Dívida elevada põe Heringer às portas de venda ou recuperação

Evandro Monteiro/Valor

A funcionários, o empresário Dalton Carlos Heringer disse que as contas da companhia foram bloqueadas pela Justiça

Com uma dívida líquida de mais de R$ 1 bilhão e dificuldades para honrar o passivo de curto prazo, a Fertilizantes Heringer iniciou uma reestruturação que pode culminar em um pedido de recuperação judicial, segundo analistas e fontes da indústria que conhecem a empresa.

"A situação da Heringer é a seguinte: ou vende ou entra em recuperação [judicial]. Não há saída", disse uma fonte da indústria que preferiu não se identificar. Procurada pelo Valor, a Heringer informou, por meio da área de relações com investidores, que anunciará novidades sobre o plano de reestruturação ainda esta semana. A empresa não fez comentários específicos sobre eventual pedido de recuperação judicial.

"De fato, existe um processo de reestruturação em curso, porém não gostaríamos de divulgá-lo até que todas as variáveis tenham sido mensuradas e possamos, assertivamente, informar o mercado. A reestruturação passa pela diminuição do número de plantas e por outras medidas saneadoras que serão divulgadas durante a semana", respondeu a Heringer, por e-mail.

A situação financeira da Heringer, que fatura mais de R$ 4,5 bilhões ao ano, é delicada. De acordo com dados do Valor Data, o capital de giro da companhia estava negativo em R$ 1,3 bilhão ao fim do terceiro trimestre do ano passado. Na prática, a companhia vem queimando o caixa e só teria condições de quitar as dívidas de curto prazo (que vencem em até um ano) com a venda de ativos.

O quadro já afeta clientes. Há casos de produtores que não receberam cargas de fertilizantes que já haviam sido pagos, disse uma fonte. Um pecuarista afirmou à reportagem que, na semana passada, o caminhoneiro que buscaria o fertilizante encomendado encontrou o armazém da companhia fechado.

Aos investidores, as dificuldades da Heringer só haviam sido comunicada de forma parcial. Em teleconferência com analistas em novembro, o então diretor financeiro da companhia, Rodrigo Rezende, anunciou o plano de fechar plantas. Na ocasião, a empresa revelou que entregaria neste ano três unidades que estavam alugadas – em Patos de Minas (MG), Bebedouro (SP) e São João do Manhuaçu (MG).

Mas o movimento de reestruturação foi muito além das três unidades. A companhia fechou pelo menos oito fábricas, apurou o Valor.

A decisão de fechar fábricas foi comunicada aos funcionários pelo presidente da empresa, Dalton Heringer, em 31 de janeiro. Na mensagem, o empresário afirmou que as contas da companhia haviam sido bloqueadas em decorrência de medidas judiciais tomadas por credores. Em meio ao bloqueio judicial, a companhia reconheceu atraso nos salários. E não há data estipulada para que os funcionários recebam.

De acordo com os destinatários do e-mail, ao qual o Valor teve acesso, receberam a notificação as unidades de Pato de Minas (MG), Três Corações (MG), Rio Verde (GO), Porto Alegre (RS), Paranaguá (PR), Dourados (MS), Rondonópolis (MT) e Rosário do Catete (SE). Fontes de indústria apontam, ainda, para o fechamento das plantas de Rio Grande (RS) e Uberaba (MG).

"Pedimos, por gentileza, que, caso algum cliente, fornecedor ou a imprensa entre em contato com qualquer um de vocês, com questionamentos sobre a reestruturação da empresa, ninguém que não esteja autorizado dê declarações em nome da Heringer", solicitou a empresa.

A reestruturação em curso também atingiu o alto escalão. Na semana passada, Rodrigo Rezende e Pedro Ferreira renunciaram aos cargos de diretor financeiro e de relações com investidores e controladoria e diretor de suprimentos e logística, respectivamente.

Fundada em 1968, a Heringer detém cerca de 15% do mercado brasileiro de fertilizantes, só atrás da norueguesa Yara, da brasileira Fertipar e da americana Mosaic. Com sede em Viana (ES), a companhia abriu o capital na B3 em 2007 e sempre atraiu o interesse de estrangeiros. Em 2015, a marroquina OCP comprou 10% da participação na Heringer. No mesmo ano, a canadense Nutrien – oriunda da fusão entre a Potash e a Agrium – adquiriu uma fatia de 9,5% do capital.

No mercado, há quem diga que a Nutrien é a favorita para adquirir a Heringer. A russa EuroChem também teria interesse. "A Nutrien quer chegar a 30% do mercado brasileiro e o negócio estava praticamente fechado", disse uma fonte. Para um advogado, dada a situação financeira, a recuperação judicial pode ser necessária para renegociar o passivo antes de qualquer mudança no controle acionário. "A dívida é tão grande que uma recuperação pode acontecer antes da venda", afirmou a fonte.

Por Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte: Valor

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