Enquanto o custo de importação de alimentos aumenta, a Jamaica se vale da terra

País caribenho adotou a estratégia de tornar a agricultura patriótica e onipresente

Enquanto o custo de importação de alimentos aumenta, a Jamaica se vale da terra Andrea Bruce/NYTNS

Foto: Andrea Bruce / NYTNS

Damien Cave


O cheiro de óleo de coco e de temperos ardentes de carne seca invade as cozinhas dessa ilha verde, mas na medida em que as importações de alimento desse país tornaram-se uma ameaça de bilhões de dólares às finanças e à saúde, a Jamaica adotou uma nova estratégia ousada: tornar a agricultura patriótica e onipresente, nos quintais das casas, hospitais, escolas e mesmo das prisões.
Em todo o Caribe, as importações de alimentos tornaram-se um problema de quebra de orçamento, forçando uma das regiões mais férteis do mundo a retomar o seu passado agrícola. No entanto, em vez de se valer das grandes empresas agrícolas, as autoridades estão recrutando todos que eles conseguem a fim de combater o custo dos importados, que praticamente dobrou o preço na última década.
Na Jamaica, no Haiti, nas Bahamas e em todos os lugares, a produção local da fazenda para a mesa não é um papo de venda do restaurante; é um lema do governo.
— Estamos em uma crise alimentar — disse Hilson Baptiste, o ministro da agricultura de Antígua e Barbuda. — Cada país está preocupado com isso. Como produzir o nosso próprio alimento? Como podemos nos alimentar?
Em uma região onde a agricultura ainda é geralmente vista como uma lembrança da lavoura e da escravidão, o desafio é profundo, entretanto, em encontros regionais há anos, as autoridades caribenhas têm enfatizado que "a segurança alimentar", basicamente a disponibilidade e o acesso, é a prioridade principal.
Muitos países atualmente estão reagindo, rotulando de ameaça os alimentos estrangeiros como carnes e lanches de alta caloria, e os alimentos cultivados localmente como responsáveis e inteligentes.
A Jamaica começou antes da maioria. Há uma década, o governo revelou uma campanha nacional de segurança alimentar com o slogan "plante o que comemos, coma o que plantamos". As mercearias agora identificam os produtos locais com grandes adesivos e também os colocando em lugar de destaque.
Os membros de partidos políticos rivais também se uniram, em grande parte, em apoio à crescente agricultura por meios experimentais; a Jamaica é agora um dos vários países que distribuíram kits de sementes para incentivar a agricultura caseira.
As escolas estão profundamente envolvidas no esforço: 400 escolas na Jamaica agora têm hortas mantidas por alunos e professores. Em Antígua e Barbuda, os alunos agora são enviados regularmente às missões de plantio, acrescentando às ilhas milhares de abacateiros, laranjeiras, mangueiras e pés de fruta-pão, mas as hortas e a culinária são parte do cotidiano das escolas jamaicanas.
Professoras como Jacqueline Lewis, a diretora em exercício de uma pequena escola no leste de Kingston, com uma plantação próspera, estão na linha de frente do que é considerada uma batalha. É assim que Lewis, de 53 anos, trata o alimento e o cultivo: como questões de segurança nacional e local.
Uma disciplinadora de sorriso forçado que é rápida para tirar um pirulito da boca de alunos da segunda série, ou para gritar "Por que você está atrasado?" com os alunos enrolados, ela estudou alimentação e agricultura após a infância pobre e, quando pequena, caminhava descalça com a barriga roncando até a escola onde ela atualmente leciona. Em 1998, plantou o seu primeiro pomar em uma faixa escarpada de terra na frente da escola.
Ele permaneceu pequeno, em grande parte, com pimentas e repolhos, até alguns anos atrás quando uma agência europeia de desenvolvimento ajudou a pagar por um galinheiro e uma expansão. Agora, o jardim inclui um segundo terreno maior. O governo ainda tem de lhe dar incentivos (o ministro da agricultura disse que as escolas rurais estão em primeiro lugar na prioridade), mas as autoridades frequentemente louvam o trabalho dela, assim como os alunos.
