EMPRESAS E NEGÓCIOS – Sebrae prepara projeto de incentivo a bionegócios na Amazônia

Intenção é ter a iniciativa em operação já em janeiro de 2020 para atrair empreendedores e investidores para a região

Da esquerda para a direita, Maqueson Silva (Marchetaria do Acre), Maria José Luz (Ekilibre Amazônia), Danniel Pereira (Biozer) e o gerente de inovação do Sebrae Nacional, Paulo Renato Macedo Cabral, durante evento, em São Paulo (Foto: Editora Globo)

O Sebrae está desenvolvendo um projeto de incentivo aos chamados bionegócios na Amazônia. A ideia é atrair empreendedores das demais regiões do Brasil e de outros países para investir em negócios que tenham como princípio a geração de renda para as comunidades que vivem na região e a preservação da Floresta Amazônica.

O gerente da Unidade de Inovação do Sebrae Nacional, Paulo Renato Macedo Cabral, apresentou o projeto durante a Conferência Ethos 360º, realizada pelo Instituto Ethos, em São Paulo (SP). Explicou que a iniciativa é articulada em conjunto com as divisões do Sebrae nos Estados que compõem o bioma amazônico.

Na visão da entidade, uma das principais razões para fortalecer os chamados bionegócios é destacar a importância da preservação ambiental para a geração de empregos e renda. Esse tipo de empreendimento também proporciona a criação de novos modelos de negócios, combate a exploração descontrolada de recursos florestais, promove o ecossistema e regional e o desenvolvimento econômico. Cabral explicou ainda que a intenção do projeto é aliar o empreendedorismo de quem vem de fora ao conhecimento tradicional da Amazônia, gerando riqueza para a região. “Queremos multiplicar esses produtos que são da biodiversidade, formar mais empreendedores para ter um grande ecossistema de bionegócios. É uma das regiões mais ricas do país, se não for do planeta”, disse ele.

Segundo o executivo do Sebrae, o projeto vem sendo discutido com instituições privadas e com o governo, especialmente os Ministérios da Economia e do Meio Ambiente. Ainda não há um orçamento definido para a execução da iniciativa. Está sendo avaliada a ideia de se desenvolver um mecanismo de cotas de participação.

As fases

O projeto é dividido em seis etapas, de acordo com o Sebrae. A divulgação para os empreendedores é a primeira e deve ser feita através de uma plataforma em várias línguas na internet. A fase seguinte é a inscrição dos interessados, nas unidades estaduais da instituição. Depois serão feitas a avaliação das propostas, a capacitação e aceleração das empresas, o compartilhamento dos resultados e a consolidação dos negócios.

“Queremos em janeiro fazer o programa estar operacional. Nossa meta é receber pelo menos duas mil inscrições do mundo todo. E levar pelo menos 150 novos times de empreendedores para a Amazônia”, afirmou Cabral.

Ele explicou que o apoio aos bionegócios pode ser feito de duas formas. Uma é suporte financeiro, com investimentos diretos. Outra é suporte técnico, com consultorias para certificação ou auxílio para acesso a mercados, por exemplo. A depender dos resultados na região amazônica, iniciativas semelhantes pode ser feitas em outros biomas.

Desafios da bioeconomia

O projeto do Sebrae foi apresentado durante painel que discutia a importância da bioeconomia para a preservação da Amazônia, com participação de empresários da região. Era consenso de que a floresta em pé e a biodiversidade que ela oferece podem ser usadas de forma sustentável, gerando renda também para as comunidades locais.

Mas há desafios a serem superados. Entre os mencionados, estão logística, burocracia de certificação de produtos, estabelecimento de sistemas eficientes de rastreabilidade e a presença de intermediários na cadeia produtiva, muito baseada no extrativismo.

Danniel Pinheiro, da indústria de cosméticos e fitoterápicos Biozer, empresa fundada por seu pai, disse que faz parte da política comercial evitar os atravessadores. Segundo ele, a matéria-prima representa cerca de 45% do custo. A opção é comprar direto de cooperativas.

“Tirar o atravessador do meio do caminho, colocar valor agregado ao produto, ter plataformas de venda direta. São essas as alternativas em que estamos trabalhando para otimizar o processo de fornecimento da matéria-prima”, disse ele.

Outro desafio, segundo ele, é aproximar mais a pesquisa e o mercado, para mais produtos criados nos laboratórios das instituições de pesquisa chegarem aos consumidores. Ele deu o exemplo da sua própria empresa, sediada em Manaus, capital do Amazonas, que está há 12 anos no mercado, mas passou oito na fase de pesquisa e desenvolvimento.

“Transformar em negócio não foi muito simples porque tem a visão do pesquisador, que entende que o produto está pronto para ir ao mercado e a do empreendedor, que vê a coisa como um negócio. Falta uma aproximação maior da academia com o setor privado para as pesquisas sejam direcionadas ao produto final”, explicou.

Sócia da Ekilibre, outra empresa de cosméticos naturais, com sede em Alter do Chão, distrito de Santarém (PA), Maria José Luz destacou a necessidade de conscientização também dos empresários locais sobre valor dos produtos da Amazônia. Uma alternativa tem sido fazer campanhas, por exemplo, em salões de cabeleireiro.

Ela destacou ainda o custo de certificação de produtos, alto especialmente para uma micro ou pequena empresa. E informou que também tem privilegiado as compras diretas dos fornecedores, exceção feita a períodos específicos de baixa disponibilidade.

“A logística e a rastreabilidade são complexas e o custo é alto para certificar como orgânico. Mas estamos superando essas questões”, comentou. “Temos mapeados os locais que nos abastecem e compramos deles, a não ser em caso de algum produto de época. Uma dificuldade para o pequeno empreendedor é essa”, acrescentou.

Fabricante de peças utilitárias e arte baseada em marchetaria, Maqueson da Silva, CEO da Marchetaria do Acre, vende produtos no Brasil e no exterior. Todo o trabalho de arte com a madeira é manual e artesanal. Nascido na floresta amazônica e ex-seringueiro, ele contou que, de início, teve problemas com as remessas de produtos, o que solucionou com parcerias. E que também teve dificuldades com a burocracia.

“Tem a questão da certificação, quando se trabalha com madeira. Uma vez, fiz um reflorestamento e fui multado porque estava plantando árvores”, contou. “Como encontrar o dinheiro na Amazônia? Olhando para a floresta, sem derrubar. Apenas olhando para o que eu posso retirar como meio de inspiração”, acrescentou.

RAPHAEL SALOMÃO, DE SÃO PAULO (SP)

Fonte ; Globo Rural