Em meio a corte de custos, Monsanto fecha a CanaVialis

Rodrigo Santos, presidente da Monsanto no Brasil: o país continua no foco
A americana Monsanto, maior empresa de sementes do mundo, informou ontem que vai sair do mercado de cana-de-açúcar no Brasil, no qual atua por meio da divisão CanaVialis, adquirida do grupo Votorantim no fim de 2008. A medida foi anunciada na esteira de uma reorganização global que resultará na demissão de cerca de 12% dos funcionários da múlti – que encerrou o quarto trimestre do ano fiscal 2015, em 31 de agosto, com prejuízo líquido de US$ 495 milhões e anunciou uma revisão para baixo em sua expectativa de lucro no atual exercício.

A saída da Monsanto da área de cana já era esperada. Há dois anos, a companhia havia contratado o banco Morgan Stanley para procurar um sócio financeiro para sustentar o negócio, diante da decisão tomada pela matriz de cessar a injeção de recursos nessa frente. Há sete anos, quando a americana comprou da Votorantin Novos Negócios os ativos de pesquisas em cana reunidos na CanaVialis e na Alellyx – a primeira focada em melhoramento genético e a segunda em biotecnologia aplicadas à cana -, o segmento sucroalcooleiro vivia um boom de investimentos em etanol. Nos últimos cinco anos, contudo, a maré virou, por adversidades tanto no mercado de etanol quanto no de açúcar.

Segundo fontes que acompanham esse mercado, essa "tempestade perfeita" frustrou as expectativas da Monsanto e tornou sua operações com cana pouco promisora. Estima-se que a aposta tenha custado à companhia, em números conservadores, quase US$ 500 milhões desde 2008, incluindo os US$ 290 milhões pagos pela aquisição da CanaVialis. Procurada após divulgar comunicado sobre o fim da divisão, a Monsanto não concedeu entrevista.

Quando foi anunciada, há quase sete anos, a venda da CanaVialis para a Monsanto foi alvo de críticas, já que, no início, as pesquisas da empresa controlada pela Votorantim tiveram financiamentos de instituições públicas como o BNDES. Hoje, os ativos "descontinuados" têm pouco valor. "Pesquisa tem que ter continuidade e lançamento de produtos. Caso contrário, o que sobra são equipamentos", observa um especialista.

Desde que comprou a operação de cana, a Monsanto lançou três ou quatro variedades no mercado, resultantes de pesquisas que já tinham começado a ser desenvolvidas pela Votorantim Novos Negócios. Estima-se que a participação desses materiais na área plantada total de cana no Brasil seja menor que 0,5%.

Ainda assim, no comunicado que divulgou, a múlti afirmou que vai prospectar entidades públicas de pesquisa para discutir possíveis transferências tecnológicas, de modo a permitir que os progressos obtidos continuem contribuindo para a cadeia da cana no Brasil. A Monsanto também informou que está buscando "oportunidades de transferência" para o maior número possível de funcionários ligados à CanaVialis – aproximadamente 150.

A desistência da companhia americana não mudará o andamento das pesquisas com cana no Brasil. O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), que tem como sócios grandes grupos do segmento, como Raízen e Copersucar, seguirá como a principal referência em pesquisa nessa área no mundo. Múltis como a suíça Syngenta e alemã Basf também investem no segmento, e companhias como a GranBio também passaram a apostar em pesquisas com cana nos últimos anos para atender necessidades específicas, como a busca de uma cana com mais biomassa para produção de etanol celulósico.

Aparentemente, o fim da CanaVialis é a medida mais marcante da reorganização global da Monsanto que envolve o Brasil. "O encerramento dessa unidade de negócios decorre da nossa decisão de focar em negócios como sementes, proteção de cultivos, biológicos e agricultura digital, nos quais estamos investindo US$ 150 milhões no Brasil em 2015", diz Rodrigo Santos, presidente da Monsanto do Brasil, no comunicado divulgado ontem. Mas haverá impactos relevantes também em outras frentes.

Em busca de uma economia anual global de até US$ 300 milhões, a companhia prevê a demissão de 2,6 mil funcionários em suas várias operações no mundo – ou cerca de 12% da força de trabalho total. Por conta de "ventos contrários" nas áreas cambial, de produção de milho e no mercado de glifosato, a matriz anunciou que lucro por ação da múlti deverá recuar para entre US$ 5,10 e US$ 5,60 nos 12 meses iniciados em 1º de setembro, ante os US$ 5,73, do ano fiscal de 2015.

Por Bettina Barros e Fabiana Batista | De São Paulo
Fonte : Valor

2 comentários sobre “Em meio a corte de custos, Monsanto fecha a CanaVialis

  1. Criticar não é fácil, ou uma reportagem deve apenas relatar ou, se quiser criticar, o faça com propriedade. “Lançou 3 ou 4 variedades” me parece um comentário superficial e minimalista. Outros programas lançaram mais de 15 variedades nesses últimos 7 anos, mas ´lançar´está longe de ser uma contribuição para o setor, muitos lançaram variedades com suscetibilidade a doenças graves para o setor ou pouco produtivas. A empresa que relata sempre foi referência em confiança dos principais usuários de suas variedades, incluindo grandes Grupos citados nesta reportagem. O mercado de cana caminha à uma velocidade diferente da de grãos, são dois ciclos de venda de grãos por ano, enquanto um canavial é plantado novamente a cada cinco anos. Era de se esperar que a Monsanto não se adaptasse a este tipo de negócio e a recíproca também é verdadeira. Mas é com pesar que recebo esta notícia e me solidarizo com todos as pessoas que vestiram a camisa e aceitaram o desafio de fazer diferente. Desejo a todos que se recoloquem rapidamente no mercado e encontrem ótimos caminhos.

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