Elas também estão no agro: mulheres são maioria à frente da agroindústria familiar na Serra

Cerca de 70% dos negócios familiares na região são tocados por mãos femininas

08/03/2021 – 08h00minAtualizada em 08/03/2021 – 09h06min

Andrei Andrade

ANDREI ANDRADE

Porthus Junior / Agencia RBS

Simone Degregori toca sozinha a Mais Sabor, agroindústria familiar voltada para a produção de massas e biscoitos coloniaisPorthus Junior / Agencia RBS

Quando tinha os mesmos 12 anos que a filha Amanda, Simone Degregori, 43, deixou a escola, após o quinto ano. Não havia na época linha de ônibus que passasse pela localidade de São Luiz da Sexta Légua, no interior de Caxias do Sul, onde vivia com os pais. Mesmo destino de tantas outras meninas do interior, Simone passou a ajudar a família na roça, até que tivesse idade para arrumar um emprego compatível com a baixa escolaridade. Durante alguns anos, trabalhou como repositora de supermercado, mas o salário e a distância que tinha de percorrer até a cidade não compensavam. Foi quando decidiu investir em si mesma.

Em 2021, irá completar 20 anos anos que Simone inaugurou a agroindústria familiar Mais Sabor, em São Valentim da Sexta Légua. A garagem da casa onde vive com o marido, o agricultor Sadi, e com a filha transformou-se numa pequena fábrica de onde saem massas que abastecem dezenas de restaurantes e supermercados de Caxias, incluindo quatro unidades da rede Andreazza. As variedades mais consumidas, o tortéi e o macarrão, superam os 100 quilos por semana. Há cinco anos, o negócio se expandiu para o ramo dos biscoitos coloniais, aproveitando uma parceria com a Cooperativa de Agricultores e Agroindústrias Familiares de Caxias do Sul (Caaf), que distribui para as escolas do município.  

– Foi uma escolha que se encaixou com o que eu queria para a minha vida, principalmente depois que casei. Pude estar mais perto dos meus pais, que já estão com uma idade mais avançada, e ter mais tempo para cuidar da casa – conta Simone.

Seja inverno ou verão, a rotina de Simone inicia às 6h30min. Isso porque às 11h30min precisa estar com tudo pronto para fazer o almoço da família e, na primeira hora da tarde, sair em sua Fiorino para fazer as entregas do dia. Quando já tiver passado em todos os clientes, Simone então vai às compras. Ao retornar, no final da tarde, ainda precisa limpar as máquinas para deixá-las prontas para o uso no dia seguinte.

– Não é um negócio em que a pessoa vai prosperar se entrar apenas pelo dinheiro. Tem que ter amor envolvido, porque é muito trabalhoso – comenta a empreendedora.

São diversas as mulheres à frente de negócios rurais de âmbito familiar em Caxias do Sul. Das 15 agroindústrias associadas à Caaf, 11 são comandadas por mãos femininas. Outro exemplo desse predomínio se verifica no programa Agro em Casa, que reúne agroindústrias da região em uma espécie de loja virtual com entrega a domicílio. Entre 23 empresas caxienses credenciadas, 18 são lideradas por mulheres que aproveitaram os dotes culinários e o conhecimento transmitido de gerações da família para fazer disso sua fonte de renda. 

– É muito importante aproveitar programas como o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Quando comecei, tinha apenas uma máquina amassadeira para cinco quilos e todo o equipamento que adquiri depois foi com incentivos como esse, que permitem pagar os empréstimos em até 10 anos. Também é preciso estar atenta aos cursos que o Sebrae oferece, que dão uma qualificação muito importante, principalmente para quem não tem o estudo formal  – aconselha.

Em meio às abelhas

Adriana d Bortoli prospera em Jaquirana com a Apicultura do Máximo, que administra sozinha desde a morte do marido

Realidade semelhante à de Caxias se verifica em outros municípios da região, onde o protagonismo feminino é evidente. De acordo com o extensionista da Emater/RS Ricardo Capelli, a Serra tem 231 agroindústrias cadastradas no Programa Estadual de Agroindústria Familiar do Governo do Estado (Peaf), sendo que 70% delas são comandadas por mulheres.

