El Niño mais severo em 18 anos deixou estragos pelo campo

Após o El Niño ter alcançado seu auge em dezembro, já é possível avaliar as perdas que o fenômeno provocou na produção agrícola da África, do sudeste da Ásia e das Américas Central e do Sul. As culturas mais prejudicadas foram o cacau e açúcar, contribuindo para que os preços dessas commodities andassem na contramão das demais matérias-primas e subissem no ano passado.

O El Niño estabeleceu-se em maio de 2015, quando as temperaturas da superfície do Oceano Pacífico tropical ultrapassaram os limites de formação do fenômeno. As águas superficiais continuaram a aquecer até dezembro, fazendo com que o fenômeno fosse o mais forte dos últimos 18 anos.

O evento climático antecipou e fortaleceu os sazonais ventos Harmattan, que saem do deserto do Saara carregados de areia e rumam ao oeste da África, maior polo de cacau do mundo. "Há evidências de que eles estão muito mais fortes do que costumam ser", afirmou Edward George, diretor de pesquisa do Ecobank, em Londres. Por serem secos, os ventos reduzem a umidade disponível para os cacaueiros e prejudicam a produtividade.

A ocorrência dos ventos coincidiu com a redução das entregas de cacau nos portos da Costa do Marfim. No início da safra 2015/16, em outubro, o volume entregue superava em mais de 70% os montantes da safra anterior. Agora, estão 9% abaixo na comparação anual. "E as expectativas são de que as entregas no oeste da África continuarão a enfraquecer até fevereiro", indicou George.

As adversidades climáticas provocadas pelo El Niño no oeste da África tiveram impacto direto na formação de preços no mercado internacional já que a região é a origem de 70% da produção global de cacau. Desde o dia em que os preços atingiram o menor patamar em 2015, em 2 de fevereiro, até o fim do ano, os preços subiram 19,8%, segundo o Valor Data. Em 7 de dezembro, atingiram o maior patamar do ano, a US$ 3.417 a tonelada, o maior valor desde 2011.

Outras regiões da África também foram afetadas pelo El Niño. O fenômeno provocou seca no oeste e sul do continente. Próximo ao chifre da África, a estiagem já é a pior em 20 anos e prejudicou a safra de café arábica e de trigo da Etiópia, a de café robusta em Uganda e a produção de chás no Quênia. Na África do Sul, as lavouras de milho foram afetadas, e acredita-se que o país terá inclusive que importar o grão pela primeira vez desde 2008.

Como Etiópia e África do Sul respondem por 60% da produção africana de cereais e são importantes fornecedores para outros países africanos, as quebras de safra desses países devem reduzir a oferta no continente, segundo o analista do Ecobank.

Para a segurança alimentar, o problema deve ser amenizado porque os preços estão historicamente baixos, uma vez que os estoques globais estão abarrotados. "Mas muitos países têm problemas para acessar financiamento internacional, e com a desvalorização das moedas locais, os governos não querem gastar suas reservas", reflete George.

No sudeste da Ásia, o El Niño reduziu as chuvas típicas das monções, até meados do segundo semestre, e desde o fim do ano passado tem provocado precipitações fora de época. A seca inicial prejudicou as lavouras de cana-de-açúcar na Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar, e na Tailândia, segundo maior exportador mundial do produto, com efeitos negativos tanto para a safra que está sendo colhida (2015/16) como para a próxima, segundo João Paulo Botelho, analista de açúcar da consultoria FCStone.

"Há relatos de que a cana está com a aparência pior do que deveria estar" na Índia, afirmou o analista. O país deve encerrar a colheita em março, um mês antes do normal, com uma produção de 26 milhões de toneladas, recuo de 8% em relação à safra anterior, e caminha para uma produção de 25 milhões de toneladas na próxima, segundo a consultoria.

Na Tailândia, as plantações também foram prejudicadas, mas como houve aumento da área cultivda, a produção deve cair apenas 1,7%, para 11,4 milhões de toneladas, na avaliação da FCStone.

A sequência de seca e chuvas na também afetou as lavouras de arroz da Tailândia, maior exportador global do produto. Conforme o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a safra tailandesa terá uma perda de 12,5%, para 16,4 milhões de toneladas. Porém, o órgão estima que as exportações vão inclusive aumentar, em 11%, para 10,3 milhões de toneladas.

A falta de umidade ainda afetou a produtividade das lavouras de cacau e palma na Indonésia. Porém, no caso da palma houve aumento de área plantada, o que deve compensar as perdas e levar a uma produção de 33 milhões de toneladas de óleo de palma. Já a produção de cacau deve ficar em 320 mil toneladas. O país é o maior produtor global de óleo de palma e terceiro maior da amêndoa.

Quarto maior produtor global de café, a Indonésia teve suas lavouras de arábica ligeiramente afetadas pelas chuvas abaixo da média, mas as de café robusta foram beneficiadas pelo clima durante o florescimento, resultando em um recorde de produção de 10,6 milhões de toneladas de café nesta safra de 2015/16.

O El Niño também deixou suas marcas na América Central. O fenômeno provocou seca na entressafra de cana, prejudicando o desenvolvimento das plantas, e precipitações recentes, atrapalhando a colheita. Como resultado, a safra da Guatemala, maior produtor de açúcar da região, deve cair 4%, para 2,85 milhões de toneladas, estima a FCStone.

Para a produção de café da região próxima ao Caribe, os efeitos foram menores. Nos cálculos do USDA, a seca provocada pelo El Niño na Colômbia teve "impactos mínimos" na safra de café arábica do país (terceiro maior produtor global), já que houve um forte programa de replantio. Tanto que a safra de 2015/16 deve ser a maior desde o início de 1990, de 13,4 milhões de sacas.

Na Oceania, o El Niño afetou a produção de trigo da Austrália e a de leite na Nova Zelândia. A expectativa é de uma queda de até 6% na produção de leite, inicialmente estimada em 21 bilhões na de litros na safra. "Faltou chuva desde setembro de 2015 nas principais regiões de produção", disse Valter Galan, da consultoria MilkPoint. Preços baixos e abate de vacas também explicam a menor produção de leite no país, acrescentou. (Colaborou Alda do Amaral Rocha)

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo
Fonte : Valor

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