Especialistas avaliam medidas para alavancar agronegócio no Estado

Medidas como foco na agroindústria podem alçar o setor a outro patamar que não o de fornecedor de matéria-prima

Especialistas avaliam medidas para alavancar agronegócio no Estado divulgação/divulgação

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Leandro Becker

leandro.becker@zerohora.com

Oportunidade de bons negócios com a alta do dólar e demanda internacional ainda em alta graças ao crescimento dos emergentes, as exportações seduzem tanto quanto desafiam o agronegócio. Em um segmento no qual preço atrativo deve combinar com alta qualidade, obter resultados no Exterior não se resume a processar a produção. É preciso investir em toda a cadeia.

O modelo dividiu opiniões no Campo em Debate, evento promovido por Zero Hora e pela Federasul no primeiro fim de semana da feira. No encontro, o professor do Centro de Ensino e Pesquisas em Agronegócio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Antônio Padula afirmou que ainda predomina a exportação de matéria- prima,sem elaboração.

No ano passado, o Rio Grande do Sul exportou US$ 13 bilhões,dos quais 82,3% vieram do agronegócio. Só que o peso do setor na balança não significa garantia de mercado. Economista da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz diz que a agricultura ainda é vista como fonte de matéria-prima, principalmente no Brasil:

– É preciso mudar essa concepção, pois, ao ser colhida, a soja, por exemplo, adiciona valor significativo de tecnologia, indústria metalmecânica, pesquisa e mão de obra — avaliou.

Luz cita dados do IBGE de 2010, pelos quais constata que, de cada R$ 1 que o agronegócio fatura, R$ 0,57 provem de processos produtivos mais complexos. Esse avanço, afirma Luz, deve-se à transformação da agricultura extrativista para a produtora, o que aumentou a integração entre agricultura, indústria e serviços, antes separados.

– Se a economia tivesse crescido na mesma proporção do Produto Interno Bruto agropecuário entre 1980 e 2012, o Brasil teria um PIB R$ 1,1 trilhão maior – explica Luz.

A importância de aumentar o valor dos produtos exportados não se resume aos grãos. Estudo da União Brasileira de Avicultura (Ubabef), divulgado nesta semana, aponta que o Brasil poderia ter obtido receitas de US$ 1,65 bilhão adicionais nos últimos quatro anos, não fosse a perda de competitividade das exportações da carne de frango.

– O setor de alimentos tem um caminho fantástico pela frente, mas temos de exportar produto com o máximo valor agregado para gerar empregos – destaca Francisco Turra, presidente da Ubabef.

Referência em biodiesel por ser a primeira do país a exportar, a BSBios defende a união de esforços para agregar valor, do campo à indústria.

– É preciso focar mais na agroindústria – destaca Erasmo Batistella, presidente da empresa.

Vela algumas medidas que já estão sendo adotadas no Estado:

Desafio muito além do feijão com arroz

Responsável por 90% das exportações de arroz no Brasil, o Rio Grande do Sul enfrenta um desafio: aproveitar a crescente oferta e a alta produtividade para expandir os mercados internacionais. Apresentado e debatido na Expointer,o projeto Brazilian Rice pretende incentivar a exportação por meio da capacitação de indústrias em áreas como gestão e logística, com foco em países da América Latina, da África e do Oriente Médio.

Hoje, metade das 26 empresas – 19 gaúchas, seis paulistas e uma catarinense – que fazem parte da iniciativa não exportam. Dentre as que realizam transações internacionais, uma em cada quatro depende de uma comercial exportadora.A ideia é mesclar autonomia e eficiência para vender melhor no Exterior.

– O Brasil é o sétimo maior exportador de arroz do mundo e o maior fora da Ásia. A meta é explorar essa potencialidade para conquistar novos mercados – destaca o gerente do projeto, André Anele.

