Dívida adiou aquisição da Doux pela JBS

Régis Filho/Valor / Régis Filho/Valor
"Comecei olhando para comprar. Mas se não resolvêssemos agora, a empresa colapsava", disse o presidente da JBS

Anunciado na sexta-feira, o arrendamento por dez anos com opção de compra dos ativos da Doux Frangosul no Brasil pela JBS só não se transformou em aquisição imediata por uma questão de prazos. O problema era a dívida financeira de quase R$ 500 milhões da subsidiária da multinacional francesa no país, impossível de ser negociada com os bancos credores a tempo de evitar o colapso total das operações.

"Comecei olhando para comprar, mas se não resolvêssemos agora a empresa colapsava porque não tinha mais caixa para pagar os funcionários nem a alimentação das matrizes", disse o presidente da JBS, Wesley Batista. "Não dava tempo para negociar o endividamento".

O arrendamento, assinado na quinta-feira, também marcou a estreia da JBS no segmento de frangos no país e aumentou em 15% a sua capacidade de produção de aves no mundo. O volume alcança agora 9 milhões de cabeças por dia, incluindo as unidades nos Estados Unidos, México e Porto Rico, incorporadas na aquisição da americana Pilgrim’s Pride, em 2009.

A dívida bancária da Doux Frangosul continua sob responsabilidade do grupo francês, mas débitos de R$ 30 milhões com 1,5 mil criadores integrados de aves e de mais R$ 20 milhões com prestadores de serviços serão liquidados em até 60 dias. O montante será descontado do valor do arrendamento pago pela JBS, que não foi divulgado. "Queremos ver se é possível pagar alguma coisa no fim da próxima semana", disse Batista.

De acordo com ele, a JBS vai investir R$ 300 milhões no negócio em seis meses, incluindo pagamento de dívidas e capital de giro. O grupo também vai incorporar os 6 mil funcionários da Doux Frangosul no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso do Sul. Parados desde o início de abril, os frigoríficos de aves da empresa em Montenegro e Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, voltarão a operar entre os dias 15 e 20 de junho. Antes disto, na próxima quarta-feira, o grupo vai reativar os alojamentos de pintos com os criadores integrados.

A planta de Caarapó (MS), que vem operando em apenas um turno, deve retomar o ritmo normal a partir de 5 de junho, disse o presidente da recém constituída divisão JBS Aves Brasil, James Cleary. Segundo Batista, em meados de junho a JBS estará abatendo 840 mil frangos por dia, até chegar à capacidade plena de 1,1 milhão, em setembro.

A maior unidade é a de Passo Fundo (com capacidade de 550 mil frangos por dia), seguida pela de Montenegro (450 mil), onde fica a sede da empresa, e de Caarapó (160 mil). Os ativos arrendados incluem ainda fábricas de produtos processados em Montenegro e Passo Fundo com capacidade de 212 toneladas por dia, além de unidades de produção de ração e incubatórios.

A JBS também assumiu a operação do frigorífico de suínos em Caxias do Sul (RS), que está abatendo 3 mil cabeças por dia. A unidade está produzindo exclusivamente para a BRF, que havia tentado adquirir a planta, mas foi impedida pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e acabou assinando um contrato de prestação de serviços com a Doux Frangosul. O acordo será rediscutido com a BRF.

Conforme Cleary – um irlandês radicado no Rio Grande do Sul que comandava o frigorífico Pampeano, em Hulha Negra – até a empresa ser adquirida pela Marfrig, em 2007, a JBS pretende manter 75% da produção de aves destinada à exportação. "Com o câmbio nos patamares atuais e os preços internacionais se recuperando, estamos no momento ideal para entrar no mercado", acrescentou o diretor de relações com investidores do grupo, Jeremiah O’Callaghan.

A crise da Doux Frangosul estourou em 2009, depois que a crise internacional derrubou o consumo de carnes no mercado internacional. Desde então, a empresa aumentou o endividamento, passou a atrasar os pagamentos aos integrados (em alguns momentos em até 150 dias além do prazo normal) e várias vezes deixou de entregar ração para os animais. Em 2010, o faturamento bruto foi de R$ 1,5 bilhão, 15% a menos do que no ano anterior, segundo o último balanço publicado.

Os primeiros contatos do controlador da Doux, Charles Doux, com a JBS ocorreram há dois anos. Na época, o francês queria vender os ativos na França e no Brasil, mas o grupo brasileiro não tem interesse em operar no segmento de aves na Europa, disse Batista. Depois disso, segundo ele, a JBS foi procurada há dois meses pelo banco Santander, mandatado para intermediar o negócio, que acabou sendo fechado na semana passada, na França. Na sexta-feira, as ações ordinárias da JBS fecharam em queda de 1,75%, acompanhando a tendência do mercado.

Fonte: Valor | Por Sérgio Ruck Bueno | De Montenegro (RS)

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