Economia de Minas pode encolher 1,5 PIB até 2050 devido ao clima, diz estudo

A economia de Minas Gerais sofrerá perdas entre R$ 155 bilhões a R$ 450 bilhões até 2050, em função das mudanças climáticas. O norte do Estado, região mais carente, sofrerá mais. A agropecuária é o setor mais sensível. O desmatamento pode aumentar em até 40%, dependendo do cenário climático. A indústria também está sob ameaça. Esse quadro, nada animador, faz parte do primeiro estudo estadual sobre impactos econômicos da mudança do clima e que colocou em foco a economia mineira.

"São perdas consideráveis, mas são perdas silenciosas. E isso produz uma dificuldade a mais de conscientizar a sociedade para o problema", diz Eduardo Amaral Haddad, um dos coordenadores do estudo. O trabalho, feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), analisou o impacto da mudança do clima nas 65 microrregiões mineiras levando em consideração os cenários do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, das Nações Unidas. Na previsão mais pessimista, o aumento de temperatura pode bater em 50 C; em outro, os aumentos de temperatura se situariam entre 20 C e 40 C no fim do século.

O estudo não levou em consideração eventuais mudanças no Código Florestal e nem as perdas com eventos extremos como as chuvas intensas que castigaram Minas no último verão. "Por isso dizemos que nossas conclusões são conservadoras", registra o professor Haddad, diretor de pesquisas da Fipe.

A conclusão é que a economia mineira encolherá meio PIB, na melhor das hipóteses, ou 1,5 PIB, em relação aos valores de 2008. "Para parte significativa do Estado, as perdas apontadas representam o equivalente a mais de dois anos de crescimento", diz o estudo. "É como se os efeitos das mudanças climáticas paralisassem, na margem, o crescimento econômico em algumas regiões por mais de dois anos nos próximos 40 anos."

As regiões mais vulneráveis são as mais carentes, localizadas no norte de Minas, no vale do Jequitinhonha/Mucuri, no noroeste e no Triângulo Mineiro. A tendência é a agricultura extrativista, feita no norte, ser substituída por uma pecuária de baixíssima produtividade e complicar mais a região, diz o pesquisador.

O impacto no custo dos alimentos vai se somar a um custo maior na produção de energia – a estimativa é de uma redução de aproximadamente 30% na produção de energia firme, diante do menor volume de água nos reservatórios – e os efeitos alcançarão a indústria e o setor de serviços. A tendência é de migração maior das regiões mais vulneráveis para os centros urbanos.

Os efeitos da mudança do clima não são homogêneos no Estado, registra o trabalho. A cultura da cana deve se beneficiar do aumento da temperatura. Em outra ponta, a pressão nos remanescentes florestais vai aumentar de 35% a 40%. "Isso em função da mudança no uso da terra", esclarece o professor Edson Paulo Domingues, da Universidade Federal de Minas Gerais e um dos autores do trabalho.

A "Avaliação de Impactos de Mudanças Climáticas sobre a Economia Mineira" teve como ponto de partida um trabalho de maior envergadura, iniciado em 2007 ("Estudo Econômico das Mudanças Climáticas no Brasil"), financiado pelo governo britânico e que identificou as principais vulnerabilidades da economia brasileira ao fenômeno. "Minas Gerais resolveu colocar uma lupa naqueles resultados e identificar o que pode acontecer em cada pequena região do Estado", diz Haddad.

O trabalho será agora estudado por várias secretarias estaduais mineiras, diz Janaina França dos Anjos, diretora de pesquisa e desenvolvimento da Feam. "Podemos desenvolver políticas públicas para tentar reduzir os impactos nas regiões mais afetadas e evitar, por exemplo, a migração", adianta.

Fonte: Valor | Por Daniela Chiaretti | De São Paulo

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