Em Jaquirana, nos Campos de Cima da Serra, Adriana de Bortoli, 45, conduz sozinha o processo desde o manejo de abelhas até a extração do mel e do extrato de própolis da Apicultura do Máximo, cujo nome faz referência à localidade onde está instalada, no ponto mais alto do município. O negócio foi idealizado junto com o marido, Luiz Alberto Pinto Júnior, que faleceu em maio de 2019, após ser levado pela correnteza ao tentar passar de caminhonete por uma ponte no Rio das Antas. Mesmo abalada pela tragédia, a apicultora decidiu seguir em frente, com a ajuda da filha Juliana, de 12 anos, responsável por abastecer as redes sociais.

– Foi uma luta muito grande para conseguir regularizar a agroindústria, dentro de todas normas sanitárias. Não tinha como deixar tudo aquilo para trás. No campo, a mulher sempre trabalha junto com o marido, por isso eu já sabia como fazer e decidi continuar tocando o negócio – conta Adriana.

Além de abastecer mercados em diversas cidades da região e na Capital, o mel também chega às famílias locais nas cestas básicas oferecidas pela prefeitura durante a pandemia. Numa safra boa como a do ano passado, a produção anual pode chegar a mil quilos. Em ano de muitas chuvas, como 2021, pode cair pela metade.

– É uma safra sazonal. Quando cai muita chuva na época da florada, entre outubro e fevereiro, as flores estragam e as abelhas não conseguem fazer o mel  – explica.

Natural de Canela, onde morava na área central, o casamento fez Adriana trocar a vida na cidade e o trabalho de 10 anos no controle de produção em uma metalúrgica pela rotina no interior. Hoje se diz uma pessoa “do campo”, que já não se imagina capaz de voltar a viver em um centro urbano:

– Eu era uma pessoa muito estressada na cidade, apesar de gostar do que eu fazia e de trabalhar menos. Sendo dona do negócio, tu precisas trabalhar mais. Mas me acostumei com a paz do interior. Quando perdi meu marido, fiquei muito abalada, mas sabia que era aqui que minha vida ia continuar. 

Em números

Porthus Junior / Agencia RBSParticipação das mulheres no comand de pequenos negócios rurais é de destaque, enquanto nas grandes empresas ainda é pequenaPorthus Junior / Agencia RBS

– Das 15 agroindústrias familiares filiadas à Cooperativa de Agricultores e Agroindústrias Familiares de Caxias do Sul (Caaf), 11 são comandadas por mulheres. A maioria atua na produção de massas, pães e biscoitos.

– Das 23 agroindústrias familiares caxienses filiadas ao programa Agro em Casa, criado em parceria por entidades representativas do setor na Serra, 18 têm uma mulher no comando da produção.

– O Serviço Municipal de Controle de Produtos Agropecuários de Origem Animal (COPAS-POA), da Secretaria Municipal da Agricultura de Caxias do Sul, conta com  21 estabelecimentos registrados, sendo 8 deles administrados por mulheres. Porém, apenas 1 está no nome da mulher. Os outros 7 estão no nome do esposo, embora a mulher seja igualmente responsável por administrar o negócio

– O Programa Estadual de Agroindústria Familiar do Governo do Estado (Peaf) conta com 231 agroindústrias familiares registradas na Serra. 70% delas (162) são comandadas por mulheres.

A princesa da uva e do agro

Antonio Valiente / Agencia RBSA ex-princesa da Festa da Uva Kelin Zanette agora comanda a empresa da família, no setor de produção e distribuição de frutasAntonio Valiente / Agencia RBS

Se na agroindústria familiar elas são maioria, no agronegócio ainda são poucas as empresas administradas por mulheres em Caxias. O presidente do Sindicato Rural, Valmir Susin, pode contar nos dedos os nomes que saltam à memória, embora ressalte que há muitos casais que administram em condição de igualdade, ainda que o marido seja o proprietário legal.

Entre as exceções está uma ex-princesa da Festa da Uva. Kelin Zanette, 31, administra a Zanette – Produtora e Distribuidora de Frutas, da qual é sócia ao lado do irmão, Gian Carlos, e do pai, Nei Carlos. É a responsável por negociar com um time de 150 produtores que fornecem caqui, pêssego, ameixa, uva e kiwi para a empresa instalada em São Gotardo de Vila Seca, de onde saem para abastecer quase todas as capitais brasileiras. Graduada em Engenharia de Produção, Kelin recorda com carinho o início da sua trajetória no agro, que se mistura ao papel exercido como uma das soberanas da edição de 2012 da maior festa caxiense.

