Especialistas revelam como será o boi do futuro

Fonte:  Globo Rural – CAPA / ESPECIAL

O pecuarista Antonio Maciel Neto conta como está preparando seu gado angus para cruzar com o nelore e profissionais do setor indicam as tendências do mercado de bovinos para os próximos anos

por Sebastião Nascimento | Fotos Ernesto de Souza

Ernesto de Souza

"Os Estados Unidos, em um futuro próximo, vão abrir o mercado para a carne brasileira e serão seguidos pelos países da Ásia"

Um dos mais prestigiados executivos do país é respeitado também como pecuarista pelas inovações introduzidas no aprimoramento de seu rebanho puro de gado angus. Ex-presidente da Ford e atual CEO da Suzano Papel e Celulose,Antonio Maciel Neto, 53 anos de idade, tem como meta produzir um rebanho meio-sangue angus com nelore no futuro. Apesar de sua vocação industrial, Maciel tem linhagem fechada no campo. Os avós, paternos e maternos, eram fazendeiros, e o pai, Antonio Maciel Filho, 85 anos, é agrônomo aposentado do Banco do Brasil, enquanto a irmã, Sônia, fez mestrado pela Escola Superior de Agronomia Luiz de Queiroz, em Piracicaba (SP). Maciel fica orgulhoso diante da lembrança da premiação por dois anos seguidos como melhor CEO da indústria de produtos florestais da América Latina. Porém, é quando apresenta o tourinho FSL Brio, um robusto puro-sangue negro de pouco mais de dois anos de idade e pesando uma tonelada, que os olhos de Maciel brilham. “Veja o comprimento e a profundidade dele. Sobra carne no posterior, onde estão os cortes nobres. É um dos melhores machos da fazenda”, explica, enquanto se agacha para visualizar a anatomia do bicho. “Brio, que tem uma sólida estrutura de pernas, vai ainda esparramar precocidade para suas crias e será um reprodutor de bastante futuro”, diz o pecuarista.

Ernesto de Souza

Gado em pastejo rotativo de tifton

No mês passado, durante os julgamentos da ExpoLondrina, que estão entre os mais espinhosos do país, Maciel estava particularmente feliz pela conquista do Grande Campeonato Fêmeas com a novilha FSL Ellys 770. É o título mais importante da mostra no norte paranaense.
Desafio é com ele. A Ford apresentava um prejuízo de US$ 600 milhões ao ano quando assumiu a presidência, em 1999. Em sua despedida, em 2005, já como CEO para a América do Sul, deixou a montadora lucrando US$ 1 bilhão. Para tirar a subsidiária brasileira do vermelho e “reinventar” a octogenária Suzano, Maciel se pautou em três premissas que aplica também na gestão da fazenda: estratégia, execução e qualificação dos trabalhadores.

Ernesto de Souza

A novilha Ellys, grande campeã da exposição em Londrina (PR)

A fazenda de Maciel é chamada FSL Angus e fica em Itu, a 100 quilômetros da capital paulista. Lá, uma área pequena de 300 hectares abriga um plantel fino de angus que varia de 500 a 700 cabeças, dependendo da época do ano. “Aqui, o espaço é pequeno e a terra é cara. Portanto, a fazenda tem de agregar valor, visto que os custos fixos são altos.” Segundo ele, a FSL faz transferência de embriões – técnica cara – e os gastos permanentes com trator, veterinário, comida e mão de obra, entre outros, a obrigam a produzir um animal de alta qualidade. “O mercado reconhece e paga melhor,” diz Maciel. “Já para reduzir despesas, o boi é criado a pasto (tifton) e plantamos milho irrigado e aveia para fazer silagem e complementar a alimentação.”
Mas está no aproveitamento da área o grande trunfo da FSL. A taxa de ocupação média por hectare é de seis animais. Para ter ideia, os Estados Unidos, cuja pecuária é altamente evoluída, conseguem colocar três bois por hectare, enquanto que, no Brasil, a média é muito baixa, menos de uma cabeça por hectare. Para atingir esse desempenho por unidade de área (UA), a boiada na FSL come capim à vontade e Maciel aperta na suplementação.
A estratégia para os próximos dez anos, adianta ele, é desenvolvida considerando-se um cenário de incremento da demanda pela carne bovina, graças a fatores estruturais como o crescimento populacional dos países emergentes, combinado com o aumento na renda e a crescente taxa de urbanização, principalmente na China. “O Brasil continuará sendo um dos maiores produtores mundiais de carne, suprindo com folga os mercados externo e interno”, afirma. O consumo interno continuará em expansão, puxado pelo grande número de brasileiros que foram incorporados à classe média.

