combinado com a desoneração da folha de pagamento para o setor calçadista, esse cenário, analisa o executivo, poderá permitir que as exportações do grupo retomem, em volume, os níveis de 2010 e alcancem cerca de 15% da produção do ano. Em 2011 a exportação absorveu 12,7% da produção.

Micheline Grings Twigger, diretora de comércio exterior da Piccadilly, também acredita que se houver maior segurança em relação ao câmbio, alguma coisa poderá ser repassada aos preços. "Já houve casos em que repassamos vantagens para os clientes, mas em seguida o real se valorizou de novo", lembra a executiva. Mas, mesmo com o câmbio mais valorizado e estável daqui para a frente, Micheline prevê benefícios maiores só em 2013. Neste ano, ela acha "difícil" reverter a queda esperada das exportações para cerca de 25% da produção. Em 2011 essa fatia foi de 30%.

O diretor-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Heitor Klein, confirma que o câmbio e a desoneração da folha poderão contribuir para redução de preços na exportação a partir do segundo semestre. Ainda assim, ele considera que na melhor das hipóteses é possível "sonhar" neste ano com um desempenho de embarques igual ao de 2011. Outra vantagem do dólar mais caro, ressalta, é o aumento da competitividade dos calçados nacionais na disputa pelo mercado interno contra os produtos importados da Ásia.

Para o diretor de vendas da fabricante de revestimentos cerâmicos Cecrisa, Paulo Benetton, o câmbio entre R$ 1,80 e R$ 1,90 é um "refresco" e incentiva as exportações, mas não é ainda suficiente para grandes saltos. "Ficamos empolgados, mas não dá para soltar fogos e voltar com tudo, porque ainda há certa insegurança. No passado ele chegou a R$ 2 e logo regrediu", explica ele.

"Eu acho que essa taxa de câmbio ainda não é suficiente para aumentar as exportações e, ainda que o real se desvalorize mais, estamos com um problema bastante grande agora porque os mercados sumiram. O governo demorou muito tempo para agir", destacou Arnaldo Huebl, presidente da Móveis Weihermann.

No setor de cerâmicas, a ligeira desvalorização do real ocorre em um momento em que o mercado externo para os fabricantes nacionais está bem complicado. A crise que afeta a Europa fez os principais concorrentes europeus, como Itália e Espanha, especializados em produtos de maior valor agregado, reduzirem seus preços. Na outra ponta, os fabricantes chineses de cerâmica seguem pressionando os preços dos itens mais populares.

Segundo Benetton, nos últimos anos, a empresa manteve as vendas externas, mesmo com alguns prejuízos nas exportações. Para ele não é possível alterar preços para baixo porque as margens da exportação já estão no limite. De 2004 a 2011, a Cecrisa teve queda de 57% no faturamento para o mercado externo. Para 2012, a previsão é de melhorar um pouco e crescer 10% em relação a 2011.

Uma das maiores exportadoras de móveis de Santa Catarina no passado, a Móveis Weihermann vendia até 2009 cerca de 90% da sua produção, principalmente para Europa e Estados Unidos. Depois de um prejuízo correspondente a 14% do seu faturamento em 2009, porém, a empresa encolheu a exportação para 50% das suas vendas totais.

"Em 2009, perdemos muito dinheiro e agora não podemos mais arriscar", diz Huebl. Por isso, ele diz que não haverá mudanças de rota para a Weihermann diante da atual taxa cambial. Para o longo prazo a empresa mantém planos de concentrar mais as vendas no mercado nacional. Em 2014, prevê que 70% das vendas estarão no mercado interno e apenas 30%, no mercado externo.

(Vanessa Jurgenfeld, Sérgio Ruck Bueno, Rodrigo Pedroso e Marta Watanabe | Valor)

Fonte: Valor | Por Vanessa Jurgenfeld, Sérgio Ruck Bueno, Rodrigo Pedroso e Marta Watanabe | De Florianópolis, Porto Alegre e São Paulo

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