Especulação climática guia commodities

Fortemente influenciadas por movimentos especulativos derivados de problemas ou incertezas provocadas pelo clima – o que tende a perdurar em maio -, sete entre oito commodities agrícolas de destaque no comércio exterior do país voltaram a encerrar abril com preços médios superiores aos de março nas bolsas de Chicago (soja, milho e trigo) e Nova York (café, cacau, suco de laranja e algodão).

Exceto pelo açúcar, que registrou leve recuo, foi o terceiro mês consecutivo de valorizações generalizadas desse grupo de produtos. Uma curva que fortalece o superávit da balança comercial do agronegócio brasileiro, apesar de o país ser um grande importador de trigo, mas amplifica as preocupações com a inflação dos alimentos, já que todos eles (inclusive o açúcar) continuam a apresentar médias maiores que as de dezembro de 2013 (ver infográfico).

Conforme cálculos do Valor Data com base nos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez), a soja puxou as altas em Chicago. O grão encerrou o mês com cotação média 4,76% maior que a de março. Apesar da tendência de ampliação da área plantada nos EUA na safra 2014/15, pesou para a valorização o nível historicamente baixo dos estoques americanos. Na semana passada, o pequeno atraso da semeadura naquele país ofereceu suporte – que ontem já sofreu forte erosão, em decorrência de previsões climáticas favoráveis.

Mais acentuado no caso do milho, o atraso da semeadura nos EUA se somou à previsão de queda da área plantada americana e determinou uma valorização de 4,10% na cotação média do cereal em Chicago na comparação entre abril e março. E, no caso do trigo, que já registrou perdas por conta da estiagem naquele país, houve alta em Chicago de 1,35%, o que manteve os preços no elevado patamar alcançado após o início da crise entre Ucrânia e Rússia, grandes exportadores do produto.

Se nesta época do ano já é normal a influência do "weather market" nos mercados de grãos, por causa do início do plantio no Hemisfério Norte, em Nova York, onde são transacionadas as "soft commodities", o peso do clima em abril foi maior que o normal. E isso por causa do El Niño, que deverá dar o ar da graça este ano, provocando o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico e alterando o regime de chuvas em diversas regiões do planeta, e, com isso, poderá prejudicar as já combalidas produções de açúcar e café no Brasil, de café no Vietnã, de açúcar na Índia e de cacau na África.

Nesse contexto, o café, extremamente volátil este ano, fechou abril com cotação média 5,08% acima de março, enquanto o cacau avançou 0,08%. O açúcar, que vinha em alta por conta da seca no Centro-Sul do Brasil, devolveu ganhos e registrou retração de 1,42%, mas poderá registrar repiques em caso de novas intempéries. O suco também subiu (5,10%), mas sob os reflexos da pequena safra de laranja da Flórida, e o algodão completou a lista altista (1,19%), puxado por boa demanda.

A especulação, contudo, poderá diminuir, já que os fundos que atuam nos mercados agrícolas reduziram nos últimos dias as apostas na valorização dos principais grãos negociados na bolsa de Chicago. Conforme a Comissão de Comércio de Futuros de Commodities (CFTC, na sigla em inglês), os gestores de recursos ("managed money") encerraram a semana de 22 de abril com uma posição líquida de compra de 165.151 contratos (entre futuros e opções) de soja, 11,5% menos do que na semana anterior.

O recuo no mercado de trigo foi ainda maior. No caso do trigo brando, os fundos diminuíram em 29% as apostas na alta da commodity, para um saldo líquido comprado de 27.090 contratos na semana até 22 de abril. Quanto ao trigo duro, a expectativa de valorização foi reduzida em quase 2%, para 35.515 contratos. O retorno das chuvas às Grandes Planícies americanas, região que vinha sofrendo com o tempo mais frio e seco, contribuiu para o movimento observado.

A influência do clima também foi decisiva para que diminuísse a crença dos fundos na alta do milho em Chicago. Conforme o CFTC, a posição líquida comprada do grão recuou 5,5%, para 236.635 contratos. Na semana encerrada em 22 de abril, houve uma janela favorável ao plantio do grão nos Estados Unidos, ainda que, pouco antes, as chuvas tenham voltado a atrapalhar os trabalhos no campo.

Na bolsa de Nova York, por outro lado, prevaleceu a expectativa de novas valorizações. O destaque ficou por conta do aumento no saldo líquido de compra do algodão, de 7,5% ante a semana anterior, para 57.248 contratos. A perspectiva é de oferta apertada da pluma no curto prazo, tendo em vista os estoques enxutos dos EUA, maior exportador mundial da commodity.

Já as apostas na elevação das cotações do açúcar demerara e do café arábica em Nova York cresceram 2%, para uma posição líquida comprada de 120.050 contratos e 38.863 contratos, respectivamente.

