Embrapa Uva e Vinho comemora 45 anos

Instituição sediada no município de Bento Gonçalves busca uma modernização da vitivinicultura na Serra Gaúcha

Não é por que uma cultura já está consolidada e serve de modelo histórico para um setor que essa atividade não possa ser aprimorada.

Com o crescimento de outros mercados de uvas no Brasil, como é o caso do Vale do São Francisco, o pesquisador e chefe- -geral da Embrapa Uva e Vinho, José Fernando da Silva Protas, destaca que é fundamental que a produção na Serra do Rio Grande do Sul acompanhe o desenvolvimento tecnológico para não perder competitividade. A instituição com sede em Bento Gonçalves, mas que desenvolve trabalhos para todo o País, completa 45 anos de atividades nessa quarta- feira (26) e, além da uva, atua com soluções para a fruticultura de clima temperado envolvendo outras áreas de pesquisa, como a da maçã e da pera.

Jornal do Comércio (JC) – A Embrapa Uva e Vinho, entre outras ações, trabalha com o melhoramento genético para criar opções tecnológicas e variedades específicas para as condições tropicais, que pesquisas poderiam ser destacadas no momento?

José Fernando da Silva Protas – No âmbito da viticultura, de uva de mesa, especialmente, cujo principal polo produtor é o Vale do São Francisco, temos lançados recentemente três cultivares de uvas, sendo duas sem semente e uma com, mas se destaca a BRS Vitória, uma uva preta, sem sementes, com protagonismo nos mercados internacional e nacional.

E agora temos outro conjunto de cultivares para as condições do Sul, embora bem adaptadas ao Vale do São Francisco, são uvas americanas e híbridas voltadas ao processamento de vinho de mesa e suco. São cultivares que vêm a compensar a deficiência das tradicionais da região, como a Isabel e a Bordô, com relação à cor, concentração de açúcar e à tolerância ao ataque de doenças fúngicas.

JC – O Vale do São Francisco, assim como outras regiões do País, têm mostrado um interessante potencial para a cultura de uvas, como isso reflete na já tradicional produção na Serra gaúcha?

Protas – Se nós não modernizarmos nosso sistema de produção (de uva), não quebrarmos o forte tradicionalismo ainda existente na região da Serra, teremos grande dificuldade para competir nesse mercado, principalmente no de suco de uva.

JC – O que seria quebrar o tradicionalismo e modernizar a produção?

Protas – Por exemplo, com as cultivares tradicionais hoje temos de um mês a um mês e meio para colher toda a safra e fazer filas enormes de caminhões, que às vezes ficam mais de um dia carregados de uvas, já fermentando, para serem recebidas pelas indústrias.

Nós temos tecnologia e cultivares atualmente que nos permitiriam fazer o zoneamento da produção na Serra gaúcha, colocando as cultivares mais precoces nas regiões mais quentes, no Vale do Rio das Antas, e as mais tardias nas regiões de Pinto Bandeira, de Caxias de Sul. De forma que poderíamos começar a fazer a safra no final de dezembro e terminar no início de abril (hoje a concentração da safra de uva se dá nos meses de janeiro e fevereiro).

JC – Como isso ajudaria a cadeia produtiva?

Protas – Teríamos uma melhor distribuição da produção e a indústria, ao invés de ser aquela correria, teria três meses para receber a uva. Temos um projeto que está no Ministério da Agricultura que se chama Modervitis, no qual se busca trabalhar uma vitivinicultura inteligente. A ideia é, para cada característica de indústria, de mercado, tipo de produto, ter uma alternativa de variedade que pode ser adaptada para os diferentes microclimas da região.

JC – A qualidade da safra gaúcha de uva deste ano para os vinhos finos é realmente ex- Se não quebrarmos o forte tradicionalismo ainda existente na Serra, teremos grande dificuldade para competir cepcional como algumas vinícolas estão apontando?

Protas – É. Muitos colegas acham que, nos últimos 30 anos, não teve uma safra, em termos de qualidade, semelhante à de 2020.

JC – O que explica isso?

Protas – As condições ambientais, de tempo, principalmente a seca. O grande desafio é que não chova quando a uva vai amadurecer.

A ameaça de chuva faz com que o vitivinicultor, normalmente, colha antes para não apodrecer a fruta. Dessa vez, as condições de outono e verão foram extremamente favoráveis. Esse ano o produtor pôde deixar a uva ter sua maturação plena, coisa que em anos de muita chuva ele não consegue, pois ou colhe a uva não tão madura ou podre.

JC – No mercado de vinhos existe uma acirrada competição, ainda mais com a entrada de itens estrangeiros, como do Chile e Argentina, esse fator também existe na área de pesquisa?

Protas – Não. O mundo da ciência é o mundo da parceria. A disputa e a competição têm que se dar na estrutura dos setores produtivos.

Nós temos a relação de visitas, de treinamento no mundo todo. Claro que torcemos pelo nosso produto, que queremos que o nosso seja melhor, mas na dimensão técnica, tecnológica e científica, temos parcerias entre os países. Deixamos a briga, no bom sentido, para o mercado.

JC – Que novas fronteiras para a uva estão se desenvolvendo no Brasil?

Protas – Dentro desse contexto de regiões emergentes, cabe destacar a de vinhos de altitude de Santa Catarina, que contempla São Joaquim e também Caçador e Campos Novos. Os parreirais ali estão localizados no mínimo a 900 metros de altitude e em função dessa característica existe um amplo potencial de produção de vinhos de qualidade. Mais recentemente também, nós temos acompanhado o Brasil Central, a região de Goiás, inclusive o Distrito Federal.

Fonte: Jornal do Comércio

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