Doux mata a galinha dos ovos de ouro

O ano era 1998. O mercado brasileiro já dava como certa a chegada da multinacional francesa Doux ao Brasil. Dava como certo também que o bote seria na Seara, na época controlada pelo Grupo Bungue, cujo interesse em sair do mercado de carnes já era público. Nada disso, Charles Doux mirou a Frangosul, bem menor do que a Seara, mas enxuta e com uma plataforma exportadora já sedimentada. A surpresa foi geral. O gaúcho sempre torceu o nariz para multinacionais que abocanham empresas nascidas no pago. Acabou se acostumando. Depois foi a Avipal, comprada pela Perdigão, mais tarde a Excelsior, adquirida pela Sadia, e tantas outras dos mais variados segmentos. A venda da Frangosul dava início à consolidação do segmento de carnes, movimento que consiste na formação de grandes players para brigar por fatias em um mundo globalizado que deixa cada vez menos espaço para os pequenos.
Não demorou muito para o sotaque francês se misturar ao “gauchês” e novamente voltamos a nos orgulhar da Frangosul que, então, passou a carregar o Doux no nome, embora, para a maioria, uma vez Frangosul, sempre Frangosul. O interesse de Charles Doux era ampliar a base exportadora já consolidada, aumentando os embarques para a Europa, onde o grupo desponta como um grande fornecedor de carnes. Os primeiros anos foram de desafios, a Doux importou ovos fertilizados de perus para iniciar a produção aqui, implantou linhas de empanados, solidificou a marca Lebon – sinônimo de embutidos de qualidade – e introduziu novos produtos e marcas.
Tudo parecia bem, até a crise atingir suas operações na Europa. Começava então o desmanche do legado que o grupo familiar Müller (do atual presidente da Fiergs, Heitor Müller) iniciou em julho de 1974. Para salvar as operações na França, messiê Charles Doux teria aumentado a remessa de lucros para a matriz em detrimento do cumprimento de obrigações com seus públicos no Brasil. Os atrasos esporádicos começaram há dois anos até se tornarem crônicos. Há pelo menos seis meses deposita pequenas importâncias para poucos. A empresa vem desrespeitando sistematicamente acordos firmados com os produtores, ou seja, define um calendário para colocar as contas em dia e finge que esquece as datas.
O Ministério Público investiga remessas e operações triangulares com a matriz suspeitas de irregularidades. Produtores entram na Justiça para garantir direitos. E, a tudo isso, a empresa age como se nada fosse com ela. Desdenha do produtor, ignora o drama de 2,2 mil integrados que dependem da remuneração de seu trabalho para sustentar suas famílias – e para continuar produzindo para a própria Doux. Ou seja, mata a galinha dos ovos de ouro – a expressão, no caso, não poderia ser mais apropriada. Como se não bastasse, a Doux jamais veio a público explicar o que está acontecendo e que providências estão sendo tomadas. Simplesmente não paga. E ponto.
Por todas as posições que se têm recolhido no mercado, é forçoso admitir que a Doux não tem condições de se reerguer sem um robusto aporte de capital, algo que dificilmente encontrará no sistema financeiro. A solução, portanto, seria uma parceria com alguma empresa disposta a injetar recursos nos cofres combalidos da empresa e melhorar sua gestão, ou a venda da totalidade dos ativos brasileiros, o que, parece, seria o mais adequado.

Fonte: Jornal do Comércio

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