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Especulação climática guia commodities

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Por Fernando Lopes, Camila Souza Ramos, Mariana Caetano, Carine Ferreira e Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fortemente influenciadas por movimentos especulativos derivados de problemas ou incertezas provocadas pelo clima – o que tende a perdurar em maio -, sete entre oito commodities agrícolas de destaque no comércio exterior do país voltaram a encerrar abril com preços médios superiores aos de março nas bolsas de Chicago (soja, milho e trigo) e Nova York (café, cacau, suco de laranja e algodão).

Exceto pelo açúcar, que registrou leve recuo, foi o terceiro mês consecutivo de valorizações generalizadas desse grupo de produtos. Uma curva que fortalece o superávit da balança comercial do agronegócio brasileiro, apesar de o país ser um grande importador de trigo, mas amplifica as preocupações com a inflação dos alimentos, já que todos eles (inclusive o açúcar) continuam a apresentar médias maiores que as de dezembro de 2013 (ver infográfico).

Conforme cálculos do Valor Data com base nos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez), a soja puxou as altas em Chicago. O grão encerrou o mês com cotação média 4,76% maior que a de março. Apesar da tendência de ampliação da área plantada nos EUA na safra 2014/15, pesou para a valorização o nível historicamente baixo dos estoques americanos. Na semana passada, o pequeno atraso da semeadura naquele país ofereceu suporte – que ontem já sofreu forte erosão, em decorrência de previsões climáticas favoráveis.

Mais acentuado no caso do milho, o atraso da semeadura nos EUA se somou à previsão de queda da área plantada americana e determinou uma valorização de 4,10% na cotação média do cereal em Chicago na comparação entre abril e março. E, no caso do trigo, que já registrou perdas por conta da estiagem naquele país, houve alta em Chicago de 1,35%, o que manteve os preços no elevado patamar alcançado após o início da crise entre Ucrânia e Rússia, grandes exportadores do produto.

Se nesta época do ano já é normal a influência do "weather market" nos mercados de grãos, por causa do início do plantio no Hemisfério Norte, em Nova York, onde são transacionadas as "soft commodities", o peso do clima em abril foi maior que o normal. E isso por causa do El Niño, que deverá dar o ar da graça este ano, provocando o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico e alterando o regime de chuvas em diversas regiões do planeta, e, com isso, poderá prejudicar as já combalidas produções de açúcar e café no Brasil, de café no Vietnã, de açúcar na Índia e de cacau na África.

Nesse contexto, o café, extremamente volátil este ano, fechou abril com cotação média 5,08% acima de março, enquanto o cacau avançou 0,08%. O açúcar, que vinha em alta por conta da seca no Centro-Sul do Brasil, devolveu ganhos e registrou retração de 1,42%, mas poderá registrar repiques em caso de novas intempéries. O suco também subiu (5,10%), mas sob os reflexos da pequena safra de laranja da Flórida, e o algodão completou a lista altista (1,19%), puxado por boa demanda.

A especulação, contudo, poderá diminuir, já que os fundos que atuam nos mercados agrícolas reduziram nos últimos dias as apostas na valorização dos principais grãos negociados na bolsa de Chicago. Conforme a Comissão de Comércio de Futuros de Commodities (CFTC, na sigla em inglês), os gestores de recursos ("managed money") encerraram a semana de 22 de abril com uma posição líquida de compra de 165.151 contratos (entre futuros e opções) de soja, 11,5% menos do que na semana anterior.

O recuo no mercado de trigo foi ainda maior. No caso do trigo brando, os fundos diminuíram em 29% as apostas na alta da commodity, para um saldo líquido comprado de 27.090 contratos na semana até 22 de abril. Quanto ao trigo duro, a expectativa de valorização foi reduzida em quase 2%, para 35.515 contratos. O retorno das chuvas às Grandes Planícies americanas, região que vinha sofrendo com o tempo mais frio e seco, contribuiu para o movimento observado.

A influência do clima também foi decisiva para que diminuísse a crença dos fundos na alta do milho em Chicago. Conforme o CFTC, a posição líquida comprada do grão recuou 5,5%, para 236.635 contratos. Na semana encerrada em 22 de abril, houve uma janela favorável ao plantio do grão nos Estados Unidos, ainda que, pouco antes, as chuvas tenham voltado a atrapalhar os trabalhos no campo.

Na bolsa de Nova York, por outro lado, prevaleceu a expectativa de novas valorizações. O destaque ficou por conta do aumento no saldo líquido de compra do algodão, de 7,5% ante a semana anterior, para 57.248 contratos. A perspectiva é de oferta apertada da pluma no curto prazo, tendo em vista os estoques enxutos dos EUA, maior exportador mundial da commodity.

Já as apostas na elevação das cotações do açúcar demerara e do café arábica em Nova York cresceram 2%, para uma posição líquida comprada de 120.050 contratos e 38.863 contratos, respectivamente.

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Fonte: Valor | Por Fernando Lopes, Camila Souza Ramos, Mariana Caetano, Carine Ferreira e Fernanda Pressinott | De São Paulo

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