Empresas estrangeiras investem no plantio de mogno africano no Brasil

Nilani Goettems/Valor

Rodrigo Ciriello, sócio da Futuro Florestal, recomenda cautela nessa fase ainda inicial de plantio da árvore no país

O mogno africano entrou no radar de negócios de empresas estrangeiras que querem investir no setor florestal no Brasil. Dois grupos de fora estão em tratativas para iniciar o plantio comercial com a árvore, que ganhou a alcunha de "ouro branco" graças à promessa de renda no longo prazo.

Em negociações bastante avançadas, o Greenwood Resources, controlado pelo fundo americano TIAA-CREF, está em vias de garantir sua liderança na produção de mogno africano no Brasil. Voltada a investimentos em ativos florestais, a companhia prevê a semeadura de 10 mil hectares com mogno africano na região de Unaí, em Minas Gerais. O Greenwood fez parceria com um produtor da região, dono de 15 mil hectares, e vai trabalhar no modelo de fomento – isto é, a companhia financia a produção sem deter a propriedade. A legislação proíbe a aquisição de terras por estrangeiros no país.

O Greenwood definiu como cronograma o plantio de mil árvores por ano, ao investimento médio de R$ 35 mil por hectare no ciclo total de 20 anos da planta. Procurada pelo Valor, a companhia preferiu não se manifestar sobre o assunto.

Outra múlti que estuda uma joint venture com uma empresa brasileira de plantio de árvores comerciais nativas e exóticas é a African Mahogany Australia – atualmente, a maior produtora de mogno africano do mundo, com 14 mil hectares no norte da Austrália. As conversas, porém, ainda estão em estágio inicial, conforme uma pessoa familiarizada com o negócio.

Em seu website, a TIAA-CREF afirma que os investimentos em ativos florestais são uma forma de diversificar o portfólio, além de uma forte proteção contra a inflação se comparado a outras equities ou investimentos em renda fixa. O fundo americano tem cerca de US$ 1,8 bilhão investidos em florestas, com uma área de 340 mil hectares nas Américas do Norte, Central e Latina e também na Ásia.

No Brasil, a Greenwood se posicionou no mercado florestal com a aquisição da BrasilWoods Reflorestadora, dona de 11 fazendas de eucalipto em Mato Grosso do Sul e fornecedora da madeira à Fibria.

Pequeno para os padrões de florestas plantadas – a estimativa, longe de ser precisa, é de 28 mil hectares plantados contra quase 8 milhões de hectares de área de eucalipto -, o aporte em mogno africano pelo Greenwood é o mais chamativo de uma série de projetos com a madeira que pipocam no país. Em geral, iniciativas de profissionais liberais afeitos a riscos baixos ou moderados e com folga financeira para esperar o longo ciclo de 20 anos até o primeiro corte. A espera, dizem, pode valer a pena: o metro cúbico serrado e seco do mogno africano para exportação era negociado a € 1 mil (FOB) no porto de Gana no dia 15 de abril, conforme relatório do ITTO.

"É um negócio que tem chamado a atenção", diz Patrícia Alves Fonseca, diretora-executiva da Associação Brasileira dos Produtores de Mogno Africano (ABPMA), em Belo Horizonte. Como a do médico psiquiatra e escritor best-seller Augusto Cury, que tem 600 hectares plantados em Prata (MG) e Ricardo Tavares, ex-sócio da 3Corações, com fazendas no norte de Minas.

Plantio recente no país – as primeiras sementes chegaram da África nos anos 1970 -, o mogno africano se caracteriza pela alta resistência e a coloração avermelhada. É bastante apreciado para a produção de móveis no exterior, sobretudo nos EUA, maior mercado consumidor desse tipo de madeira. E, diferentemente do mogno nativo, alvo de exploração predatória no passado, o corte de espécies africanas é permitido por lei.

As apostas dos produtores brasileiros se resumem a duas variedades: a senegalensis e a ivorensis. Os plantios, até então mais concentrados em Minas, estão subindo para o Centro-Oeste e áreas do Norte do país. Esse movimento migratório fez a ABPMA decidir abrir, em breve, um novo escritório regional em Goiás para mapear os investimentos e organizar o setor.

A Mahogany Roraima é uma dessas empresas que viu no Estado brasileiro potencial para escalabilidade rápida desse mogno. Na Amazônia, a vantagem competitiva é prescindir de irrigação, diz Urano de Carvalho, pesquisador da Embrapa Amazônia Oriental.

Fundada por Marcello Guimarães, empresário do setor de TI, a empresa atua na região de Boa Vista e completará este ano 1.200 hectares semeados. O executivo está em busca de investidores que permitam torná-lo o produtor individual de mogno africano no país, com 24 mil hectares em dez anos. As árvores seriam consorciadas com outras espécies, como cacau, açaí e banana. "O regime de chuvas é ideal e a terra é a mais barata do Brasil", diz o executivo sobre o porquê ter escolhido Roraima. Isto feito, sua expectativa de receita média anual atinge R$ 326 milhões.

Outro motivo que deixa os investidores empolgados é o fato de o mogno africano estar sendo cultivado em habitat estranho. Isso o livrou de seu maior predator natural, a mariposa Hypsipyla robusta, facilitando o manejo da floresta e reduzindo o custo de produção.

Rodrigo Ciriello, sócio da Futuro Florestal, empresa de reflorestamento e de venda de mudas de árvores nativas e exóticas, em São Paulo, diz que ainda assim é preciso cautela. As poucas árvores que já foram cortadas (aquelas ainda dos anos 1970) ficaram no mercado interno. "Não temos dados de colheita para saber o rendimento real, nem quanto isso irá gerar em exportação. Ainda é um começo".

"A primeira grande leva de corte de mogno africano no Brasil será a partir de 2030", diz Mauri Abud, que iniciou seu plantio no Tocantins. Serão 1.200 hectares. "Vai ficar para as noras brigarem", brinca.

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *