El Niño pode dar algum fôlego às cotações do arroz

Campo de arroz na Tailândia; grande oferta no país tem pressionando cotações
As condições de seca provocadas pelo fenômeno climático El Niño, aliadas a uma queda nos estoques de arroz, devem elevar os preços do grão nos próximos meses, revertendo anos de declínio.

Os preços globais do arroz têm se mantido em baixa desde 2012 devido a um excesso de oferta – particularmente na Tailândia, grande produtor mundial – e à desvalorização das moedas de vários grandes exportadores. Com o El Niño trazendo clima seco para as áreas de cultivo de arroz na Ásia, e considerando o estado do arroz tailandês mantido armazenado por vários anos, uma reversão nos preços é esperada.

"Estamos em meio a um El Niño forte, que pode causar grande impacto negativo na produção da Indonésia e das Filipinas, dois grandes importadores tradicionais, e também na produção tailandesa. Portanto, isso deve levar a preços mais altos", diz David Dawe, economista sênior do escritório regional da Agência para Alimentação e Agricultura da ONU (FAO) da Ásia e Oceania, na Tailândia.

O El Niño ocorre quando os ventos no Pacífico equatorial diminuem ou revertem sua direção, causando aquecimento em uma área vasta de água, que por sua vez pode mudar os padrões climáticos em todo o mundo. O El Niño deverá atingir seu pico no fim de 2015, voltando a abrandar no primeiro trimestre de 2016.

A expectativa é que o fenômeno deste ano seja o pior desde um registrado no fim dos anos 1990, que provocou uma grave seca em partes do sudeste da Ásia e inundações na América do Norte. O El Niño de 2015 pode afetar as exportações de arroz, originadas sobretudo na Ásia. A Índia, o maior exportador de arroz do mundo, teve uma temporada de chuvas abaixo da média nas monções deste ano, ampliando temores de que a produção ficará abaixo do normal. A extensão do impacto não será conhecida até que a Índia divulgue seus primeiros dados de produção, provavelmente na próxima semana.

Na Tailândia, a expectativa é que o clima seco e as altas temperaturas dificultem o crescimento do grão. As exportações de arroz do país entre 1º de janeiro e 20 de setembro caíram 18% em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Os mercados futuros já estão precificando uma recuperação nas cotações. Os futuros do arroz na Chicago Board of Trade, referência para os mercados internacionais, subiram 24,5% nos três meses encerrados na sexta-feira. Mas as cotações futuras mais altas ainda não influenciaram o mercado à vista: os preços de exportação do arroz tailandês 5% quebrado caíram quase 11% nos oito meses encerrados em 31 de agosto, enquanto que o arroz americano de grão longo caiu cerca de 10% durante o mesmo período, de acordo com dados sobre a exportação de arroz publicados pela FAO.

As lavouras da Índia e da Indonésia são a chave para o futuro dos preços do arroz, diz Sam Mohanty, economista sênior do Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz. Se as safras desses dois países forem menores que o normal, pode haver uma recuperação de 15% a 20% nos preços no próximo ano, prevê.

"Com a probabilidade de uma nova redução [da oferta] no mercado mundial este ano, isso deve começar a dar algum tipo de apoio para o preço [físico]", diz Hamish Smith, economista de commodities da Capital Economics, em Londres.

Grandes estoques de arroz têm mantido os preços baixos, mas eles estão em declínio. Os estoques de arroz dos cinco maiores exportadores do mundo – Índia, Tailândia, Paquistão, EUA e Vietnã – somaram 41 milhões de toneladas em 2012. Agora, a expectativa é que eles encolham para 30 milhões este ano antes de bater 22 milhões em 2016, o menor nível desde a crise do arroz em 2007 e 2008, afirma Mohanty.

Durante a crise de 2007 e 2008 os preços do grão quadruplicaram em quatro meses. Embora poucos esperem uma disparada de preços este ano, a combinação de condições climáticas desfavoráveis e estoques mais baixos cria riscos.

"Nós estaremos em uma situação muito pior no próximo ano, se tivermos um ligeiro distúrbio climático", diz Mohanty. "Estou mais preocupado com o declínio do nível de estoques nesses cinco [países exportadores], porque isso tem mantido o mercado estável."

O debate continua sobre se os estoques de arroz da Tailândia se deterioraram a um ponto que já não são próprios para consumo humano. No ano passado, o líder tailandês Prayuth Chan-ocha disse que apenas cerca de 10% dos 18 milhões de toneladas de arroz que herdou do governo do ex-líder Yingluck Shinawatra estava em boas condições.

A Tailândia acumulou grandes estoques de arroz depois de o país ter lançado um programa, em 2011, para comprar o grão de agricultores a preços até o dobro do praticado no mercado em uma tentativa agressiva para aumentar a renda rural e o consumo. O programa se desfez no início do ano passado, mas muito do arroz acumulado continua guardado em armazéns do governo.

Embora os estoques de arroz estejam encolhendo, os níveis atuais continuam limitando a possibilidade de aumentos de preços. A Nigéria, um dos maiores importadores de arroz do mundo, tem grandes estoques e o enfraquecimento de sua moeda está reduzindo as importações do país, diz Dawe, da FAO.

Por Lucy Craymer | The Wall Street Journal
Fonte : Valor

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