Escassez de gás ameaça investimentos na região Sul

Danisio Silva/Valor / Danisio Silva/Valor
Cosme Polese, presidente da SCGás: diversas reuniões com a Petrobras para garantir, a partir de 2014, aumento da oferta com gás natural produzido no Brasil

A capacidade atual de suprimento de gás natural nos três Estados do Sul está prestes a atingir seu limite e o descasamento entre o consumo e a oferta disponível em futuro próximo – 2014 ou 2015, dependendo do Estado – acendeu o alerta entre os empresários da região. Indústrias já colocam o suprimento de gás como um elemento decisivo no momento de escolher o local para a expansão das suas atividades.

Para não perder investimentos, os governos estaduais estão pressionando o governo federal e buscando alternativas, como a instalação de plantas de regaseificação de gás liquefeito de petróleo (GLP). Hoje, os governadores dos três Estados – Tarso Genro (PT), do Rio Grande do Sul, Raimundo Colombo (PSD), de Santa Catarina, e Beto Richa (PSDB), do Paraná, devem se reunir em Curitiba para discutir formas de garantir o suprimento de energia.

As distribuidoras de gás dizem que a oferta disponível pode atender ao crescimento da demanda, mas reconhecem que ela dificulta a incorporação de novos clientes intensivos à rede consumidora.

"A capacidade de suprimento hoje já está muito próxima ao limite. A folga é pequena e, somente pelo crescimento vegetativo [crescimento do consumo apenas dos atuais consumidores, desconsiderando novas ligações], já se atingiria o limite em 2014", diz o presidente da Câmara de Energia e Gás da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), Otmar Müller.

Nos dados de consumo informados pela distribuidora de gás de Santa Catarina (SCGás), é possível verificar o alerta de Müller: o volume médio de consumo está hoje em 1,83 milhão de metros cúbicos/dia (m3 /dia) e o suprimento garantido pela Bolívia – única fonte da rede que atende aos três Estados do Sul – é de até 2 milhões de metros cúbicos/dia para Santa Catarina.

Müller, que também preside o Sindicato da Indústria Cerâmica de Criciúma (Sindiceram) e é diretor industrial da empresa Eliane, diz que, nos atuais níveis de consumo do Estado, já não seria possível o ligamento à rede de uma empresa de grande porte do setor cerâmico. Segundo ele, uma empresa como a Eliane ou a Portobello, por exemplo, consome por dia 200 mil m3 de gás natural no processo produtivo, o que significa praticamente o dobro da "folga" atualmente existente no sistema.

O presidente da SCGás, Cosme Polese, é menos alarmista. Apesar de reconhecer os limites do sistema em 2014, ele diz que tem feito diversas reuniões com a Petrobras para garantir um aumento da oferta com gás natural produzido no próprio país a partir daquele ano. Mas, por enquanto, não está contratado um volume adequado com a expectativa de demanda.

A demanda média em 2014, na estimativa da própria SCGás, poderá chegar a 2,1 milhões de metros cúbicos por dia e, por isso, a empresa precisará de mais volume, portanto, que o disponível na rede. "Não está contratado [o aumento de volume], mas há negociações adiantadas. Estamos negociando entre 2,2 milhões e 2,3 milhões de metros cúbicos para ter segurança", observa Polese.

Segundo Polese, para dois novos investimentos previstos para ocorrer no Estado nos próximos meses – como o início de uma nova fábrica da General Motors uma possível unidade da BMW (a localização desse investimento ainda está em fase de definição pela empresa) – haveria disponibilidade de gás. Mas para um volume maior de investimentos industriais já seria uma situação "preocupante".

Engajado no movimento para pressionar o governo federal pelo aumento da oferta de gás natural na região Sul, o Rio Grande do Sul prevê que, no fim de 2015, a demanda local já irá superar a capacidade do Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), que pode transportar até 2,8 milhões de m3 /dia para o Estado. A estimativa é da Sulgás, estatal responsável pela distribuição do combustível controlada pelo governo gaúcho com participação da Petrobras.

"Obras para o reforço do Gasbol ou para a construção de um terminal de regaseificação de gás natural liquefeito (GNL) são complexas e levam três ou quatro anos", explica o presidente da Sulgás, Roberto Tejadas. "Por isso, uma decisão terá que ser tomada no máximo até o início de 2013", diz. Segundo ele, hoje a estatal já teria "dificuldades" para suprir novos consumidores de uso intensivo, como plantas petroquímicas, que demandam até 500 mil metros cúbicos por dia de gás natural.

