Energia extra para usinas de biodiesel

Novo aumento no percentual adicionado ao diesel, a partir deste mês, ajudará a diminuir a capacidade ociosa das usinas, hoje superior a 50%

por Caio Cigana

04/11/2014 | 05h02

Energia extra para usinas de biodiesel Diogo Zanatta/Especial

Indústria localizada em Camargo, no norte gaúcho, tem capacidade para 108 milhões de litros por anoFoto: Diogo Zanatta / Especial

Prestes a completar uma década, o balanço do Programa Nacional de Uso e Produção de Biodiesel mostra o Rio Grande do Sul como Estado mais beneficiado pela iniciativa lançada em dezembro de 2004. Desde que o combustível renovável passou a ser produzido, as unidades gaúchas responderam por 28% dos 16,1 bilhões de litros que saíram das usinas do país, revela o levantamento da Associação Brasileira das Indústrias de Óleo Vegetal (Abiove).

Os dados incluem o intervalo de 2006 a agosto deste ano, período em que há preços de comercialização divulgados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). O volume, de acordo com cálculos da Abiove, gerou uma receita de R$ 41 bilhões às indústrias brasileiras. Somente no Estado, o valor injetado seria de pelo menos R$ 10 bilhões.

A aproximação do aniversário do programa, considerado bem-sucedido apesar de ter deixado pelo caminho alguns princípios que nortearam sua criação, também coincide com uma nova fase. No início do mês, começou a valer a mistura de 7% de biodiesel no diesel de origem fóssil usado em veículos como ônibus e caminhões. O chamado B7 substitui o B6, válido desde julho deste ano, que por sua vez entrou no lugar do B5, em vigor desde 2010.

A maior adição de biodiesel ao diesel ajudará a diminuir a capacidade ociosa das usinas brasileiras, aumentando a produção e auxiliando no equilíbrio da equação financeira do negócio. O longo período com o percentual de mistura estagnado cobrou seu preço, admite o assessor econômico da Abiove, Leonardo Zilio, também responsável pela área de biodiesel da entidade.

— O setor passou por um período crítico nos últimos dois anos, com fechamento de algumas usinas. A utilização da capacidade instalada era em torno de 40% com o B5 e passa a ser de 55% com o B7 — avalia Zilio, que mesmo assim enxerga mais acertos do que erros na primeira década do biodiesel brasileiro. Com a maior adição, o volume de biodisel produzido no país deve passar de 3,45 bilhões de litros neste ano para 4,2 bilhões em 2015.

Mistura obrigatória teve início com 2%, em 2008

Entre os pilares imaginados para o programa, naufragaram as premissas de que poderia ser baseado em opções alternativas à soja, como mamona e palma, e ser instrumento de desenvolvimento regional, especialmente do Nordeste. Alcançou, no entanto, o objetivo de estimular a geração de energia mais limpa, com reflexos ambientais positivos e benefícios para quem compra o insumo da agricultura familiar.

— O programa deu certo porque havia matéria-prima (soja). Se ficássemos na dependência da mamona, não haveria plano. O óleo de mamona é mais caro (em comparação ao de soja) e não tem escala — diz o presidente da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Odacir Klein.

Com isso, a indústria se voltou para o Sul e para o Centro-Oeste, onde a cadeia produtiva da soja já estava pronta. A mistura obrigatória de 2% nos combustíveis fósseis começou em 2008 e, no mesmo ano, passou para 3%. O percentual subiu para 4% em 2009. Com a consolidação da indústria e do uso do biodiesel na matriz energética, o patamar de 5%, programado para começar a valer apenas ano passado, foi antecipado para 2010.

Combustível a partir de gordura animal e da soja

Uma das caçulas na produção de biodiesel no Rio Grande do Sul, a Biofuga tem origem que destoa da maior parte das companhias do setor, nascidas a partir de negócios existentes na área de soja. Ligada à indústria de couros, a empresa viu no combustível renovável a chance de entrar em nova atividade a partir de uma matéria-prima que tinha em abundância em casa, o sebo bovino. Enquanto no país 75% do biodiesel é produzido a partir de óleo de soja e somente 20% vem da gordura animal, na Biofuga a relação é meio a meio.

Criado em 1947, em Marau, no norte do Estado, o Grupo Fuga Couros começou como curtume. No final da década de 1980, entrou nos negócio de graxarias, adquirindo o que não era aproveitado pelos frigoríficos. Além do couro, comprava dos abatedouros ossos e vísceras usados na produção de farinha de carne e sebo bovino. O passo seguinte foi investir em frigoríficos. Hoje, são três unidades no Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e São Paulo, onde além do sebo — e da carne — obtém o couro, depois vendido beneficiado ou já acabado para indústria de calçados e de artefatos de moda.

Defasagem entre oferta e demanda

Com 108 milhões de litros de capacidade anual, a usina fica no município de Camargo, perto de Marau. Depois de um investimento de R$ 30 milhões, começou a produzir no ano passado. Até agora, foram colocados no mercado 55 milhões de litros. Embora entusiasmado com o potencial do negócio, o diretor comercial do Grupo Fuga, Luis Eduardo Fuga, pondera que o governo federal deve sinalizar que espaço será aberto ao biodiesel nos próximos anos para o setor se organizar. Hoje, avalia o empresário, há muita oferta para um mercado ainda restrito.

— Há defasagem entre oferta e demanda. É preciso equalizar essa situação — aponta Luis Eduardo.

Fonte: Zero Hora

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