Estamos aí mais 20 (Artigo)

Em 1992, cheguei ao Rio certa de que ali aconteceria uma coisa grandiosa. Além da militância ambientalista, tinha feito parte do pequeno grupo que redigira à última hora o relatório brasileiro para a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Estava embalada, com todas as expectativas, esperanças, teorias e novidades na cabeça. O clima era de confronto e festa, de construção, afirmação e negação. Nada melhor para o espírito! Embora não tenha vocação religiosa nem para deuses nem para ideologias, era legítimo achar, mesmo mantendo o olhar crítico de plantão, que ali estava quase em ponto de fervura a panela do caldo que nos levaria a algo como um marco na história do planeta, um impulso para um patamar civilizatório menos medíocre do que este no qual nos aguentamos à tona em boias remendadas. Aconteceu e não aconteceu. A Rio-92 foi e não foi esse impulso. Inútil aqui recordar todos os brilhos e números daquela conferência, seus ineditismos. Também não se pode negar que os documentos e instrumentos ali aprovados marcaram os últimos 20 anos, embora mais pelos fracassos do que pela implementação. As convenções (Biodiversidade e Mudanças Climáticas) arrastaram-se como foi possível, em meio ao corpo mole dos países ricos, dos titubeios dos não tão ricos e do esperneio de uma parte dos pobres. O Protocolo de Kyoto, de 1997, foi pelo mesmo caminho. Mas talvez nada tenha sido mais significativo do que o cruel abandono da Agenda 21, que fornecia um roteiro prático para as mudanças preconizadas no Rio. Um efeito interessante da Rio-92 e sua grande novidade %u2014 que acabou criando um padrão para todas as grandes conferências globais posteriores %u2014 foi a movimentação da sociedade civil, pressionando a conferência oficial e criando seus próprios espaços de debates e, reconheça-se, também de muita briga e disputas por hegemonia e demarcação de territórios políticos. E chegamos à Rio%2b20. Não irei. Um pouco porque não posso e muito porque não quero. Mas meu filho vai. E levará o filho dele, de quase 5 anos. Será que há alguma lição nisso? Quantas gerações mais serão engolidas por esses rituais tão grandiosos quanto frustrantes, de grandes conferências em que o poder global encena, mas não vai além de resguardar seus próprios interesses atrasados e mesquinhos, verdugos do bem-estar das populações e do planeta? Para acreditar que algum dia estaremos em algo que estruturalmente signifique civilização, com base em valores humanos, sociais e ambientais, é preciso engolir a decepção e apostar na força nova da juventude que se junta àqueles que estão a ponto de perder a paciência, mas não desistem. A Rio%2b20 será apenas um evento, muito criticável por um lado, mas, dialeticamente importante por outro. Assim como em 92, possivelmente seu melhor resultado será organizar e agregar novas levas de gente disposta a mostrar até onde vai seu inconformismo diante das regras caducas de uma era muito denunciada, muito combatida e ainda assim sólida na sua insanidade financeiro-consumista. Inclusive gente que, nas entranhas de governos e instituições dos mais variados tipos de poder global, nacional ou local, fará a diferença para, pelo menos, trincar a couraça do conservadorismo, da preguiça política e da falta de inteligência inovadora que boicota os esforços de transição para parâmetros básicos sustentáveis de desenvolvimento. A grande oportunidade que a Rio%2b20 escancara é a de chegar a alguns consensos valiosos e alianças em torno da unicidade das questões econômicas, sociais e ambientais. Para além do bate-boca irritante sobre economia verde, seria mais importante atacar as mentalidades que sempre usurparão conceitos e deturparão sentidos. O problema de fundo não é a agenda formal. É a contradição brutal entre a tremenda importância dos assuntos da Rio%2b20 para a humanidade e o reduzido grupo que se ocupa deles, numa redundante e eterna briga de comadres. O desafio de hoje, para a sociedade que está lá, não é questionar a %u201Ceconomia verde%u201D nos limites do Rio (seja no Riocentro, seja no aterro do Flamengo ou em debates televisivos madrugada adentro), mas em ampliar-se, em fazer com que a sociedade que está nas ruas, nas casas, nas oficinas, nas indústrias, nos morros, nas cidades, em todo canto, entre no jogo e crie as condições para virá-lo do avesso. Pois é. Mil coisas. Eu não vou, mas continuo na turma do %u201Cestamos aí%u201D. Na volta de meu filho, ficarei atenta às suas análises. E espero que ele e eu ainda estejamos na batalha quando meu neto for à Rio%2b40.

Fonte: CORREIO BRAZILIENSE – DF
Jornalista(s): MARISTELA BERNARDOJornalista e socióloga