Precisão e selo de origem como trunfo

Desde Não-Me-Toque, no norte do Estado, a Stara atende 35 países interessados em máquinas e equipamentos agrícolas de alta tecnologia. Um dos trunfos da empresa, aliado ao portfólio de produtos, é o selo de origem da capital nacional da agricultura de precisão. Entre os diferenciais para atrair investidores estrangeiros, o diretor comercial da empresa, Márcio Elias Fülber, destaca a possibilidade de manusear um banco de dados completo produzido no município por meio do projeto Aquarius, com foco na agricultura de precisão.

– Temos sete produtos exclusivos, construídos e lançados a partir dessas pesquisas, que nos permitem fazer análises e adaptações técnicas específicas – explica Fülber.

Um deles é o Imperador 3100, o primeiro pulverizador autopropelido do mundo com bases centrais. Hoje a empresa tem projetos de agricultura de precisão no Brasil, na Venezuela e na Rússia. Assim, consegue desenvolver tecnologias mais precisas e aumentar a possibilidade de exportar. Ao adicionar valor ao produto, explica Fülber, a empresa tenta aliar qualidade a preços compatíveis com a realidade desses mercados:

– No Exterior, os produtores querem algo diferenciado e, tendo eficiência e bom custo benefício, pagarão por isso — afirmou.

Inovação e sustentabilidade

Definida pelo presidente da Farsul, Carlos Sperotto, como exemplo de negócio internacional com valor agregado, a inédita exportação de biodiesel feita pela BSBios em julho foi fruto de quatro anos de trabalho.

– Focamos em atender às especificações europeias, garimpamos clientes, desenvolvemos parcerias e criamos uma estrutura com pessoas aptas a analisar o mercado e as oportunidades – explica o presidente da empresa, Erasmo Battistella.

Neste ano, a usina já acertou a destinação de 18 mil toneladas para Holanda e Espanha. Do total, 8 mil foram embarcadas em julho. O restante, em duas parcelas de 5 mil toneladas cada, será encaminhado em setembro e outubro. Para manter os mercados e conquistar novos, a indústria concentra forças em certificação, sustentabilidade e rastreabilidade.

– Há vários fatores decisivos, mas a qualidade pode fazer o preço se tornar secundário na hora de fechar o negócio – diz Battistella.

As práticas sustentáveis também se destacam. Um dos exemplos trazidos à Expointer são as máquinas da marca Valtra – do grupo Agco –, que utilizam motores capazes de funcionar com biodiesel puro. Produzida no Brasil, a tecnologia é exportada para a América Latina e conta com selo exclusivo.

Grife e maciez vêm de berço

Qualidade e maciez são as principais características percebidas pelos consumidores da carne das raças hereford e braford. Mas produzi-la não é mole.Pelo contrário,o tripé de investimento que fomenta a criação e estimula a exportação é sustentado por tecnologia, segurança e estratégia de mercado com foco em alianças. Prova disso é o acordo comercial assinado segunda-feira entre a Associação Brasileira de Hereford e Braford e o governo do Quênia. Firmada por meio do projeto setorial Brazilian Hereford & Braford – lançado em 2009 na própria feira e que reúne cerca de 40 empresas –, a iniciativa oferece genética, produtos, intercâmbio e serviços agropecuários para países de África, América Latina e Europa.

Um ano após ser implantado, o projeto faturou US$ 148,6 milhões.Mas o sucesso não passa apenas pelas relações institucionais.Também vem do campo,graças à disciplina de criadores como Celso Jaloto,61 anos,de São Gabriel. Na cabanha Luz de São João, que atravessa gerações desde os anos 1930, Jaloto tem 1,3 mil bovinos, dos quais 70% são braford e o restante hereford. Todos tratados para garantir um produto capaz de ser certificado como top de linha.

– A associação não vende, mas faz alianças estratégicas que permitem transferir tecnologia e oferecer projeção internacional – destaca Jaloto.

Fonte: Zero Hora

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