Em uma manhã recentemente, uma dúzia de meninos vaguearam em sua direção uma hora antes das aulas. Seguindo instruções rápidas, um grupo deu água para as galinhas. Outro grupo, ao lado de Lewis, cautelosamente entrou no jardim para regar as pimentas Scotch bonnet, e verificar se a taioba – tipo de espinafre, porém um pouco mais terrena – estava pronta para a colheita.
Quando Lewis agarrou um facão para mostrar a um garoto tímido de 14 anos como soltar um pé de cenoura, todos os garotos observaram. Quando ele puxou um punhado denso, com cenouras tão brilhantes quanto o refrigerante laranja açucarado, todos vibraram. "Não encontramos cenouras como essas na cidade", Lewis disse.
Ela mais tarde observou que muitas das crianças vieram de históricos conturbados e tinham dificuldades nas aulas. A agricultura, afirmou, lhes deu uma razão para vir: a frequência e os resultados subiram desde que a Escola, Alojamento Rennock para Todas as Idades, começou a oferecer café da manhã para os alunos, geralmente ensopados feitos com ingredientes que eles mesmos produziram.
— Não conseguimos pensar quando estamos com fome — Lewis declarou.
A Jamaica sempre produziu – açúcar e bananas, em sua grande maioria – e as importações foram parte da mistura desde pelo menos a era colonial porque os grãos são difíceis de produzir na região. Entretanto, a balança pendeu mais significantemente na direção de alimentos importados nos anos 90. De 1991 a 2001, as importações totais de alimentos e bebidas na Jamaica aumentaram duas vezes e meia, para 503 milhões de dólares antes de dobrarem depois disso.
A maior parte do crescimento inicial coincidiu com os excedentes de produtos agrícolas em todo o mundo e com a mudança de gostos, na medida em que mais jamaicanos preferiam carnes e alimentos processados. Muitos dos 200 mil agricultores do país cortaram a produção nos anos 90 e no começo de 2000 porque acharam a concorrência difícil.
Depois veio a escassez de alimentos de 2008. As tempestades no Caribe e as secas em outros países elevaram os preços dos alimentos para novos patamares. A Jamaica constatou que os países exportadores estavam segurando o alimento para as suas próprias populações.
Com preocupações de que a mudança climática tornará os anos ruins ainda piores, uma concentração regional intensificada na "segurança alimentar" surgiu. Os resultados variam.
Baptiste disse que Antígua e Barbuda estavam a caminho de produzir metade de seus alimentos este ano, vindo de apenas 20 por cento em 2009, mas a maioria do Caribe tem experimentado uma melhoria menos surpreendente. O progresso da Jamaica, mesmo após tantos anos, é sutil.
A sua conta de importação tem permanecido estável em aproximadamente um bilhão de dólares por ano e embora tenha havido crescimento em algumas produções – 79 por cento do consumo de batatas do país agora vêm de fontes jamaicanas – ainda existem desafios de predileção. "Importamos muitas batatas fritas", disse Roger Clarke, o ministro da agricultura do país.
A transformação que as autoridades caribenhas buscam enfrenta outros obstáculos também. Clarke afirmou que muitos jamaicanos que receberam sementes de graça desistiram de cultivar uma vez que viram um aumento na conta de água, ou quando ladrões saquearam os campos e roubaram as galinhas.
Mesmo assim, as autoridades de toda a região afirmam que mais jovens estão se envolvendo, em parte porque os preços dos alimentos subiram consideravelmente, mas também porque os governos prometeram que a agricultura significa trabalho estável, e não apenas nos campos.
Nas Bahamas estão construindo uma universidade brilhante de ciência alimentar para enfatizar as melhores práticas agrícolas.
O Haiti, que enfrentou protestos por comida em 2008, recentemente deu início a uma série de silos para uma "reserva estratégica de alimentos", enquanto a Jamaica está considerando investimentos na criação de empresas de suco e de preservação de alimentos.
— Temos mãos ociosas e terras aráveis — Clarke disse. — Estamos tentando ver como juntar as duas coisas.

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Fonte: Zero Hora

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