– A Festa da Uva exigia muito e eu não conseguia conciliar com a faculdade e o trabalho que tinha na época, em uma metalúrgica. Saí do emprego e passei a ajudar meu pai nas horas vagas, principalmente fazendo planilhas de custos, valores, toda a parte de administração que ele sempre fez no caderno. Ele notou a diferença e, quando me formei, disse que estava disposto a investir no negócio caso meu irmão e eu quiséssemos assumir o comando. Tive uma escolha a tomar, pois havia uma proposta muito boa para voltar à empresa onde eu trabalhava, mas sei que tomei a decisão mais correta. Mesmo que, desde aquele dia, eu passe 24 horas por dia com o celular ligado – brinca.

Mesmo em um mercado tão masculino, Kelin comenta ter sido bem aceita entre fornecedores, clientes e colegas no setor rural. O maior preconceito que sentiu, relata, foi por parte de quem acha que o campo não é lugar para uma princesa:

– Ser uma mulher nesse meio é desafiador, como se tivesse sempre algo a mais a provar. O maior preconceito que sofri foi justamente por ser princesa da uva e trabalhar nesse meio, como se não fosse adequado. Tive que pular alguns obstáculos.

Entre as possíveis vantagens que uma mulher pode levar num cargo de gestão, Kelin aponta a organização e o perfeccionismo. A última é fácil de exemplificar: para minimizar a variação de qualidade nas frutas entregues por mais de uma centena de produtores, a gestora encontrou uma maneira de estimular a preocupação com a qualidade, criando uma premiação anual para aqueles que apresentam as melhores frutas a cada safra. A entrega dos prêmios ocorre em um grande encontro com as famílias, onde os vínculos também são estreitados e a confiança se renova para o ano seguinte.

– Quem compra a nossa fruta sabe que irá pagar um pouco a mais, mas que não terá problema com a qualidade, porque prezamos por isso. Porém, conforme o negócio aumentou, estava difícil manter o padrão. Criar a premiação foi uma fórmula que deu muito certo. Outro fator que conta é estar sempre próximo da produção. Não acredito no gestor que comanda apenas de dentro do escritório. Ele tem que conhecer os pomares, saber olhar para uma fruta e dizer se ela está boa ou não, e até ajudar a embalar se for preciso – ressalta Kelin.

Mudança a passos lentos, mas firmes

A modernização do agronegócio no Brasil deve abrir espaço para que mais mulheres venham a ocupar cargos de gestão no setor nos próximos anos. A predominância masculina ainda é reflexo de uma cultura corroborada por leis que dificultaram à mulher ter a propriedade de terras no Brasil, seja por aquisição ou herança, que só começaram a ser derrubadas a partir dos anos 1960. Se por um lado a sucessão familiar ajuda a equilibrar um pouco este cenário, por outro há a qualificação profissional cada vez maior das mulheres, que representam maioria dos postos de trabalho de nível superior ou mais em Caxias (62%), de acordo com o boletim anual Mulheres e Mercado de Trabalho (2019) do Observatório do Trabalho da UCS.

– Principalmente com a modernização e a globalização, a qualificação virou uma obrigação neste segmento, e isso deve abrir cada vez mais espaço para as mulheres. A gente percebe isso dentro da universidade, com a presença feminina cada vez maior dentro dos cursos de engenharia e de biotecnologia – aponta a historiadora e socióloga Vânia Herédia, coautora do livro Mulheres empreendedoras: a construção de uma caminhada (Educs, 2017), encomendado pela CIC Caxias do Sul.

Diretora do Conselho da Empresária da CIC Caxias do Sul, Ágatha Tonietto aponta que a participação da mulher enquanto líder no agronegócio não acompanha um boom de empreendedoras do gênero feminino em praticamente todos os outros setores da indústria, dos serviços e do comércio na última década.

– Embora as mulheres venham conquistando seu espaço, é um setor muito masculino. Ainda é reflexo de uma cultura machista no Brasil, em que a mulher trabalha, mas quem aparece é o homem. Felizmente, a gente já percebe isso sendo superado em outras áreas, mas no agronegócio essa caminhada é mais lenta – avalia.

Fonte: Zero Hora

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