Europeus voltam a ganhar força no mercado de açúcar

Em sua primeira safra livre de cotas para produzir e exportar açúcar após dez anos de restrições, a União Europeia deve turbinar a fabricação da commodity na temporada internacional 2017/18 e voltar a ser um player global – ameaçando a participação de países da África que se tornaram fornecedores do bloco por acordos comerciais.

Ainda faltam pouco mais de três meses para que os agricultores europeus iniciem o plantio de beterraba, a matéria-prima do açúcar no continente, mas a consultoria S&P Global Platts já espera uma expansão na área cultivada que leve a um salto de 10% na produção de açúcar na safra 2017/18 (que começará em outubro) em relação à safra atual, para 18,318 milhões de toneladas.

Admitindo que a produtividade não vá variar muito em relação à safra atual, a consultoria calcula que o cultivo de beterraba deve cresceu 11%, para 1,575 milhão de hectares. O cálculo considera as intenções dos agricultores e o histórico desde a safra 2012/13, mas a consultoria ressaltou, em relatório, que o cenário estará mais claro "em três ou quatro meses".

Ainda assim, o aumento da oferta interna já deve fazer com que a UE se recoloque no mercado global, exportando em torno de 2 milhões a 3 milhões de toneladas no curto prazo, avalia a consultoria.

Essa é uma péssima notícia para Maurícia, Moçambique, Sudão, Suazilândia, Zimbábue, Maláui, Zâmbia e Madagascar, localizadas no sul e leste da África, que atualmente destinam um quarto de todo o açúcar que produzem à UE, beneficiados por cotas com isenção de impostos.

"No médio prazo, o aumento da produção da UE pode resultar em uma redução das importações. Para 2017/18, a resiliência dessas origens para alguns açúcares vai continuar, mas o interesse em algumas origens e qualidades, como o açúcar branco da Mauritânia, pode enfraquecer", sinalizou a consultoria, em relatório. Já a saída do Reino Unido do bloco pode manter o país como um destino de açúcar, "dependendo dos acordos comerciais que emergirem após o Brexit".

Para a consultoria, os países africanos precisarão de flexibilidade comercial para garantir alternativas. Isso já ocorreu com o Maláui, por exemplo, que voltou suas exportações aos Estados Unidos quando, na safra 2014/15, o excesso de oferta derrubou os preços que a UE pagava pela commodity.

A saída também pode ser doméstica, uma vez que um rápido crescimento da demanda interna pode absorver a produção. Ainda assim, a consultoria reconhece que os países africanos que se desenvolveram a partir de acordos preferenciais de exportação vão sentir "a força bruta da liberalização".

Esse impacto, porém, não será imediato, já que os estoques estão baixos, e a perspectiva é que os países do bloco importem 3 milhões de toneladas na safra 2017/18.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte : Valor

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