Dólar eleva resultado operacional e reduz lucros

Claudio Belli/Valor / Claudio Belli/Valor
Kakinoff, CEO da Gol, aumentou oferta de voos internacionais, denominados em dólar, para compensar impacto da moeda americana mais cara sobre custos

As exportadoras de commodities serão o destaque da temporada de balanços do quarto trimestre, que começa amanhã com a divulgação da Cielo. Os resultados operacionais serão beneficiados pelo impacto do real mais fraco sobre as receitas. No saldo final, no entanto, a moeda americana mais cara deve pressionar o resultado financeiro e reduzir os lucros.

O trimestre será uma síntese do que foi 2013. No ano, empresas voltadas ao mercado externo se recuperaram, enquanto companhias que têm como foco o mercado doméstico ficaram com ganhos praticamente estáveis, após anos em destaque. Com o maior peso das exportadoras, a expectativa do BTG Pactual é que o lucro das empresas listadas em bolsa tenha subido 14,1% no acumulado do ano passado, para R$ 157 bilhões, retomando algum fôlego depois do tombo de 18,8% nos ganhos em 2012.

Entre o fim de setembro e o último dia do ano, o dólar Ptax – utilizado como base para contratos financeiros – subiu 5%, para R$ 2,34. A dívida em moeda estrangeira é corrigida pela cotação do último dia de cada período e a diferença será contabilizada, no trimestre como perda financeira nos últimos três meses do ano. Ainda que não haja efeito sobre o caixa, já que a maior parte dos pagamentos ocorre apenas no longo prazo, a tendência é de redução na última linha do balanço.

O setor de celulose sintetiza bem o cenário para o quarto trimestre. A expectativa do Deutsche Bank é que o dólar mais caro associado a reajustes de preços da commodity levem o resultado antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, em inglês) da Fibria a uma alta de 7,6% em relação ao quarto trimestre de 2012, para R$ 810 milhões. O impacto do câmbio sobre a dívida, contudo, deve fazer com que a companhia feche o período com prejuízo de R$ 129 milhões, contra ganhos de R$ 46 milhões um ano antes.

Na mesma linha, a previsão do Goldman Sachs é que a mineradora Vale apresente o melhor resultado operacional desde 2011, com Ebitda de R$ 5,94 bilhões, alta de 59%. A correção da dívida pelo câmbio e baixas contábeis por conta da adesão da empresa ao Refis e da reavaliação do valor de ativos na Argentina devem levar a mineradora a um prejuízo líquido de R$ 9,08 bilhões no período, muito mais que as perdas de R$ 2,65 bilhões de um ano antes.

O câmbio também deve ditar o desempenho de empresas com foco no mercado interno, como é o caso das siderúrgicas. A moeda americana mais cara diminuiu a concorrência com o aço importado no mercado interno, permitindo reajustes de preços. Com isso, a expectativa é que Usiminas e CSN tenham continuado em sua trajetória de recuperação no fim do ano passado, afirma Victor Penna, analista do BB Investimentos.

Segundo ele, as siderúrgicas devem continuar a se beneficiar da trajetória de redução de custos verificada nos trimestres anteriores, o que deve se refletir em novos ganhos de margens. "Depois de muito tempo no vermelho, Usiminas e CSN voltarão a apresentar lucro, assim como já ocorreu no terceiro trimestre", ressalta. A recuperação da economia americana é uma boa notícia também para a Gerdau, que tem cerca de 50% de suas receitas provenientes dos Estados Unidos.

Entre as gigantes nacionais, a Petrobras deve apresentar resultados operacionais melhores na comparação anual, por conta dos aumentos de combustíveis implementados no ano passado. A expectativa do Citi é que o Ebitda fique em R$ 18,5 bilhões, alta de 54% na comparação com um ano antes, impulsionado ainda pelas iniciativas de redução de gastos. Já o lucro deve cair 28,6%, para R$ 5,5 bilhões – com potencial de alta, dadas as dúvidas sobre a contabilização de R$ 3 bilhões em venda de ativos.

A analista Karina Freitas, da Concórdia, pondera, no entanto, que os acidentes ocorridos em refinarias em dezembro podem pressionar margens, já que a estatal pode ter de importar mais derivados para atender a demanda interna, ampliando o prejuízo do segmento de distribuição.

O setor de aviação, por sua vez, deve ter boas surpresas. No caso da fabricante Embraer, as entregas de aeronaves no quarto trimestre ficaram muito acima do esperado e levaram a um aumento de até 10% nas expectativas para o Ebitda no trimestre. O Citi ressalta que a companhia é beneficiada ainda pelo real mais fraco, já que tem o dólar como moeda funcional.

A Gol , comandada por Paulo Kakinoff, foi bem-sucedida na estratégia de reduzir a oferta de assentos domésticos para ganhar em preços e aumentou a oferta de voos internacionais para suavizar o impacto da moeda americana sobre custos. A empresa reportou que a receita média por passageiro subiu 24% no último trimestre do ano em relação ao mesmo período de 2012. O yield, que mostra o avanço das tarifas, subiu 19% na mesma base de comparação. Com isso, a estimativa de analistas é que o quarto trimestre seja o melhor do ano. Segundo o Bank of America Merrill Lynch (BofA), a expectativa é que a margem antes de juros e impostos (Ebit) fique em 6,2%, atingindo o pico da meta estabelecida para 2013.

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Fonte: Valor | Por Natalia Viri | De São Paulo

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