Empreitada da BRF na Argentina deixa R$ 1,2 bi em perdas

Victor R. Caivano/AP

Companhia tentou, sem sucesso, enviar ovos férteis do Sul do Brasil para viabilizar as suas operações na Argentina

A empreitada da BRF na Argentina caminha para um fim melancólico. Ao vender a Campo Austral, em uma transação de US$ 35,5 milhões anunciada na última semana, a companhia deixará de atuar no país vizinho. O saldo de quase uma década em terras argentinas é indigesto. Desde 2011, a BRF perdeu mais de R$ 1,2 bilhão no país.

Esse montante contempla os frequentes aportes de capital realizados para manter as operações – reconhecidamente deficitárias -, assim como a baixa contábil que deverá ser reportada no próximo balanço trimestral, em 28 de fevereiro, devido às vendas dos ativos.

Desde 2011, a BRF fez cinco aquisições na Argentina, gastando quase US$ 480 milhões, conforme dados compilados pelo Bradesco BBI. A companhia se desfez de todos esses ativos entre 7 de dezembro e 10 de janeiro, obtendo US$ 140,4 milhões. A diferença entre o montante pago e o recebido – a maior parte dos recursos ainda não ingressou no caixa – é de quase US$ 340 milhões (R$ 1,2 bilhão).

As perdas seriam ainda maiores se contabilizado o prejuízo operacional apurado na Argentina nos últimos anos. Em 2017, último dado anual disponível, a BRF amargou um lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) negativo de R$ 180 milhões. Na prática, os negócios torravam o caixa.

Foi para estancar a crônica queima de recursos e cumprir os planos do presidente Pedro Parente de reduzir o endividamento que a companhia brasileira decidiu, no fim de junho de 2018, se desfazer das operações.

Ao Valor, diferentes fontes que acompanharam o dia a dia da BRF nos últimos anos admitiram que o projeto frustrado na Argentina reflete as crises econômicas do país – atualmente, sofre com a hiperinflação -, mas principalmente erros da gestão anterior. O principal deles talvez tenha sido a recusa em investir na criação de uma rede de fornecedores de frango (os integrados) como a existente no Brasil. Assim, a Avex, empresa de carne de frango comprada em 2011, sofreu com alta ociosidade, já que não havia oferta de frango à disposição.

Segundo um ex-executivo do alto escalão da BRF, a companhia pagou um preço alto por ter confiado na capacidade de persuadir o governo argentino. Em 2016, quando Abilio Diniz presidia o conselho de administração, a empresa tentou, sem sucesso, importar ovos férteis de aves reprodutoras (matrizes) de suas operações de genética avícola na região Sul do Brasil. Com isso, a empresa conseguiria aproveitar o seu excedente de oferta genética.

A pedido da BRF, o Ministério da Agricultura brasileiro chegou a fazer gestões junto ao governo argentino para liberar a importação, mas houve resistência. Executivos da companhia na ocasião atribuíram essa postura à Granja Tres Arroyos, que fornecia aves matrizes para a BRF na Argentina e concorria com o grupo brasileiro em carne de frango. Diante do impasse, executivos da brasileira chegaram a conversar com a Tres Arroyos para uma união, mas não houve acordo.

Para resolver o problema com a oferta de genética avícola e também estruturar uma rede de integrados, a BRF teria de investir cerca de US$ 50 milhões, disse uma fonte. Mas a companhia preferiu usar os recursos na diversificação dos negócios na Argentina, ingressando em carne suína com a aquisição, em 2016, de Campo Austral e da Calchaquí – esta última é dona da marca Bocatti, que produz presunto e mortadela, entre outros.

"Dobraram a aposta contando com os ovos da galinha", brincou uma fonte, em alusão ao imbróglio envolvendo a importação de genética. A diversificação não teve o êxito esperado. Na verdade, a BRF continuou perdendo dinheiro na Avex, mas não só. Também reportou prejuízo no negócio de suínos.

Em dezembro, a perda na Avex se tornou evidente. O negócio foi vendido por US$ 50 milhões a uma velha conhecida, a Granja Tres Arroyos. A aquisição foi feita em parceria com a argentina Fribel. Em 2011, quando comprou a Avex, a BRF investiu US$ 150 milhões.

Além dos problemas em aves e suínos, a empresa sofreu para operar a Quickfood, que havia sido adquirida da brasileira Marfrig em 2012, como parte de um acordo de troca de ativos para que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovasse a incorporação da Sadia pela Perdigão – a união delas deu origem à BRF.

Embora a Quickfood liderasse o mercado de hambúrguer bovino com a marca Paty, a BRF não conseguiu tornar o negócio rentável. Nesse caso, em parte devido às dificuldades impostas à pecuária argentina no governo de Cristina Kirchner (2007-2015). Ao taxar as exportações de carne, a ex-presidente derrubou a produção de gado.

Fazer parte de uma gigante como a BRF, que fatura mais de R$ 30 bilhões ao ano, também fez mal às controladas no país vizinho, avaliou uma fonte. "Pediam US$ 50 milhões como se fosse um almoço", criticou. Em agosto do ano passado, por exemplo, a BRF precisou injetar US$ 88 milhões na Argentina para quitar dívidas de curto prazo.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

  • Fonte : Valor

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