Em 2011 a Sulgás distribuiu, em média, 1,78 milhão de metros cúbicos diários, mas nos meses de inverno a demanda chega a 2 milhões de metros cúbicos por dia. Dois terços do volume são absorvidos pela indústria. Conforme Tejadas, as vendas vêm crescendo em média 8% ao ano e, até 2015, a Sulgás também planeja ampliar a rede de distribuição no Estado dos atuais 558 quilômetros para 1.020 quilômetros, o que permitirá a conexão de novos clientes ao sistema.

Segundo Luciano Pizzatto, presidente da Compagas, distribuidora do Paraná, serão necessários investimentos de cerca de R$ 5 bilhões nos próximos dez anos – por parte de União, governos estaduais e iniciativa privada – para garantir o atendimento da demanda nos três Estados.

Entre as alternativas, Pizzatto cita a construção de dois portos de GNL (liquefeito), no Paraná e no Rio Grande do Sul. Com eles, o gás pode ser adquirido onde tiver oferta, no Brasil ou no exterior, e ser transportado de navio. Também há a sugestão de construção de novos dutos para o Gasbol, de São Paulo até o Rio Grande do Sul, o que equivale a uma duplicação. Também para aliviar o Gasbol, poderia ser construído um gasoduto de Penápolis (SP) a Londrina (PR). Uma solução não descarta a outra, diz ele.

Pizzato aponta ainda soluções regionais, como um gasoduto para atender fabricantes de papel no Paraná, entre elas a Klabin, que planeja ampliação. Ele contou que, em 2011, a estatal de gás paranaense investiu R$ 20 milhões em dutos de distribuição e, em 2012, estão aprovados R$ 65 milhões para o mesmo fim. Para os próximos sete anos, estão previstos R$ 800 milhões, que podem saltar para R$ 1,5 bilhão, se forem construídos 111 quilômetros de dutos até o porto de Paranaguá e a integração com as papeleiras e com o norte do Estado. "Essas soluções podem garantir o abastecimento pelos próximos 20 anos", prevê o executivo.

Hoje, a região Sul conta com 10 milhões de metros cúbicos por dia de gás, mas 2,3 milhões são destinados a uma térmica e 2,5 milhões para refinaria da Petrobras no Paraná. Fora isso, a região consome 4,8 milhões de m3 / dia e o segmento industrial é responsável por 72% desse total. A demanda adicional futura está estimada em 20 a 30 milhões de m3 /dia. Segundo Pizzatto, os problemas maiores são para os Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, já que o duto atual é "telescópico", ou seja, vai "afinando" conforme avança.

A Compagas, que tem contratos que somam 1,1 milhão de m3 diários, já garantiu um adicional para a Vale Fertilizantes, mais 300 mil m3 para novos investimentos e acredita que dá para acrescentar mais 450 mil m3. Apesar disso, ainda será necessário encontrar alternativa para conquistar também um novo contrato da Vale Fertilizantes para 2016 (que pode chegar a 1,1 milhão de m3 /dia).

A SCGás, de Santa Catarina, vinha fazendo nos últimos meses ampliações da rede de distribuição, mas pisou no freio nos investimentos previstos para este ano, que recuaram para R$ 24 milhões -só no aumento da rede, do litoral para a serra, estavam previstos R$ 40 milhões em 2012. Polese diz que, no momento, há um contingenciamento "temporário", enquanto não há aumento da tarifa.

A tarifa do gás catarinense sofreu um congelamento no início do ano, quando as empresas reclamaram do reajuste do gás pela distribuidora e o governo do Estado (acionista majoritário na SCGás) vetou o aumento. Desde então, a SCGás tem tentado reverter a situação. Fontes próximas dizem que a redução nos investimentos previstos neste ano ocorre, no entanto, por outra razão: não há ainda a garantia de aumento na oferta do gás no longo prazo para que se expanda a rede e se busque novos consumidores.

Há um ano, os limites do sistema ficaram bem claros não só para as distribuidoras do Sul, mas também por parte das empresas consumidoras, que têm cobrado uma solução em reuniões periódicas em que discutem os problemas da região.

Um estudo foi contratado pela Associação Brasileira das Empresas Distribuidoras de Gás (Abegás) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para apresentação de soluções. A Abegás foi procurada, mas não se pronunciou.

Fonte: Valor |  Por Vanessa Jurgenfeld, Marli Lima e Sergio Ruck Bueno | De Florianópolis, Curitiba e Porto Alegre

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