Estados relegam obras contra a seca e pode faltar água

Fonte: Valor | Por Ramit Plushnick-Masti | Associated Press

No papel, pelo menos, o Estado americano do Texas está bem preparado para atender às necessidades de água de sua população em rápida expansão – mesmo diante da severa e prolongada seca imposta pela mãe natureza.

Custo do plano previsto: US$ 53 bilhões. Verba destinada pelo Estado: US$ 1,4 bilhão.

Se houvesse recursos, o Texas conseguiria construir as barragens, reservatórios, aquedutos, poços e outros elementos de infraestrutura que evitariam, em termos ideais, as rígidas restrições ao uso da água impostas aos habitantes, agricultores e pecuaristas durante tempos de seca, ao mesmo tempo em que garantiria também o abastecimento suficiente de água para a população do Estado, que está em rápida expansão, até 2060.

Em vez disso, atualmente, mais de quatro anos depois da publicação do último projeto, os prazos foram ultrapassados com as obras mal começadas, e muitos projetos nem chegaram a ter início. Por outro lado, os lagos estão encolhendo, os rios, secando e as temperaturas, subindo.

"Quanto mais se adiar a implementação, mais os custos vão subir", afirmou Carolyn Brittin, funcionária graduada do Conselho de Desenvolvimento de Recursos Hídricos do Texas, que precisa publicar um plano corrigido até o mês de janeiro.

Em termos mundiais, 7 bilhões de pessoas precisam de água – sendo que, 97% dela é salgada e 2%, congelada. Do restante, dois terços são empregados no cultivo de alimentos.

Os Estados Unidos, e o Texas em particular, precisam encontrar água para uma população crescente. As temperaturas e a estiagem excepcionalmente elevadas chamaram a atenção, recentemente, para essa necessidade.

Três anos de vento seco, que tiveram início em 2008, levaram o populoso sul da Califórnia e o Vale Central, rico em agricultura, ao desespero. As autoridades não conseguiam fornecer mais de 50% da água necessária às cidades e às plantações. No Meio-Oeste do país, desde a década de 1990, os níveis de água nos Lagos Huron e Michigan caíram algumas vezes, causando milhões de dólares em prejuízos. O árido Sudoeste do país enfrenta dificuldades há décadas.

No Texas, que está vivendo uma de suas mais rigorosas secas de todos os tempos, as autoridades sabem exatamente o que fazer para garantir abastecimento de água às gerações futuras – de fato, o Texas gasta US$ 16 milhões a cada cinco anos na elaboração de planos para o futuro.

Quando o último plano foi publicado, em 2007, as autoridades estimaram que o abastecimento de água para a população em 2060 custaria US$ 31 bilhões, disse Dan Hardin, diretor de planejamento de recursos hídricos no conselho de desenvolvimento de recursos hídricos.

Esse valor não inclui os mais de US$ 140 bilhões necessários para outros aspectos da infraestrutura hídrica, como o controle das enchentes. Em janeiro, o conselho disse à Assembleia Legislativa estadual que o custo tinha saltado para US$ 53 bilhões.

Mas os parlamentares, às voltas com um déficit orçamentário de US$ 27 bilhões, destinaram apenas US$ 100 milhões aos projetos hídricos – o suficiente, por exemplo, para construir um reservatório de pequeno porte.

"Bilhões de dólares em ideias, mas nenhum dinheiro", afirmou Laura Huffman, diretora estadual da organização Nature Conservancy do Texas.

Os projetos hídricos, principalmente os reservatórios, sempre foram caros. Custou US$ 30 milhões em meados da década de 1960 – ou o que seriam US$ 227 milhões atualmente – a criação do Lago Meredith, na região conhecida como o Panhandle do Texas, no extremo norte de seu território. Atualmente, o custo de um reservatório de grande porte pode ultrapassar US$ 500 milhões. Mas, às vezes, outros fatores, como a rigidez das normas ambientais e a burocracia, podem obstruir um projeto.

No norte do Texas, o projeto do Reservatório de Lower Boisd’arc dispõe de metade das terras de que necessita. As autoridades da área de planejamento esperam ter o lago funcionando até 2020. Mas obstáculos de concessão de alvará e de natureza jurídica poderão retardá-lo.

Ao norte de Houston, a oposição dos moradores paralisou, por enquanto, um reservatório planejado para abastecer de água a cidade e seus bairros periféricos, onde moram 25% dos texanos e onde a população cresce em ritmo acelerado. Nessa região, as autoridades da área de planejamento recomendaram 121 projetos. Sete estão em desenvolvimento, disse Hardin.

"Acho que não existe a noção de que teremos um problema pela frente, e considero que esse é o maior desafio: mudar a mentalidade, não somente dos nossos cidadãos, mas dos nossos dirigentes", afirmou o especialista em recursos hídricos Larry Soward, que já foi um dos membros da Comissão de Qualidade Ambiental do Texas.

O Departamento Municipal de Recursos Hídricos do Rio Canadian, que atende aos moradores de parte das terras mais áridas do Estado, é um dos poucos que implementaram – e financiaram de forma independente – todo o seu plano hídrico.

O Lago Meredith, fonte de quase 80% da água da área, não correspondeu às expectativas desde o início. Ele alcançou a sua capacidade plena apenas uma vez, e com uma qualidade de água precária.

No último período de dez anos, a região passou por várias secas intensas. E o Lago Meredith, que deveria atender aos habitantes por 150 anos, começou a secar depressa. Este ano, o lago mal conseguiu manter uma profundidade de 9,14 metros. Se a seca e o calor continuarem, poderão sobrar apenas cerca de 4,6 metros para o próximo verão, no ano que vem (de setembro a dezembro de 2012).

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