‘Estamos trocando pneu com o carro andando’, diz executivo do agronegócio

Pedro de Camargo Neto, da SRB, diz que não é hora de disputas dentro do setor, como a que vem ocorrendo entre frigoríficos e pecuaristas

Entrevista com

Pedro de Camargo Neto, vice-presidente da Sociedade Rural BrasileiraMônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2020 | 17h47

Responsável por um quinto do PIB nacional, o agronegócio já começa a ver o impacto do avanço do coronavírus em sua cadeia. E, segundo Pedro de Camargo Neto, vice-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), há uma queda de braço entre frigoríficos e produtores de carne bovina em torno dos preços, com as empresas pressionando por uma queda e os pecuaristas resistindo. 

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plantação de soja
Camargo diz que o PIB do agronegócio deve ser afetado, mas deverá recuar menos que o PIB nacional. Foto: Clayton de Souza/ Estadão

De acordo com Camargo, o PIB do agronegócio deverá ser afetado, mas deverá recuar menos que o PIB nacional. “Há um tumulto que ainda ninguém entende direito. Vai ser um tempo difícil, uma guerra. Precisa ter calma, reflexão. A última coisa que a gente quer é acirrar ânimos, entrar em briga”, disse. A seguir, principais trechos da entrevista:

Como o coronavírus está impactando o agronegócio?

Há um tumulto que ainda ninguém entende direito. Lideranças políticas divergem, os médicos divergem, mas é um fato. Agora é saber como vai avançar. Já está em São Paulo e no Rio. O agro não é de centros, mas não existe o agro isolado. É uma cadeia: tem insumos, logística, financeiro. Vai ser um tempo difícil, uma guerra. Precisa ter calma, reflexão. A última coisa que a gente quer é acirrar ânimos, entrar em briga.

Mas já há tensão entre frigoríficos de bovinos e pecuaristas…

Diferentemente dos frigoríficos de aves e suínos, que estão em um tom mais conciliatório de não parar, os frigoríficos de bovinos, em vez de adotarem uma postura de resolver juntos (com toda a cadeia), fazem um terrorismo (para baixar os preços que pagam) que só acirra ânimos. A tensão entre frigoríficos e pecuarista é histórica. Eles ficaram os maiores do mundo, mas têm cabeça muito pequena. O JBS é o líder. Eles têm as dificuldades deles, ninguém nega. Nos Estados Unidos, eles tiveram aumento de consumo, mas aqui alegam que tiveram rompimento de contrato, sobretudo do food service. Mas isso não justifica a atitude de acirrar ânimos. (Procurado, o JBS não retornou os pedidos de entrevista até o fechamento desta edição).

Os ânimos então se acirraram de vez?

Sim. Há grupos de pecuaristas que estão indignados.

E os preços já foram afetados?

Eu diria que os preços estão estáveis. Ninguém sabe direito como vai ficar oferta e demanda. Mas ninguém sabe o dia de amanhã. É o momento de você tentar tranquilizar, produzir e exportar. Deveria estar em um momento de não acirrar ações negativas. Está todo mundo com medo da propagação do coronavírus.

E como está a situação das outras culturas do agronegócio?

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, montou um comitê de monitoramento, que vai tentar ajudar dentro das possibilidades do Ministério da Agricultura, que são poucas para o tamanho desse problema. Acho que as questões mais sensíveis são de logística, financeiras e trabalhistas. Trabalhista, digo, recursos humanos. Não é a fazenda: é a cadeia como um todo. Vai ter como exportar? Vai ter contêiner, porto? A quantidade de problemas é imensa. Vai precisar de muita calma. É um problema de crise que exigiria solidariedade. A da cadeia de bovinos foi oposta. 

E a cadeia da soja?

Colheu e ainda está fluindo. Há pedidos. A China, aparentemente, está comprando e anunciou que as questões de portos se equacionaram. 

E outras culturas, como a cana, por exemplo?

A cana vai ter problemas de preço, porque caiu a cotação do petróleo e, consequentemente, do álcool. Mas não vejo ninguém acirrando ânimos.

Qual será o impacto no PIB do agronegócio?

Vai ser uma queda geral. O agro, talvez até caia menos, porque é comida. As pessoas precisam comer. Vamos ter problemas de logística. Mas vai ser um dos setores menos afetados.

O comitê montado pela ministra da Agricultura já foi acionado?

A ministra se colocou à disposição para ajudar e a ouvir.  Ela cumpre um papel muito positivo. Mas, no fundo no fundo, ninguém ainda sabe de nada. Estamos trocando pneu com o carro andando.

Fonte: Estadão