Expansão da produção agropecuária elevou emissões de gases-estufa no país, diz estudo

Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) concluiu que, em um período de 22 anos, o padrão de expansão da produção agropecuária do Brasil resultou em uma quantidade elevada de emissão total de gases-estufa em relação à maioria dos países, embora a emissão líquida relacionada a mudanças de uso do solo (como desmatamento e conversão de pastagem para lavouras) tenha sido negativa.

Conforme cálculos dos pesquisadores José Eustáquio Ribeiro Vieira Filho e Felipe Pinto da Silva, entre 1992 e 2014 o Brasil foi o quarto país mais eficiente no crescimento de sua produção agropecuária em um universo de 118 países analisados. Para o cálculo de eficiência foram levados em consideração a variação da produção, alocação de capital, trabalho e terra. No ranking elaborado pelos pesquisadores, a produção agropecuária da China foi a que cresceu de forma mais eficiente, seguida de Índia e Estados Unidos.

Porém, considerando o ranking de emissões totais derivadas da agricultura no mesmo período, a partir dos dados compilados pela Agência da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o Brasil foi o 36º maior emissor de gases-estufa, com uma variação de 40% nesses 22 anos. A metodologia da FAO leva em conta as emissões derivadas de fermentação entérica, manejo de dejetos animais, cultivo de arroz, uso de fertilizantes sintéticos, tratamento de resíduos, cultivo de solos orgânicos, queima de resíduos agrícolas, queimada de áreas nativas e uso de energia.

Em comparação, o avanço da produção agropecuária da China, que foi maior e mais eficiente, puxado principalmente pelo aumento da alocação de capital na atividade, veio acompanhado de um aumento de 20% nas emissões, o que coloca o país na posição 53 do ranking dos maiores emissores de gases a partir da atividade rural. A Índia, que teve o segundo melhor desempenho em eficiência produtiva no campo, viu suas emissões brutas de gases da agropecuária subirem 22%, o que a colocou no 52º posto no ranking de crescimento de emissões rurais.

Por sua vez, a produção agropecuária dos Estados Unidos, a terceira mais eficiente, aumentou suas emissões em apenas 2%, colocando o país como o 77º maior emissor. No período, a produção agropecuária do país foi puxada principalmente por aumento do volume por área e trabalho, enquanto o uso da terra para atividades rurais decaiu.

Dentre os 20 países que aumentaram sua produção agropecuária de forma mais eficiente nesse período, apenas Nigéria e Egito registraram um aumento de emissões brutas da atividade maior do que o Brasil – de 69% e 45%, respectivamente.

Em contrapartida, as emissões de gases-estufa decorrentes de mudanças do uso do solo medidas pela FAO – que contabiliza as variações no estoque de carbono relacionadas à transição, por exemplo, de florestas para pastagens, ou de pastagens para lavouras – foram negativas no Brasil no mesmo período. Nesse sentido, as mudanças de uso do solo no país resultaram em uma redução de 65% das emissões entre 1992 e 2014, de acordo com a pesquisa.

A metodologia da FAO é específica sobre as transições de uso do solo e difere de outras contabilizações de emissões de uso da terra, como a elaborada pelo Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima.

Segundo Vieira Filho, a redução das emissões relacionadas à mudança de uso da terra identificada pela FAO está ligada a uma política adotada em 2004, quando o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) abriu os dados de satélite que permitiram o monitoramento e a fiscalização do território, o que intensificou as ações de fiscalização contra o desmatamento.

Em estudo de 2018, o pesquisador afirmou que as emissões relacionadas a mudanças de uso da terra no Brasil tiveram um pico em 2005, quando atingiram 1,9 milhões de gigatoneladas de gás carbônico equivalente, e depois passaram a cair, alcançando 233 milhões de gigatoneladas de gás carbônico equivalente em 2014.

Em termos de emissões de mudança de uso do solo medidas pela FAO, o desempenho brasileiro supera o da China, Índia e EUA, que tiveram emissão positiva, com destaque para o avanço de 363% da Índia.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

Compartilhe!