Executivos agiram para abafar fraude

A Polícia Federal prendeu dez pessoas, entre elas o ex-presidente da BRF, Pedro de Andrade Faria, e cumpriu buscas em endereços da empresa em São Paulo durante a terceira fase da Operação Carne Fraca, a "Trapaça", realizada ontem. Também houve busca na sede da Tarpon, gestora de recursos da qual Faria é sócio (ver Tarpon vira alvo de especulação com novo capítulo em crise de BRF). A iminência da deflagração foi adiantada na sexta-feira pelo Valor PRO, serviço de informações em tempo real do Valor.

Parte da investigação, sobretudo a linha que levou à prisão de Faria, foi baseada em documentos obtidos por meio de uma ação trabalhista movida pela ex-supervisora laboratorial Adriana Marques Carvalho. Cópias de e-mails trocados na BRF e anexados ao processo trabalhista expuseram omissões da empresa e adulteração de resultados de análises sobre contaminação de produtos pela bactéria salmonela, segundo PF e o Ministério Público Federal.

Em um dos e-mails sobre o processo trabalhista, Pedro Faria escreve ao então vice-presidente de operações da BRF, Hélio Rubens Mendes dos Santos Júnior: "É um absurdo. Impressionante como sempre levamos bucha dos mesmos lugares. Hélio, por favor, avalie algo drástico por lá". Depois disso, Hélio repassa a mensagem e, no fim, um advogado propõe aumentar a indenização para Adriana Marques Carvalho para "não deixar o processo andar".

"Pedro de Andrade Faria atuou de modo deliberado para burlar a fiscalização federal e ocultar a ocorrência de bactéria Salmonela pullorum nas matrizes da BRF", relata decisão do juiz André Duszczak, da 1 ª Vara Federal Criminal de Ponta Grossa (PR). Ao todo, a ação policial autorizada pelo magistrado contou com 91 mandados judiciais, sendo 11 de prisão temporária e 53 de busca e apreensão envolvendo investigados e 27 de condução coercitiva de testemunhas. As ordens atingiram alvos em São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás.

Três fábricas em que a BRF abate aves – em Carambeí, no Paraná, e Mineiros e Rio Verde, em Goiás, foram alvos de mandados de busca, tiveram suspensas as autorizações para exportar e correm o risco de serem fechadas caso os agentes encontrem novos indícios de irregularidades. Outra planta do grupo, em Chapecó (SC), que produz rações, também foi vasculhada por policiais. Estão na mira, ainda, dois laboratórios de análises da própria BRF e três que pertencem ao grupo Mérieux NutriSciences, que informou estar colaborando com as investigações. Todos são suspeitos de omitir a presença de subtipos da bactéria salmonela em análises de produtos da BRF e de substituir resultados desfavoráveis à empresa por outros que não indicaram problemas de contaminação.

"Na primeira fase [da Carne Fraca], havia funcionários [do Ministério da Agricultura] envolvidos, inclusive superintendentes, gente ligada a agentes políticos. Então, não era possível trabalhar com o ministério. Agora, tivemos todo o apoio do ministério para identificar as fraudes. E trabalharemos juntos na análise do material", disse o delegado Maurício Moscardi Grillo, coordenador da operação Carne Fraca na Polícia Federal. No encontro da PF e do MPF com a imprensa estava presente o coordenador-geral de Inspeção do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa) do ministério, Alexandre Campos da Silva, e o coordenador-geral da Fiscalização Fiscal Agropecuária, Rodrigo Barbosa Nazareno.

Apenas em 2017, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) recebeu 410 notificações de presença de salmonela em níveis acima do tolerado vindas de países que são mais rigorosos que o Brasil quanto ao patógeno – entre os quais, China, Rússia, África do Sul e União Europeia (ver abaixo). "Cerca de 80% das notificações vieram da UE. Quando não se detecta aqui, mas no país de origem, se fragiliza o sistema de inspeção federal", disse Campos da Silva. Há dois mil subtipos de salmonela, e só dois causam problemas à saúde. Esses dois não foram encontrados nas análises suspeitas.

O delegado Maurício Moscardi Grillo relatou que a troca de e-mails entre executivos e pessoal do controle de qualidade da BRF foram "provas bastante consistentes", que deixaram "evidente esquema de fraude bastante complexo, para burlar a fiscalização e a atuação do Ministério da Agricultura". No despacho em que autorizou a terceira fase da Carne Fraca, o juiz federal também registra haver fraudes na fabricação do composto premix, utilizado como suplemento de rações.

Em e-mail transcrito no despacho do juiz André Wasilewski Duszczak, uma das funcionárias da BRF alerta para "o risco de serem ‘pegos’" pela inspeção federal, uma vez que "raramente declaramos corretamente os produtos" e, "em casos de auditoria surpresa ou rastreabilidade imediata, dá pra imaginar que não tenhamos tempo ágil, para alterar tudo o que é necessário". Esse e outros e-mails, no entendimento do juiz, revelam que as fraudes são frequentes.

Corroboram tais suspeitas depoimentos dos fiscais federais agropecuários Antônio Carlos Prestes Pereira e Nicole Plugge, que constataram a contaminação quando houve fiscalização da planta da empresa em Carambeí. Segundo uma fornecedora, o gerente da unidade da BRF no município tinha conhecimento da ocorrência da bactéria e nada fez.

Por André Guilherme Vieira, Rafael Moro Martins e Cristiano Zaia | De São Paulo, Curitiba e São Paulo

Fonte : Valor

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