À espera de um milagre?

Fonte: Valor | Daniele Camba e Beatriz Cutait |De São Paulo.

Diante da forte perda de 10% no ano, com o Índice Bovespa na casa dos 62 mil pontos, algumas corretoras resolveram agir. Perto do fim do primeiro semestre, os investidores enfrentam um cenário de grandes incertezas mundo afora, e as projeções do início do ano de que o Índice Bovespa ultrapassaria a casa dos 85 mil pontos – o que significaria uma alta de 23% em 2011 – estão mais para milagre do que fato.
Um levantamento realizado pelo Valor com 17 instituições mostra que sete delas rebaixaram as projeções do Ibovespa para dezembro e cinco colocaram o número em revisão. Algumas casas de análise cortaram a estimativa do índice em mais de 15 mil pontos. Insegurança com inflação global, perspectiva de menor crescimento das potências mundiais, grande volatilidade no preço das commodities, expectativa de lucros mais magros das empresas e ingerência governamental em companhias brasileiras estão tirando o brilho de um ano que se mostrava promissor. Vale lembrar que o Ibovespa subiu em 2010 só 1,04%, depois de avançar mais de 80% em 2009.
O investidor estrangeiro, cujas compras ultrapassaram as vendas de ações em quase R$ 6 bilhões em 2010, ainda não deu o ar da graça este ano. Pelo contrário, sua posição líquida é negativa em R$ 2,2 bilhões no mercado à vista e, no futuro, ele mostra posição vendida em 82 mil contratos, próximo do maior nível do ano.
O BB Investimentos, que em dezembro projetava o Ibovespa na casa dos 86 mil pontos, alterou sua expectativa drasticamente, para 70 mil pontos, o maior corte entre as instituições ouvidas pelo Valor. Segundo Hamilton Alves, analista sênior da instituição, as notícias do front nacional tiveram o maior peso para a revisão.
"A subida de juros no Brasil será lenta e os efeitos, graduais, e o mercado ainda tem dúvidas se as medidas do Banco Central conseguirão reduzir a inflação", diz Alves. "O PIB do país será menor e a taxa de desconto para as empresas, maior, ou seja, o dinheiro migra da renda variável para a fixa; existe um ‘fly to quality’ (fuga para a qualidade), atribuído à cena domestica", diz o analista do BB.
O banco HSBC revisou a projeção de 85 mil para 80 mil pontos com base nos lucros das empresas no primeiro trimestre abaixo do esperado. No entanto, assim como o BB, o banco acredita que a queda da bolsa vem do cenário macroeconômico interno. Para o estrategista de renda variável do HSBC, Carlos Nunes, existe uma grande incerteza com relação à política econômica do novo governo. "Há um nítido descompasso entre as atitudes do novo governo para conter a inflação e o que o mercado espera", diz ele.
Para o estrategista, enquanto o BC tenta economizar no aperto monetário, o mercado gostaria de ver algo mais austero. "Haverá uma acomodação da inflação no curto prazo, mas que não é sustentável, especialmente com as negociações dos dissídios salariais que estão por vir e o atual quadro de pleno emprego", afirma Nunes. Portanto, se não houver um processo mais forte de alta de juros, a percepção de risco do investidor tende a piorar, comprometendo o desempenho do mercado. "O Ibovespa não chega nem nos 80 mil pontos se o governo não tiver um pulso mais firme para domar a inflação", acredita Nunes.
Além da parte macroeconômica, existem fatores específicos que fazem o mercado brasileiro estar atualmente entre os lanterninhas. O analista de investimento da SLW Corretora Pedro Roberto Galdi ressalta que são as chamadas "blue chips" que não estão deixando a bolsa brasileira decolar. Ele avalia que os papéis da Petrobras e da Vale, que caem, respectivamente, 12% (PN) e 8% (PNA) no ano, continuam pressionados pela ingerência estatal nas companhias. A corretora está revisando sua projeção para o Ibovespa para o fim do ano, que até então era de 87.238 pontos. No entanto, ele acredita que é factível o índice chegar em dezembro na casa dos 75 mil pontos.
Em termos de liquidez, tirando as duas vedetes do mercado, sobram as ações de bancos, mas que apresentam quedas acentuadas no ano, diante dos receios relacionados às medidas macroprudenciais adotadas pelo governo para conter a inflação, lembra Galdi.
"O investidor estrangeiro, que é quem dita o destino da bolsa, está sem opção" diz o superintendente de renda variável da Itaú Asset Management, Gilberto Nagai. Ele (o estrangeiro) torce o nariz para a intervenção do governo em Petrobras e Vale, enquanto que em bancos, que seriam os candidatos naturais depois das duas companhias, tem medo de que haja uma queda nos retornos por causa das medidas macroprudenciais, explica Nagai. A Itaú Asset revisou a projeção do Ibovespa de 78 mil para 72 mil pontos.
Naturalmente, as questões internacionais também não dão folga para o investidor. Na avaliação de Alves, do BB, o destaque está no controle de crescimento pela China e as dificuldades enfrentadas pelos EUA para melhorar a renda do consumidor.
Se o cenário externo não melhorar, a tendência será o Ibovespa cair para um intervalo de 57.600 a 58 mil pontos, estima Alves. "E este ‘fundo’ poderá, inclusive, ser rompido, se houver alguma crise internacional, como um default na Europa ou uma disparada da inflação." No pior cenário, segundo o analista do BB, o Ibovespa poderá cair para 48 mil pontos. "Mas nosso cenário básico é a bolsa recuar para 61 mil pontos e ter uma recuperação", afirma o analista, que tem nos 76 mil pontos o cenário mais otimista.
Segundo o estrategista do banco Santander, Marcelo Audi, essa última grande queda do Ibovespa, dos 69 mil para os 62 mil pontos, ocorreu graças às dúvidas quanto à continuidade da recuperação americana. Ele acredita, no entanto, que existe um ambiente econômico global benigno, que fará o Ibovespa fechar o ano no mínimo no campo positivo. "A recuperação do PIB dos EUA deve continuar, consequência de uma acomodação no preço das commodities e, portanto, a confiança do consumidor deve melhorar", diz o executivo. Ele também acredita que a desaceleração na China está mais para um pouso suave do que para uma brusca aterrissagem.
O diretor de investimento da Victoire Brasil Investimentos, Mohamed Mourabet, ressalta que a instituição já tem promovido ajustes pontuais para o Ibovespa. Neste momento, a gestora considera que apenas em junho de 2012 o índice poderá alcançar os 80 mil pontos. Ele assinala que é preciso cautela para avaliar se a alta dos preços das commodities dará uma trégua à economia brasileira e se irá se refletir em menor necessidade de alta de juros no país.
O front corporativo, entretanto, não anima. Os resultados apresentados pelas empresas brasileiras sinalizam uma taxa de crescimento de lucro menor do que se esperava. "Temos que nos acostumar a não contar com aumentos de 50% ao ano, mas de 15% a 20% no faturamento das empresas, o que é normal." Ele lembra que a expansão se desacelerou e há uma pressão de custos sobre as companhias difícil de ser repassada aos clientes e, portanto, as margens, em termos percentuais, tendem a cair.