Empresa montou posição de US$ 2,8 bi, diz PF

Laudo técnico da Polícia Federal (PF) que amparou os pedidos de prisão preventiva dos sócios da J&F, Wesley e Joesley Batista, concluiu – após o exame das transações com derivativos de dólar realizadas pela JBS e de venda das ações da companhia pelos controladores – que "as operações realizadas são compatíveis com o uso de informação privilegiada possuída por acionistas/administradores".

Para corroborar sua conclusão, o perito criminal Ilan Sacks, que assina o documento, cita a atipicidade dos negócios, os volumes não usuais, "bem como quanto ao seu timing e oportunidade".

O profissional analisou a compra de derivativos de dólar – tanto em bolsa como no mercado de balcão – pela JBS às vésperas da divulgação do acordo de delação premiada dos executivos e também as vendas de ações da própria JBS pelos controladores, ao mesmo tempo em que a companhia recomprava esses papéis na bolsa.

Conforme o laudo, que cita relatórios da Comissão de Valores Mobiliários (que conduz inquérito administrativo sobre o mesmo tema), a JBS montou uma posição comprada em derivativos de dólar de US$ 2,8 bilhões ao longo de maio até o dia 17, reduzindo sua exposição cambial líquida, que é passiva. Apenas no dia 17, o saldo comprado aumentou em US$ 751 milhões. Praticamente ao mesmo tempo, entre o fim de abril e 17 de maio, os controladores venderam R$ 373 milhões em ações da JBS, enquanto a empresa fez recompras de R$ 236 milhões. Segundo o inquérito, Wesley teria agido na compra dos dólares e Joesley dado a ordem para venda das ações.

Na noite do dia 17, o site do jornal "O Globo" revelou a existência da delação e da gravação de conversa de Joesley com o presidente Michel Temer. No dia 18, o dólar subiu 8,1%, para R$ 3,38, e a ação da JBS teve desvalorização de 9,7%.

O laudo apontou que a JBS, que havia terminado o mês de abril sem posição em aberto no mercado a termo de dólar, montou, ao longo de maio até o dia 17, uma posição comprada de US$ 2,34 bilhões em contratos de balcão.

Na bolsa de futuros, a JBS iniciou o mês vendida em US$ 81 milhões, inverteu o saldo para posição comprada de valor entre US$ 78 milhões e US$ 93 milhões até o dia 16, e elevou o saldo comprado para US$ 474 milhões no dia 17.

No caso dos contratos a termo, a taxa futura pactuada era de aproximadamente R$ 3,20, segundo o laudo, o que significa que a empresa teria que pagar um ajuste negativo de R$ 196 milhões se na virada do mês o dólar tivesse com a mesma cotação de R$ 3,10, do dia 17 maio.

O lucro potencial com o câmbio do dia 18 seria de R$ 417 milhões, diz o laudo da PF. Mas o ganho efetivamente realizado no vencimento com os contratos de balcão, quando o dólar Ptax de referência ficou em R$ 3,23, foi de R$ 92 milhões.

Ao se somar a perda evitada com o ganho auferido, o "efeito delação" foi de R$ 288 milhões.

Na posição de contratos de bolsa, houve ajuste positivo de R$ 99 milhões no dia 18, mas, como os papéis foram mantidos até o vencimento, parte dos ganhos foi revertida.

O documento da PF aponta que o volume de operações cambiais da JBS em maio de 2017 foi "bastante superior" ao observado desde maio de 2016, "uma vez que desde então a companhia nunca havia mantido posição líquida, comprada ou vendida, superior a US$ 50 milhões".

"Em face dos acontecimentos conhecidos e dos dados examinados pode-se afirmar que a ocasião, oportunidade e volume das operações cursadas nos mercados de derivativos de dólar são atípicas e podem ter sido estruturadas em face do conhecimento e de utilização de informações relevantes não disponíveis ao mercado", diz o perito.

Em relação às operações com ações, a PF diz que os donos da JBS evitaram perda de R$ 61 milhões a R$ 114 milhões ao vender ações antes da delação, a depender do cenário utilizado para o cálculo – o primeiro com a cotação do dia 18 e o segundo com uma média até 27 de junho. "Nesse contexto, os acionistas minoritários/não controladores, dentre os quais o BNDESPar, incorreram em prejuízo com a desvalorização das ações ocasionada pela divulgação do acordo de delação, porquanto os controladores, coautores do acordo, já estavam a vender ações da companhia", diz a PF.

E relação às recompras de ações, a PF diz que a empresa teria pago de R$ 38 milhões a R$ 72 milhões mais barato se tivesse feito as compras depois do fato relevante sobre a delação (também considerando os dois cenários citados acima).

De acordo com a análise da PF, enquanto os controladores negociavam delação premiada e o conselho da empresa aprovava novo plano de recompra de ações, os controladores alienaram 36 milhões destes papéis entre 20 de abril e 17 de maio, período no qual a JBS adquiriu 23 milhões do mesmo ativo. "Estas aquisições absorveram parte do aumento do volume ofertado no mercado e contribuíram para a manutenção e mesmo incremento do seu preço, pois as vendas da FB, isoladamente, representaram significativa fatia de 26% dos negócios nestas datas".

Por André Guilherme Vieira e Fernando Torres | De São Paulo

Fonte : Valor

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