‘Efeito Macri’ deve favorecer produção argentina de trigo

Anestesiada por uma política intervencionista que dura anos, a produção de trigo e de outras commodities agrícolas na Argentina poderá voltar a crescer na esteira de um governo mais liberal. A eleição de Maurício Macri para a presidência do país é vista como positiva para o setor moageiro do Brasil, altamente dependente da importação do cereal. Para os produtores brasileiros de trigo, porém, será o retorno à ativa do maior competidor, o que pode espremer o espaço do cereal nacional, que cresceu nos últimos anos.

política de controlar e tributar pesadamente a exportação de alimentos consolidada no governo da Cristina Kirchner provocou nos últimos anos um declínio da safra argentina de trigo. No auge, o país vizinho chegou a colher 18,6 milhões de toneladas do cereal e a exportar mais de 11 milhões. Mas, desde então, o desestímulo no campo levou a produção a patamares cada vez menores. Na safra 2015/16, foram 10,5 milhões de toneladas, de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

Com isso, os argentinos deixaram de atender toda a demanda por trigo do Brasil, que passou a buscar o cereal de outros fornecedores, como EUA e Canadá, a custos mais elevados. Nesse contexto, o cereal brasileiro, mais barato, acabou ganhando mais importância na estratégia de suprimento dos moinhos locais.

Se o país vizinho voltar a produzir volumes superiores a 16 milhões de toneladas (média das últimas cinco safras antes de 2008/09), a disponibilidade do cereal para exportação seria da ordem de 10 milhões de toneladas anuais, quase um ano inteiro de consumo no Brasil.

Esse aumento da safra, no entanto, não deverá superar 13 milhões de toneladas, na visão do diretor técnico da Organização das Cooperativas do Paraná (Ocepar), Flávio Turra. "E não acredito em efeito negativo aos produtores do Paraná, que continuarão ter a vantagem do frete. O que vai acontecer é que o Brasil vai importar mais do Mercosul e menos dos Estados Unidos e Canadá", defendeu Turra.

No mercado também há o receio de que o governo brasileiro tenha que voltar a intervir para ajudar na comercialização do cereal nacional, em épocas de perdas de qualidade, como vem ocorrendo nas últimas duas safras. A última vez que isso ocorreu em um montante mais elevado foi no ciclo 2009/10, quando foram desembolsados pelo governo R$ 272 milhões para equalizar o preço de 3,6 milhões de toneladas do cereal, ou 72% da safra. "Nos últimos dois anos, as cotações internacionais em alta e o câmbio ajudaram o produtor a vender, inclusive trigo com problema de qualidade. Mas com maior oferta da Argentina, o cereal brasileiro pode ter menos espaço no mercado", disse uma fonte que pediu anomimato.

De qualquer forma, a indústria moageira do Brasil vê mais benefícios do que simplesmente o aumento da exportação argentina do cereal, que nos últimos oito anos oscilou muito – de 2,2 milhões a 12,9 milhões de toneladas.

As duas promessas de Macri relacionadas à liberação de exportações – retirar imposto e por fim aos registros de exportação – devem trazer dois efeitos aos moinhos brasileiros, na medida que eliminariam duas formas de subsídios à indústria do país vizinho, disse o presidente da Abitrigo, Sérgio Amaral.

O primeiro, mais factível de ocorrer no curto prazo, é a eliminação do imposto de exportação. A consequência seria uma menor retenção do trigo no mercado argentino. Com isso, os preços domésticos não seriam tão pressionados para baixo. "Essa política contribui para que a indústria moageira da Argentina consiga adquirir a matéria-prima a preços artificialmente mais baixos do que os moinhos brasileiros", afirmou.

O segundo tipo de subsídio, segundo o presidente da Abitrigo, é o diferencial entre o imposto de exportação da farinha – de 13% – e o do trigo, que é de 23%. "Essa diferença promove a exportação da farinha em detrimento da de trigo", explica Amaral. "Acredito que essas medidas devam ser efetivadas num intervalo de um a dois anos", estimou o presidente da Abitrigo.

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Por Fabiana Batista | De São Paulo
Fonte : Valor

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