Revista Globo Rural

Mas, ao mesmo tempo que o país se consolida como o principal exportador em volume, amarga um terceiro lugar no item preço. “Faltam maciez e sabor a nossa carne, além de a produtividade média ser baixa. A saída é fortalecer oscruzamentos industriais de zebuínos como o nelore com o gado europeu, caso do angus. Daí nasce um meio-sangue de gordura entremeada na carne, o que lhe dá mais sabor. Além disso, o país precisa manter a constância quanto ao abastecimento do mercado e mudar sua política cambial.”
O choque de sangue entre o nelore e o angus, experiência que Maciel intitula “casamento por interesse”, representa o futuro na opinião dele. “Não existe amor. Os F1 são preferidos pelos pecuaristas que aprimoram a fertilidade, aprecocidade sexual e de terminação, a musculosidade e o rápido ganho de peso, avanços que já turbinam a renda nas fazendas.”
Antonio Maciel espera outra mudança radical no comércio internacional de proteínas no período máximo de dez anos. “Os EUA abrirão suas portas para a carne brasileira. Eles, que apreciam uma carne macia e saborosa, não terão volume suficiente para suprir seu mercado. E, quando os americanos derem sinal verde para a carne tropical, outros países, como os da Ásia, os seguirão e a demanda vai triplicar”, diz.
Segundo Maciel, além da estratégia e execução, investir na qualificação do funcionário e lhe dar suporte para cumprir bem as funções são quesitos essenciais, seja no leme das empresas, seja no da atividade rural. A FSL tem como diretora administrativa sua esposa, Andréa, cuja origem também é o campo – a família tem fazenda em Descalvado, no interior paulista. No total, 25 funcionários, sob a batuta do veterinário Dan Ariel Szmaruck, com mais de 20 anos de experiência, preparam a boiada para leilão e exposições, conduzem o laboratório de genética, plantam milho e aveia para silagem e se encarregam da manutenção.
Maciel é um apaixonado por esportes (é fã e amigo de Bernardinho e admira John Wooden, lendário técnico de basquetebol americano). O pecuarista chegou a defender a seleção paranaense da modalidade. Os esportes disputados coletivamente, “exemplos de motivação e de superação”, servem de aprendizado para o dia a dia na indústria e no agronegócio. “Minha filosofia é: sozinho ninguém vence”, diz.
Ele acrescenta que, para cobrar metas, é necessário oferecer ferramentas de trabalho ao funcionário e investir em seu aprendizado, pagando bons salários e prêmios. Engenheiro mecânico de formação, ele também passou pela Petrobras e foi secretário do Ministério do Desenvolvimento no governo Collor. Atualmente, além de CEO da Suzano, é conselheiro do Frigorífico Marfrig, do Instituto Ayrton Senna e da ADM, multinacional do ramo agrícola. No mês passado, passou a fazer parte do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do Governo Federal.
A FSL prepara o gado para um dos mais concorridos leilões de angus do país, em Itu. Para esta edição, em 17 de setembro, a oferta será de 80 touros, 30 terneiras e novilhas prenhas. Enquanto isso, já tem bezerros desmamados nos piquetes para o remate de 2012. “Funciona igual a uma fábrica. Não se desperdiça tempo”, ressalta. No ano passado, o leilão engordou o caixa da FSL em R$ 1,2 milhão. Ele negocia também genética de reprodutores em centrais. Um deles, Oásis, grande campeão nacional da Feicorte, tem cinco anos e já produziu 13 mil filhos. Maciel possui ainda reprodutores em serviço nos EUA e no Canadá, além da Argentina, onde faz parceria com a Cabanha Três Marias, pertencente à família Gutierrez.
Maciel adianta que a FSL está saindo da fase de investimentos – a criação foi iniciada em 2001 – e próxima de empatar a peleja. Revela que sua ideia é explorar também um rebanho comercial meio-sangue angus com nelore e mandar os F1 para o frigorífico. “Vamos fechar o ciclo, agregando do nascimento à terminação possivelmente numa fazenda de Mato Grosso, onde os espaços são amplos.” Pelo visto, ele e Andréa afivelam vagarosamente as malas e se preparam para a dedicação total à pecuária.

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