Dólar trava vendas antecipadas de soja

Folhapress

Lavoura de soja no Paraná; produtor espera alta no preço do grão para vender

Ainda que as estimativas apontem para uma colheita recorde de soja no Brasil nesta safra, superior a 103 milhões de toneladas, os produtores parecem estar sem pressa de vender. A comercialização antecipada está em ritmo mais lento que a média histórica, e as razões para isso são o câmbio desfavorável e a situação financeira mais tranquila do produtor em várias regiões do país.

Conforme a consultoria AgRural, 34% da soja a ser colhida a partir deste mês havia sido negociada até dezembro, ante 44% no mesmo período da safra 2015/16 e 40% da média histórica. A Agroconsult estima um percentual de vendas de 50%, abaixo da média de 60% para o período.

Os preços da soja em real estão atualmente muito abaixo do ano passado, apesar de em dólar estarem semelhantes, o que desestimula a comercialização. Isso porque o dólar valia cerca de R$ 4 em janeiro de 2016 e hoje está na casa dos R$ 3,20. Como consequência, a saca de soja estava em R$ 76,49 no porto de Paranaguá ontem, conforme o indicador Cepea/BM&FBovespa. Em 15 de janeiro de 2016, o preço era R$ 84,42.

"Esta retração assusta os produtores, que ficam reticentes em vender. Além disso, eles estão capitalizados, como resultado dos preços recordes da soja no ano passado", diz Glauco Monte, analista da FCStone. A soja chegou a valer R$ 100 no porto de Paranaguá em junho de 2016, reflexo da escassez de grão naquele período e do câmbio.

A melhora na relação de troca entre fertilizantes e soja é outro fator que faz o produtor ter menos pressa para vender, observa Monte. Os insumos, principalmente os adubos, caíram no mercado internacional no ano passado. Como esses produtos são cotados em dólar, o recuo da moeda americana ante o real aliviou as contas do produtor.

"A gente observa que o produtor começa a fazer a comercialização antecipada para travar os custos. Para além do custo, se não estiver um preço atrativo, ele não negocia", concorda Daniel Latorraca, superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Em outubro de 2016, segundo a consultoria MacroSector, para comprar uma tonelada de fertilizante, o produtor precisava de 19,6 sacas de soja, abaixo das 22,8 sacas necessárias, em média, para adquirir o insumo em 2015.

O produtor Láercio Pedro Lenz, ex-presidente do Sindicato Rural de Sorriso, no norte de Mato Grosso, é um exemplo de como essa relação de troca baliza as decisões de venda. Ele negociou cerca de 40% do que espera colher nesta safra (120 mil sacas ou 7,2 mil toneladas), apenas para pagar seus custos com o plantio. "Não fiz mais porque o dólar começou a cair e já consegui pagar meus compromissos financeiros", afirma.

Lenz está na região do país onde os produtores estão mais capitalizados, em decorrência dos bons preços em 2016, e onde as vendas antecipadas estão nos menores patamares. Ele estima que Sorriso – um dos principais polos do agronegócio brasileiro -, negociou entre 45% e 50% da produção de soja, sendo que grande parte foi na modalidade de barter (troca de soja por insumos). A média histórica para a região nesta época é de 55%.

O produtor fechou seus contratos ao preço médio de R$ 68 por saca e, hoje, o mercado oferece R$ 61. "Neste preço não vou vender. Não estou com pressa", afirma.

Conforme o Imea, Mato Grosso comercializou até dezembro 47,46% do potencial de produção, 11,21 pontos percentuais a menos que no mesmo período da safra 2015/16.

No Paraná, segundo maior produtor de soja do país, a comercialização também está abaixo da média. De acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral), ligado à Secretaria de Agricultura do Estado, 13% do total a ser colhido foi negociado até dezembro, ante 33% no mesmo período de 2015 e 25% de média histórica. No Paraná, os produtores também estão capitalizados e preferem correr o risco do câmbio. "É sempre uma loteria. O produtor está sempre arriscando", diz o economista do Deral Marcelo Garrido.

Realidade na maior parte das regiões produtoras de soja do país, a comercialização mais lenta não ocorre na região conhecida como Matopiba (confluência entre os Estados de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). Lá, a negociação está próxima a 40%, em linha com a média histórica, segundo a Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba).

O motivo é que essa região sofreu com seca nas quatro últimas safras, o que afetou os ganhos dos produtores. "Eles precisam vender a soja para arcar com as despesas de plantio", afirma Luiz Stahlke, assessor de agronegócio da Aiba.

O comportamento dos preços e quando o produtor irá acelerar as vendas de soja são incógnitas. "A super-safra do Brasil deve pressionar as cotações em Chicago, mas isso já deveria estar ocorrendo. Por outro lado, a demanda nunca esteve tão aquecida, então, há um equilíbrio", diz Glauco Monte, da FCStone.

Resta ainda observar o câmbio. Para o analista, algumas decisões do presidente eleito dos EUA, Donald Trump, devem definir se o dólar vai subir ou recuar ante o real. "Quem puder esperar, vai pegar picos de preços. Quem não tiver espaço para armazenar a soja, terá que vender", resume Monte.

 

Por Fernanda Pressinott e Kauanna Navarro | De São Paulo

Fonte: Valor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.