ECONOMIA – Com alta capacidade e falta de peças, indústria de máquinas atrasa entregas

Ainda assim, setor vem se recuperando dos efeitos da pandemia e vive momento de demanda aquecida e expectativa de crescimento para 2021

Máquinas agrícolas usadas podem custar até 50% menos em relação às novas (Foto: Shutterstock)

Com dificuldades na entrega, máquinas agrícolas usadas têm registrado alta na procura e podem custar até 50% menos em relação às novas (Foto: Shutterstock)

A falta de peças e componentes para a indústria de máquinas e implementos agrícolas tem provocado atraso nas entregas e aumento de preços dos equipamentos, diante de um mercado bastante aquecido. Ainda assim, os números apontam para uma recuperação do setor em relação ao ano passado e para um cenário otimista que deve se estender também para 2022, segundo o presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas (CSMIA) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Implementos (Abimaq), Pedro Estevão Bastos.

Só no primeiro trimestre de 2021, o faturamento médio mensal da indústria chegou a R$ 2,4 bilhões. “A hipótese é que chegamos ao máximo da capacidade da indústria. Se continuarmos nesse ritmo bastante intenso, a previsão é que teremos um aumento de 20% no faturamento do ano, que é muito bom. O mercado (de máquinas agrícolas) vai continuar aquecido enquanto os fundamentos durarem, que é o real desvalorizado frente ao dólar e commodities com preço alto, e deve continuar em 2022 a todo vapor”, afirma.

E, apesar dos atrasos, Bastos destaca que a indústria de máquinas entregou 60% a mais no primeiro trimestre deste ano em comparação ao mesmo período do ano passado, quando ainda não eram sentidos os efeitos da pandemia no Brasil.
De acordo com dados divulgados na última quarta-feira (28/4) pela Abimaq, a carteira de pedidos da indústria de máquinas em geral encontra-se 26,3% acima do nível observado em março de 2020, equivalente a 12 semanas. Nas agrícolas, a carteira está em 11 semanas. No ano passado, segundo Bastos, havia caído para 5 semanas.

Fabricantes

Segundo Luis Felli, vice-presidente sênior da AGCO Corporation & head global da Massey Ferguson, a indústria tem sido fortemente impactada pela falta de peças desde julho do ano passado. “Faltam componentes eletrônicos, aço, borracha e plástico. Isso ocorre por conta da retomada de alguns setores da indústria, que demandam matérias-primas e peças de outros segmentos que exigem mais tempo para produção”, diz o executivo do grupo que, além da Massey, abriga a Valtra.
Felli conta que o prazo de entrega médio das indústrias, que era de 60 dias, chega a 150 dias e os concessionários estão com estoque reduzido para atender a demanda. Além disso, as indústrias estão com sua capacidade produtiva “tomada” até o fim do segundo semestre.
O executivo não revela percentual de aumento de tratores e colheitadeiras, mas diz que os reajustes constantes de preços pressionam os custos, e a indústria não tem outra saída a não ser repassar para o produtor. “Mesmo assim, a relação de troca se mantém muito favorável para o produtor rural, já que ele está bem remunerado e tem condições de absorver custos, com ganhos nos preços de soja e milho acima dos reajustes de insumos”, salienta.

"O mercado (de máquinas agrícolas) vai continuar aquecido enquanto os fundamentos""

Pedro Estevão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Abimaq

Fabricantes nacionais enfrentam os mesmos problemas. Camilo Ramos, CEO da Piccin Máquinas Agrícolas, diz que os maiores entraves são a incapacidade da indústria brasileira de suprir a demanda por pneus e o aumento de preço do aço, que chegou a 104% desde junho de 2020. A empresa de São Carlos (SP), que fabrica distribuidores de nutrientes, grades niveladoras e aradoras, entre outros equipamentos, passou a importar pneus da Índia para cumprir seus contratos e estendeu seu prazo de entrega de 35 dias para 150 dias.
Segundo Ramos, as máquinas da empresa tiveram aumentos de até 70% por conta do repasse dos custos, mas a demanda permanece alta, com a carteira de pedidos fechada até outubro. A Piccin, que fechou 2020 com um faturamento de R$ 110 milhões ante os R$ 77 milhões de 2019, espera faturar R$ 170 milhões neste ano.

Marcio Leão, diretor comercial da TMA, empresa fundada em Ribeirão Preto (SP), em 2007, pelo grupo Tracan para atender a demanda do setor sucroalcooleiro, diz que tem sido necessário muita resiliência e inovação para cumprir contratos neste ano. A TMA passou a desenvolver e homologar peças com parceiros nacionais para substituir as importadas, como o martelete do triturador, que vinha da Itália.
“Além do preço subir demais, os italianos estão pedindo 12 meses para entregar a peça”, diz. Os materiais hidráulicos que vinham da Alemanha também estão sendo substituídos por equipamentos desenvolvidos e fabricados por fornecedores nacionais.
Por causa da falta de pneus no mercado brasileiro, a indústria que tem como carro-chefe transbordos para cana com capacidade para 40 toneladas passou a oferecer às usinas o equipamento com a opção de pneus radiais, que são bem mais caros. “Outra alternativa que oferecemos é montar os transbordos com pneus da própria usina, novos ou usados. Nesse caso, abatemos o preço dos pneus, é claro”, destaca Leão.

"A relação de troca se mantém muito favorável para o produtor rural, já que ele está bem remunerado e tem condições de absorver custos""

Luis Felli, vice-presidente sênior AGCO

Sobre o aumento de preços das máquinas, ele diz que, desde o início do ano, já teve que alterar a tabela quatro vezes. Em média, os valores subiram 32% em quatro meses. Mas não afetaram as vendas. A TMA está com a carteira fechada até o fim de agosto e os pedidos que entrarem em produção a partir de setembro só poderão ser entregues em 2022. O diretor comercial revela que não assina mais contratos de venda com multa estipulada por atraso, prática que era comum no mercado. “Nem os fornecedores assinam contratos assim agora”, diz Leão.
Em 2020, a indústria cresceu de 5% a 10% e para este ano a previsão é de um aumento de pelo menos 10% no faturamento. Enquanto Luis Felli, da AGCO, estima que o setor vai se normalizar no segundo semestre, Leão diz que a situação só deve começar a melhorar nos últimos meses do ano, “se tudo correr bem”.

Usados

A alta nos preços das commodities no mercado internacional e o dólar valorizado frente ao real têm estimulado ainda o mercado de máquinas agrícolas usadas. Entre janeiro e abril, o Grupo MF Rural observou uma procura acima do comum por tratores, colheitadeiras e outros maquinários usados em sua plataforma de marketplace dedicada ao produtor rural. Na comparação com o mesmo período de 2020, em volume, o crescimento é estimado em 70%.
“Quem precisa com urgência acaba recorrendo às máquinas usadas em boas condições de trabalho, principalmente quando ofertadas na região de interesse”, observa o empresário Roberto Fabrizzi Lucas, chairmen do Grupo MF Rural.
Segundo ele, os tratores e equipamentos agrícolas usados podem ser até 50% mais baratos na comparação com os novos.

ALANA FRAGA E ELIANE SILVA

Fonte : Globo Rural

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