Embrapa aperfeiçoa zoneamento agrícola

Ruy Baron/Valor

Lopes: "Com eventos como secas prolongadas ou grandes chuvas, temos de investir mais para captar esses riscos"

Há quatro anos, o megaempresário e bilionário americano Bill Gates e o presidente da Embrapa, Maurício Lopes, se conheceram em um evento em Londres sobre mudanças climáticas. Gates estava entusiasmado com os projetos da fundação que leva seu sobrenome na África e queria apoio do governo brasileiro para estimular a produção de alimentos em regiões daquele continente onde o solo é impróprio para a agricultura. Mas ouviu de Lopes que não bastaria simplesmente corrigir o solo. A saída seria investir num pacote tecnológico batizado de Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), composto por um conjunto de métodos científicos que monitora riscos de fenômenos climáticos e, por consequência, quebras de safra.

Tal pacote, aliás, foi desenvolvido no Brasil pela Embrapa e implementada em conjunto pela empresa e pelo Ministério da Agricultura em 1996. Duas décadas depois, o presidente da estatal brasileira que é referência internacional em pesquisas agropecuárias não sabe se Gates incorporou a tecnologia em seus planos. Mas afirmou que a estatal vem se debruçando nos últimos meses para aperfeiçoar o zoneamento, que atualmente é capaz de estimar riscos com margem de até 20% para o cultivo de 44 culturas no Brasil. A ideia, agora, é dobrar esse percentual.

Batizado de "Zoneamento 2.0" por Lopes, o novo formato do instrumento tecnológico leva em conta o mesmo receituário já utilizado – mapas de solo, previsões meteorológicas e indicação de sementes apropriadas para cada região -, mas com séries e dados mais complexos e aprofundados para poder prever riscos maiores de quebras de safra com percentuais que chega a 30% e a até 40%.

"A necessidade de termos um zoneamento de risco climático mais sofisticado cresceu; com eventos como secas prolongadas ou grandes chuvas, temos de investir mais para captar esses riscos", diz Lopes. "Com essa ferramenta, um banco poderá financiar áreas de plantio com curvas de risco maior, porque aí você aumenta a possibilidade de plantio para os produtores", afirmou.

Hoje, a Embrapa faz estudos técnicos a cada ano com dados como precipitação, temperatura e consumo hídrico, que projetam 80% de chance de êxito nas culturas analisadas durante um período de dez anos e 20% de probabilidade de perdas. Mas testes com bases de dados mais ricas, já concluídos pela Embrapa Informática Agropecuária, sediada em Campinas (SP), já produziram "curvas de desempenho" mais longas de culturas como a soja e o milho safrinha nas regiões Centro-Oeste e Nordeste, capazes de proporcionar o cultivo com cálculos de risco de até 40%.

Aryeverton Fortes de Oliveira, pesquisador da Embrapa Informática que coordena a remodelação do zoneamento, explica que o novo formato de levantamentos passará a conter análises de satélites e simulações mais precisas para cada cultura pesquisada em todas as regiões brasileiras. E que outros testes também já começaram a ser feitos no Sul e no Sudeste para o milho safrinha. As primeiras portarias deverão ser publicadas no início do próximo ano com essas culturas, mas a intenção é ampliar o trabalho para as culturas de cana-de-açúcar e também de trigo.

Levantamento recente da Embrapa Informática mostrou que a adoção do zoneamento no Brasil evita perdas de produtividade que chegariam a R$ 3,6 bilhões por ano. Desde o primeiro "Zarc", voltado ao trigo e publicado em 1996, já foram estudadas 59 culturas e 80 sistemas de cultivo diferentes, trabalho que atualmente envolve 21 unidades da Embrapa. E é com base nesses levantamentos, que indicam quando, onde e como plantar 44 culturas agrícolas no país hoje, que o Ministério da Agricultura define todos os anos uma lista de quais municípios estão aptos para o plantio dessas culturas.

Hoje, os bancos concedem crédito rural apenas a municípios que fazem parte desse "mapa do zoneamento", revisado e publicado anualmente por meio de portarias no "Diário Oficial da União".

Fernanda Schwantes, assessora técnica da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), lembra que essas mudanças no zoneamento também atendem a recomendações do Tribunal de Contas da União (TCU). Ocorre que, no atual formato, o ministério é alvo de constantes pressões de prefeitos que não querem ver seus municípios fora do rentável mapa do agronegócio brasileiro.

Por Cristiano Zaia | De Brasília

Fonte : Valor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.