Divisão de cacau da Cargill no Brasil eleva exportação

Em épocas de vacas magras, chocolate é artigo de luxo. E é por isso que, em face da queda na renda no Brasil e de um consumo cada vez menos promissor, o mercado externo se torna mais sedutor para a indústria do cacau instalada no país. Ao menos essa tem sido a aposta da multinacional americana Cargill, que vem aumentando a participação das exportações em suas vendas de derivados de cacau como manteiga e pó produzidos em sua unidade no Brasil – e que, no mês passado, protagonizou o primeiro embarque de cacau em grão do país em cerca de 20 anos.

As exportações de derivados sempre estiveram presentes na estratégia da companhia no Brasil, mas até meados do ano passado não eram uma prioridade. "A mudança de foco começou desde que percebemos esse panorama do mercado brasileiro, na época de Copa do Mundo de 2014", diz Miguel Sieh, diretor da unidade de negócios de cacau da Cargill no Brasil. A empresa é uma das quatro maiores processadoras da amêndoa no país e este ano foi responsável por quase metade do cacau importado até outubro. No ano passado, as exportações de derivados representaram 25% do volume comercializado pela empresa, enquanto de janeiro a novembro deste ano a fatia subiu para 30%.

Apesar dessa diferença ser relativamente pequena, a guinada para o mercado internacional contraria a proposta inicial da Cargill, que montou no país uma estrutura voltada para ofertar os subprodutos do cacau para a indústria nacional de chocolates e confeitos. Ainda assim, essa transição ocorre em um momento favorável para as exportações brasileiras, azeitadas pela hipervalorização do dólar em relação ao real neste ano, e diante da forte demanda dentro do próprio continente, sobretudo na Argentina e nos Estados Unidos.

A fraqueza do consumo doméstico também foi um dos fatores que permitiu à Cargill realizar o embarque de 6,6 mil toneladas de cacau em grão em outubro, a primeira exportação brasileira da amêndoa desde o início da década de 1990. Nos últimos 20 anos, o país deixou de exportar a commodity por causa do ataque da vassoura-de-bruxa às plantações da Bahia, que derrubou a produção nacional de um patamar de 400 mil toneladas na década de 1980 para aproximadamente 120 mil toneladas no início dos anos 2000.

Sieh ressalta que o embarque de outubro foi pontual, sendo muito difícil prever quando essa sorte voltará a se repetir. "Nós ainda estamos nos beliscando aqui", comenta o diretor da companhia. Porém, ainda que isolada e insesperada, a ocorrência foi suficiente para que a Cargill registre até o momento deste ano uma balança comercial positiva, já que as importações ficaram em apenas 5 mil toneladas desde o início do ano – bem abaixo das 18 mil toneladas importadas pela companhia no ano passado.

A realização do embarque e esse tombo no volume importado de cacau não se explicam apenas pela tibiez da demanda industrial. Um fator que influenciou fortemente foi o aumento da produção nacional de cacau da safra 2014/15. Neste ano, por conta de uma série de fatores climáticos, a colheita da safra temporã da Bahia, que costuma durar de maio a setembro, ficou concentrada em apenas dois meses, despejando a maior parte da produção esperada em uma janela de tempo curta demais para que as indústrias conseguissem absorver toda a oferta da matéria-prima.

O volume também foi maior, e muitas indústrias tiveram dificuldade de encontrar espaço para armazenar tanta amêndoa de cacau que saía das lavouras. A TH Consultoria, sediada em Salvador, calcula que a colheita da safra temporã da temporada 2014/15 na Bahia tenha ficado em cerca de 1,6 milhão de sacas, ante as 1,3 milhão de sacas do ciclo anterior. E, diferentemente de outros cultivos, o cacau não pode ficar armazenado por muito tempo, observa Sieh.

Esse excedente de oferta alterou a correlação de preços no mercado brasileiro. Como nas últimas duas décadas a produção nacional ficou abaixo da demanda das indústrias, a commodity vinha sendo ofertada no mercado doméstico por valores em geral superiores aos praticados na bolsa de Nova York. "Essa é outra razão pela qual não se exportou no passado", avalia Sieh.

Neste ano, porém, a abundância da colheita permitiu que o cacau fosse negociado com desconto no país. Aliado ao estímulo da desvalorização do real, o cacau brasileiro tornou-se, assim, mais competitivo neste ano para compradores internacionais. O embarque realizado pela multinacional também foi facilitado porque a carga foi destinada para uma empresa processadora coligada à Cargill na Holanda.

Esses fatores, porém, não garantem que o Brasil volte a ser um fornecedor de cacau a outros países no curto-prazo. Sieh observa que, após cerca de 20 anos de ausência do cacau brasileiro no mundo, os consumidores dos outros países se desacostumaram com o gosto da amêndoa nacional. "Se o mercado internacional não usa amêndoa brasileira há um tempo, não é de uma hora para outra que troca a amêndoa que estão habituados a usar pela brasileira", diz.

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Por Camila Souza Ramos | De São Paulo
Fonte : Valor

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