Ex-diretor da Sadia obtém vitória no STJ

Leonardo Rodrigues/Valor / Leonardo Rodrigues/Valor

"Eram uma grande companhia [Sadia] e um ex-ministro [Luiz Fernando Furlan] me acusando", diz Ferreira, que hoje trabalha em uma fabricante de motos

Adriano Ferreira, 38 anos, "algumas toneladas mais leve". É assim que o ex-diretor financeiro da Sadia, protagonista das perdas de R$ 2,55 bilhões com derivativos cambiais de 2008, se descreve, após vitória no Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre a companhia.

Em 2009, a Sadia iniciou uma ação de responsabilidade civil contra o executivo, solicitando ressarcimento das perdas. Com a iniciativa, a companhia praticamente elegeu Ferreira como único responsável pela situação. A perda bilionária com os derivativos de alto risco – apelidados de tóxicos na época da crise – levaram a Sadia ao primeiro prejuízo em mais de 60 anos de história e à fusão com a Perdigão, dando origem a BRF-Brasil Foods. Foi a saída encontrada para a continuidade dos negócios.

O STJ repetiu a decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo e julgou improcedente a ação da Sadia contra o executivo, sem julgar o mérito. O julgamento foi na terça-feira à tarde e o executivo ganhou por unanimidade, com quatro votos a seu favor. O relator foi o ministro Ricardo Villas Bôas Cueva. A empresa terá de se responsabilizar pelos custos da discussão na Justiça, estimados em R$ 700 mil. Consultada, não comentou o assunto.

O argumento usado pela defesa, conduzida por Edgard Silveira Bueno e Massami Uyeda Junior, do escritório Arap, Nishi & Uyeda Advogados, foi o de que a assembleia de acionistas da Sadia aprovou sem ressalvas as contas da empresa referentes a 2008. O artigo 134 da Lei das Sociedades por Ações determina que aprovação, sem reserva, da demonstração financeira exonera de responsabilidade os administradores e fiscais da empresa, exceto em casos de erro, dolo, fraude ou simulação.

O advogado Uyeda Júnior explicou que a decisão é importante para dar segurança aos administradores de companhias abertas. "Fica confirmado que, uma vez aprovada as contas da empresa, o executivo não pode ser responsabilizado pelo passado", afirmou.

Ferreira trabalha desde o fim de 2010 na fabricante de motocicletas Kasinski, como diretor financeiro e administrativo. "Foram amigos que me levaram. Os headhunters tinham sempre um pé atrás", conta ele. "Eram uma grande companhia [Sadia] e um ex-ministro [Luiz Fernando Furlan] me acusando".

A Sadia anunciou as perdas em 26 de setembro de 2008, junto com a demissão de Ferreira, interrompendo sua carreira meteórica na empresa. Fez parte da defesa a vocação financeira da Sadia. "Ela é anterior à minha atuação". Quando sofreu as acusações, o executivo contou que 80% do lucro do primeiro semestre de 2008 – R$ 335 milhões – veio de ganhos com operações de alto risco.

"Quando está tudo bem, há 50 mil ao seu redor para estourar a champanhe", diz Ferreira. "Aprendi que a vida é uma selva de pedra. É preciso tomar todas as precauções possíveis, deixar tudo claro, no papel, para evitar surpresas".

A Sadia, agora dentro da BRF, ainda busca caminhos jurídicos para reverter a decisão. No STJ, tenta embargar a decisão para esclarecer alguns pontos do processo. A empresa também busca recurso no Supremo Tribunal Federal (STF), mas terá de provar antes que o caso envolve violação da constituição federal.

Na mesma época em que a Sadia sofreu os prejuízos, a Aracruz – hoje combinada à Votorantim Celulose Papel (VCP) na Fibria – teve perdas de R$ 4,2 bilhões. A assembleia da empresa de 2009 deixou registrada ressalva contra o diretor financeiro da ocasião, Isac Zagury, ao tratar das contas do ano anterior. O executivo é alvo do mesmo tipo de ação que sofreu Ferreira, pela Aracruz.

O episódio da Sadia já foi julgado na Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A autarquia inabilitou Ferreira por três anos, para atuação em companhias abertas. O então presidente do conselho de administração Walter Fontana e outros três conselheiros foram multados em R$ 400 mil cada. Os demais membros do conselho, que não eram dos comitês de finanças ou auditoria, receberam multa de R$ 200 mil cada. O caso da Aracruz teve retomadas as investigações e por isso ainda não foi julgado. Ferreira move ação por danos morais contra a Sadia, na qual também cobra direitos trabalhistas. Ainda não há decisão sobre essa disputa.

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.
Leia mais em:

http://www.valor.com.br/empresas/2731238/ex-diretor-da-sadia-obtem-vitoria-no-stj#ixzz1z5kchI9m

Fonte: Valor | Por Graziella Valenti | De São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *